EUROPA: O FALHANÇO DA ESTRATÉGIA DA CONTENÇÃO – por ROMARIC GODIN

europe_pol_1993 Selecção, tradução e introdução de Júlio Marques Mota

EUROPA: O falhanço da estratégia da contenção

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Romaric Godin, L’ÉCHEC DE LA STRATÉGIE DU “CONTAINMENT”

Okeanews.fr, 26 de Maio de 2015

Utilizando  a linha dura contra a Grécia, os credores queriam  criar   um exemplo político. Esta estratégia parece ter falhado  completamente , como o demonstram as eleições de Domingo na Espanha e na Polónia.

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Pablo Iglesias,dirigente do Podemos, durante as eleições locais (Crédits : ANDREA COMAS)

 

As eleições locais espanholas do domingo 24 de maio assinam, para além do contexto local, o malogro da estratégia dos dirigentes desde a tempestade levantada pela  vitória de Syriza a  25 de Janeiro passado. A recusa do compromisso com o governo grego foi caracterizada pela rejeição completa “das listas de reformas” apresentadas por Atenas, pelo desencadear a partir de Bruxelas  de um processo de asfixia financeira da Grécia e pela insistência sobre medidas de austeridade que se hesitava em exigir  ao governo conservador de Antonis Samaras.

Os objectivos dos credores da Grécia

Qual era o objectivo desta estratégia? Certamente que não é, como no-lo tentam fazer crer , assegurar o reembolso das dívidas contraídas  pela Grécia junto dos seus “parceiros.” Assegurar um  tal reembolso colocando um país à beira da falência, reduzindo os meios de acção do seu governo e fazendo pesar sobre o seu crescimento a ameaça de uma declaração de falência  e de  uma saída da zona euro? O que quer que  seja que nos digam os peritos  patenteados, a razão quereria neste negócio que os credores, ao mesmo tempo que obtinham as  garantias que os Gregos estavam prontos para lhes dar , deixassem  trabalhar o novo governo grego. O acordo de  20 de Fevereiro, onde Atenas aceitava pagar o que devia e se  reconhecia   ligada  “pelos acordos existentes”, o que eram já concessões consideráveis, deveria ter sido suficiente para os seus  credores. O interesse económico de toda a Europa seria o de rapidamente  resolver  esta questão grega  a fim de se  concentrarem sobre  a tímida retoma.

A estratégia “da contenção”

Mas fez-se tudo para fazer  durar a crise grega. É que, realmente, a estratégia dos credores era sobretudo política. Assustados por verem  desembarcar nas suas sepulcrais  reuniões energúmenos sem gravata e professando ideias terrivelmente keynesianas, os dirigentes  europeus quiseram “mostrar um exemplo” a fim de “conter” a força  dos que ousam questionar as escolhas tomadas desde 2010. Esta estratégia era a mesma que a do presidente americano Harry Truman, no início da guerra fria, este “containment” de cuja Grécia foi, uma das mais  cruéis vítimas de  uma guerra civil que a marcou de uma forma  duradoura. Para evitar que outros “dominós” viessem a cair, para evitar que outros países vítimas da lógica “dos resgates do euro” exijam por sua vez  uma reestruturação das suas dívidas, era necessário colocar pôr o governo Tsipras de  joelhos. Era necessário que o primeiro ministro grego acabasse por  reconhecer  a verdade das escolhas económicas impostas pelos credores. Então, prova teria sido  feita de que “não há alternativa” dado que mesmo os que professam uma alternativa acabam por aceitar  o breviário. Portanto, para quê votar ainda contra o pensamento económico dominante?

A lição espanhola

Este cálculo falhou. Aconteça o que acontecer,  não somente a resistência grega coloca os credores doravante na posição de terem que assumir o risco de um incumprimento o grego, mas a procura de uma capitulação política grega não permitiu conter as oposições noutros lugares da  Europa. É a  principal lição  das eleições espanholas de 24 de maio. Certamente, convém recordar que o partido popular (PP) de Mariano Rajoy permanece como o  primeiro partido do país. É necessário também sublinhar quanto o movimento  anti – austeridade Podemos parece ser um fenómeno urbano. Mas “o exemplo grego” não dissuadiu os eleitores espanhóis “de punir” os dois grandes partidos que tinham apoiado a austeridade em 2011. Podemos, que as sondagens diziam em declínio, espantou os espíritos impondo-se como uma força central em  Madrid e Barcelona, mas também em Saragoça. Quanto ao partido “centrista” Ciudadanos, uma espécie de cópia do grego Potami, partido “renovador”, mas “pró-europeu”, ganhou de forma  bem mais limitada do que se pensava. Por último, a expansão da esquerda, de todas as tendências incluídas, é muito nítida. Resumidamente, se Podemos não está certamente “à porta do poder” e se a Espanha não é  a Grécia, a estratégia “do containment” falhou seguramente  este Domingo.

