O euro e a Grécia: a política em primeiro lugar! – por Gil Mihaely

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

O euro e a Grécia: a política em primeiro lugar !

Em Atenas, a dívida garante o interesse colectivo

 

Gil Mihaely, Revista Causeur.fr

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A crise grega é uma questão política. É uma questão política, em primeiro lugar, porque a União europeia é uma estrutura política e a sua moeda única, o euro, é também ele uma questão política. Os que fizeram o euro sabiam pertinentemente que ligar por uma só moeda, por uma só divisa, vários Estados, várias economias muito heterogéneas, vários mercados – e códigos – do trabalho e vários sistemas fiscais não era sustentável. Teria sido necessário logicamente começar pela Europa política, ou seja por um projecto que consistisse em apagar todas as diferenças entre os Estados – fiscalidade, direito do trabalho e assim sucessivamente – para criar um super-Estado europeu antes de encarar uma moeda supranacional única. Mas isso não era possível, politicamente. O euro por conseguinte foi criado por pessoas que sabiam que esta moeda sem Estado cedo ou tarde daria origem a uma crise e que neste momento o única saída seria – pensavam eles – seria, adivinha-se, uma Europa política!

A integração da Grécia na zona euro era política. A história é hoje bem conhecida. No fim dos anos 1990, os nossos líderes sabiam que, do ponto de vista económico, a Grécia não tinha nada que vir fazer parte desta, mas os dirigentes europeus faziam política. Jogo de trouxas entre franceses e alemães, Paris que tenta prender os vagões da Europa do Sul à locomotiva de Berlim para melhor travar a Alemanha e para melhor a poder controlar. Em Berlim, tinha-se muito compreendido o objectivo, mas dizia-se que “logo se via”. Para Atenas, era também a política. Sem esforço real, pensavam os líderes gregos, a Grécia continuaria a beneficiar, directa e indirectamente, do maná europeu. Isto deveria coordenar o projecto estratégico da estabilização definitiva da Grécia, que foi iniciado com a sua integração na Europa alguns anos após a queda dos Coronéis. E sobretudo na época em que toda a gente, ou quase toda, partilhava então a visão estratégica de Chirac: se rebentar, desenrascar-nos-emos! E rebentou.

Alguns dos beneficiários destas políticas, ou seja, os cidadãos gregos, encontraram-se encurralados. De repente, pela primeira vez começaram a falar economia. Austeridade ou keynesianismo, taxas de câmbio e resgate do sistema bancário. Enquanto que isto é  pura e simplesmente política! A dívida é uma arma política apontada contra a têmpora da Grécia. É sob a ameaça mortal de uma falência que a democracia grega começou a fazer a política: rever as suas prioridades, enfrentar a questão do cadastro, da fiscalidade, a corrupção, o clientelismo… Às vezes, ter-se-ia jurado que os governos gregos pediam eles mesmos “às instituições” que aguentassem bem a barra das reformas para que eles se pudessem virar seguidamente para os seus cidadãos e clamar que “não! Não é mais possível!” Se a ardósia for apagada antes de que a Grécia retome os carris da marcha e se endireite – de acordo com as modalidades que ela própria terá escolhido – então não sairá do buraco onde se encontra. Cada um pedirá a sua parte do bolo e tudo recomeçará.

E o sofrimento do povo grego? É uma excelente pergunta, mesmo quando vem dos que têm um pequeno fraquinho por Robespierre ou Estaline. É necessário reconhecer este sofrimento e fazer o que é possível para o atenuar. O estado do serviço de saúde da Grécia é uma vergonha para a Europa e uma mancha indelével sobre a sua história. Mas é necessário também compreender que, dado que se trata de política, as coisas frequentemente são apresentadas de maneira ligeiramente enviesada. Assim foi, o encerramento da televisão grega, há dois anos, que foi apresentado como uma questão de liberdade de expressão e de luta por um serviço público de qualidade. Na realidade, tratava-se de um mamute de 2700 assalariados que desde há muito desejavam reformar e racionalizar, coisa impossível antes de a crise e a dívida derem ao governo a força de dizer, é tempo de PARAR. Quanto à questão das reformas, evidentemente vimos o que o actual governo grego nos desejava mostrar. Era necessário olhar um pouco mais detalhadamente para descobrir que a reforma antecipada aos 55 anos se tornou uma macacada que permite diminuir o número de funcionários: faz-se com que estes passem do estatuto de assalariados do Estado para o de reformados do Estado. Quando “as instituições” levantam problemas porque fazem explodir a factura, os nossos meios de comunicação social encontram apenas vovós de 90 anos cuja pensão de reforma faz viver toda uma família. Ninguém tem o direito de se interrogar sobre as escolhas políticas feitas muito antes, a montante, pelos gregos, em contrapartida a todos é solicitado que passem pela caixa…e paguem .

A crise grega é uma história infeliz e as responsabilidades são tão numerosas que há responsabilidades para toda a gente, nós inclusive. Mas dado que se trata de uma questão eminentemente política, é necessário compreender que os Gregos têm hoje necessidade desta dívida para se começarem a movimentar – na direcção que escolherão democraticamente. A democracia grega foi de tal forma enfraquecida por interesses específicos que somente a dívida lhes permite restabelecer uma relação de força contra estes últimos e pôr em primeiro lugar o interesse colectivo. É também isto, a política.

Gil Mihaely, Revista Causeur.fr L’euro et la Grèce: la politique d’abord! À Athènes, la dette garantit l’intérêt général. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/grece-euro-europe-allemagne-33493.html

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