A CANETA MÁGICA – A Literatura grega moderna – uma bela odisseia – 2 – por Carlos Loures

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Já aqui contei como se organizavam e decorriam as reuniões político-culturais nas casas dos antifascistas. Em 1967, vivia e trabalhava numa pequena cidade. Geralmente às sextas-feiras, organizávamos uma dessas reuniões. Não era sempre na mesma casa, íamos rodando e convinha dar um aspecto de reunião social, celebração de um aniversário, por exemplo – bolos caseiros, bebidas e, sobretudo, “novidades”. Alguém vindo de Paris, trouxera uma “novidade” uma gravação em fita magnética de um apelo ao povo grego dito por Mikis Theodorákis, o cantor, compositor (autor da música de «Zorba») e político marxista que passara à clandestinidade quando do golpe militar de direita de 21 de Abril desse ano – um apelo ao seu povo. A reunião foi em minha casa.

Ninguém sabia grego.  Alguns de nós tinham estudado grego clássico no Complementar dos liceus ou na Faculdade, mas mesmo esses mal compreendiam uma ou outra palavra – geraram-se pequenas polémicas…   A maioria exigiu que cessasse a tentativa falhada de tradução – só perturbava. A emoção que, de forma crescente, ia transparecendo da voz de Theodorákis, era tão forte que no fim da audição ficámos em silêncio, visivelmente comovidos. Em cada um dos nossos corações havia uma tradução. Vivíamos sob uma ditadura e isso fazia-nos compreender a oratória de qualquer ser humano fugido à polícia política, á tortura e à morte, falasse ele que língua falasse. Theodorákis só podia estar a apelar a que os gregos e as gregas lutassem pela liberdade e pela democracia.

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Em 1971 voltei a Lisboa. Durante uns anos vivemos, eu a mulher e os filhos, de traduções. Foi assim que fui tradutor de André Kedros, o ficcionista grego que escrevia em língua francesa. Não era bem assim – o seu nome de baptismo era Virgile Solomonidis, nascera em Bucareste de pais gregos, usava dois pseudónimos – o de André Massepain e o de André Kedros – foi sob este último nome que se tornou conhecido e obteve prémios. . Lembro-me de ter vertido para português o seu Le soleil de cuivre.

Massepain assinava sobretudo traduções para francês – do romeno, do alemão e do inglês. Solomonidis trabalhava na Robert Lafont. E foi o ter traduzido Kedros que levou o editor a entregar-me o Diário de um Resistente, de Mikis Theodorákis (da edição francesa, que o meu grego mal deu para ler as placas toponímicas de Atenas quando ali estive uns dias). E pude saber o que o famoso cantautor e político dissera e que naquela noite nos comovera.

É um texto muito longo que começava por dizer que «O rei, oficiais traidores e magistrados perjuros, de colaboração com os imperialistas americanos, aboliram a democracia na Grécia.» E terminava. «No país onde a democracia nasceu, os tiranos estão votados à morte. Abaixo a ditadura monarco-fascista! Fora com o opressor estrangeiro! Abaixo o carrasco Collias! Viva o povo grego! Viva a Grécia!». Tinham sido estes gritos finais que nos tinham emocionado. E a nossa emocional tradução estava certa. As palavras eram outras – o sentimento era o mesmo.

Há uma outra situação relacionada com o  Diário de um Resistente, de Mikis Theodorákis. Fica para a próxima.

 

 

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