Pesadelo espanhol

Este resultado é um verdadeiro pesadelo para os líderes europeus. Primeiro, porque, como a vitória de Syriza  no 25 de Janeiro, o sucesso de Podemos em  Madrid e Barcelona e o desmoronamento por toda a parte dos conservadores permite relativizar “o milagre económico espanhol” que seria o fruto “das reformas dolorosas.” Os Espanhóis, nas urnas, arruinaram esta história mal contada storytelling que se tem  tornado recorrente para fazer aceitar as referidas reformas, nomeadamente deste lado dos Pirinéus. Seguidamente, porque as eleições do 20 de Novembro apresentam um desafio delicado para a Europa. Se Podemos participar ao poder, haverá um  repor em causa  da ideologia dominante na Europa, e um novo dominó cairá. Se, em contrapartida, os dois partidos tradicionais se combinam  “numa grande coligação” com que tanto sonhar os altos-funcionários europeus, Podemos tornar-se-á a primeira força de oposição e corre-se o risco  de se  adiar a queda do dominó espanhol para   mais  tarde.

Sequência em  Portugal e na Irlanda?

“A política da contenção” parece ter falhado nos outros países que conheceram as visitas da Troika. Se o partido “Podemos” não se reproduz em  Portugal como algo de equivalente ao Podemos de Espanha  e se a extrema-esquerda não progride, os Socialistas portugueses deixam de  hesitam em   retomar os elementos de linguagem da esquerda radical e evocam nomeadamente a partir daqui  uma negociação sobre a dívida. Na Irlanda, o Sinn Fein poderia também no próximo ano criar uma dinâmica de expansão e ganhar   o primeiro lugar, o que, aí  também, poria igualmente em causa o famoso “ regresso do Tigre céltico graças à austeridade.” Nestes  dois casos também não, o tratamento infligido aos Gregos não teve o efeito esperado pelos líderes europeus.

Euro-cépticos de direita também têm o vento em popa

Mas há ainda pior. A estratégia “do containment” também não teve nenhum êxito em acalmar o desenvolvimento dos euro-cépticos  de direita. Por uma razão bem simples: a dureza com a qual os Gregos são tratados alimentou o sentimento  “anti Gregos” e mais largamente anti-euro destes movimentos. A desconfiança dos credores da Grécia foi tomada como prova da realidade dos clichés contra este país. Uma bênção para movimentos como os Verdadeiros Finlandeses   de Timo Soini, que alcançou a  segunda posição a  19 de Abril,  aquando das eleições legislativas finlandesas, mas mais geralmente para todos os euro-cépticos  do Norte. Do mesmo modo, a utilização pelos credores das oposições internas à zona euro entre “os bons alunos pobres” (bálticos ou de Europa central) e “os maus alunos” do Sul para fazer ceder  Atenas foi pão abençoado para os movimentos nacionalistas destes países. Sem estar a contar que estes países tenham podido  ver nos renascimentos da crise grega a confirmação de três dos seus pressupostos: a incapacidade da burocracia de Bruxelas, o estar a colocar-se em perigo pela Europa do dinheiro dos contribuintes e pela falência “dos salvamentos” de 2010-2011.

Também o eurocepticismo floresce cada vez mais  ao norte e a leste. Domingo, onde os eleitores polacos infligiram uma bofetada retumbante a Bruxelas elegendo contra qualquer espectativa para a  presidência da República o conservador euro-céptico  Andrzej Duda, contra o candidato do presidente do Conselho europeu e antigo primeiro ministro Donald Tusk!

O apelo de  Matteo Renzi

“A contenção”  mete por conseguinte  água por toda a parte . Os dirigentes  europeus deveriam por conseguinte repensar toda a sua estratégia face à Grécia, mas, de um modo mais geral , deveriam repensar os fundamentos do seu  pensamento económico. Os eleitores não estão sempre errados   e os seus  “protestos” revelam também uma forma de realidade económica que os líderes se obstinam  em  não querer apreender em nome do “longo prazo.” Esta  cegueira  que faz de toda e qualquer política alternativa “um populismo ” leva a Europa contra a parede.  Matteo Renzi que, neste fim de semana, deverá  ter de enfrentar eleições   regionais difíceis, mais uma vez, apelou à Europa “a mudar. ” Será ouvido? Tudo começaria pela construção de uma verdadeira discussão com Atenas. Mais do que nunca o futuro da Europa joga-se na Grécia.

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