A CANETA MÁGICA – A Literatura grega moderna – uma bela odisseia – 4 – por Carlos Loures

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Como disse, a Literatura não deve ser nunca separada da vida; mas é é também inseparável da História do país em que nasce. Em Portugal, a língua veio com os barões que rodearam o Fundador, e foi sendo construída à medida que a nova Nação consolidava a sua soberania. Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões, burilaram o galego e foram edificando idioma, construindo uma literatura e consolidando a nação até que Pessoa definiu a língua como sendo o espaço pátrio por excelência. A Grécia é uma nação jovem de jure. Mas viveu milénios nas cabeças de sucessivas gerações de gregos.

A Grécia, berço cultural da Europa, com referências históricas que remontam ao II milénio a.C., nunca foi um estado unificado senão em 1830 quando, após uma luta pela independência apoiada pela pressão das grandes potências (Grã-Bretanha, França e Rússia) o estado grego foi criado como barreira ao expansionismo otomano. As raízes culturais do mosaico de pequenos estados que constituíam a Grécia Antiga foram recuperadas e, em alguns casos, reconstituídas e convencionadas. Não estou a dizer que a Grécia é uma invenção de ingleses, franceses e russos.

Os gregos resistiram sempre á dissolução, mas três séculos depois da queda de Constantinopla (1453) a única expressão literária que restava aos gregos eram as canções populares. Apoiados nesse substracto, intelectuais imbuídos do espírito iluminista começaram a criar movimentos helenistas. E dessa plataforma se partiu para os ideais independentistas. A Nação grega foi criada a partir dos pedaços que, da sua ancestral cultura, perduravam no imaginário colectivo das populações submetidas ao jugo otomano.

O grego escrito sobrevivera em alguns focos de resistência à otomanização, tais como as comunidades gregas de Veneza (e de Creta, enquanto a ilha foi admnistrada pela Sereníssima, até 1669) e de Chipre até a ilha ser tomada pelos turcos em 1571 – no dialecto cipriota, foram escritas obras literárias tais como crónica de Leóntius Machairás. em Creta, enquanto durou o domínio veneziano floresceu uma literatura interessante escrita no dialecto cretense – poesia, tragicomédias pastorais e uma peça religiosa de influência italiana. O nome mais importante é o de Georgios Chortátsis e, já no século XVII, destaca-se Vitséntsos Kornáros, autor do poema narrativo Erotókritos. Mas a independência não foi conseguida através de uma luta exclusivamente literária. A literatura acompanhou a luta no terreno e glorificou-a. Nikos Kazantzákis deu ao heroísmo dos cretenses uma merecida visibilidade literária. Os seus heróis ainda hoje vivem na nossa imaginação -o heróico capitão Mikael ou  Zorba,  por exemplo. E quando falamos em Zorba logo nos ecoam os acordes da melodia criada por Mikis Theodorákis, também ele um resistente. Dele voltarei a falar e de outros. De Kazantzkis, por exemplo.

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