Euro: Fim de jogo, acabou – por Roland Hureaux

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Euro: Fim de jogo, acabou

Sem uma saída do euro, não há salvação para a Grécia

Roland Hureaux, Revista Causeur.fr.

 

“Desta vez o euro está salvo, a crise grega está concluída”. Um concerto de satisfação saudou, tanto nas esferas do poder como na esfera mediática, o acordo que foi estabelecido em 13 de Julho em Bruxelas entre o governo Tsipras e as instâncias europeias – e através delas, os grandes países, com a Alemanha à frente.

Espantosa ilusão: como se a diplomacia pudesse vir em socorro do real. Não é Philippe Muray que disse um dia: “O real fica adiado para uma data posterior?

Não há, de facto, nenhuma possibilidade de que este acordo resolva alguma coisa

Passemos por cima da espantosa reviravolta de Alexis Tsipras que organiza um referendo onde o “NÃO” ao plano de austeridade da Europa é aprovado com mais de 62% dos votos e que, imediatamente após, oferece um plano quase tão austero como o que a Europa queria.

 

Ajuda contra sacrifícios

Este plano tem três componentes: as dívidas da Grécia deve ser espalhadas no tempo, diferidos os seus pagamentos ; até onde? Não se sabe ainda, será decidido apenas em Outubro. A Grécia receberá novas facilidades no montante de 53 mil milhões de euros (reembolsáveis), além da libertação de 25 mil milhões de dotações do plano Juncker (não reembolsáveis). Deve em contrapartida aprovar sem demora, uma série de reformas: aumento do IVA, recuo na idade de passagem à reforma, luta reforçada a contra a fraude fiscal, etc.

A  componente das reforma corresponde a uma verdadeira lógica económica ? Imediatamente aplicadas, estas medidas atingiriam ainda mais negativamente a actividade económica grega , como todas aquelas que têm sido impostas sobre a Grécia desde há quatro anos. Não seria melhor que este país consagre   os novos recursos ao investimento e   não seja obrigado a retornar ao equilíbrio senão no momento em que o crescimento, graças a esses investimentos, comece a mostrar claros sinais de retoma? Qual é o país que alguma vez tenha alcançado o equilíbrio nos seus principais saldos numa situação de recessão?

Menos longe de considerações técnicas, esta exigência de reformas não é ela sobretudo inspirada no velho moralismo protestante: ajudar os pobres, que isso seja feito, mas somente se estes fizerem esforços para saírem da sua situação de pobreza ; mas que esforços? Pouco importa desde que destes benefícios se sintam reconhecidos!

Seja como for, para tornar a ser solvente e por conseguinte reembolsar um pouco do que devem, a Grécia deve ter contas externas não somente equilibradas mas excedentárias. Para isso, precisa de exportar.

Porque não exporta hoje, e além disso porque é que compra produtos como azeitonas? Porque os seus custos são demasiado elevados. Porque é que são demasiado elevados? Porque estes variaram à alta mais do que nos outros países da zona euro desde há quinze anos. E seja o que for que pretendem certos peritos, isto é irreversível.

Nenhuma esperança sem saída do euro

A Grécia tem uma esperança de ficar excedentária permanecendo no euro? Nenhuma.

Somente uma desvalorização e por conseguinte uma saída do euro que diminuiria os seus preços internacionais em cerca de um terço lhe poderá permitir retomar um pé sobre os mercados.

É dizer que o acordo que foi alcançado, supondo que todos os Estados o aprovem, será posto em causa entregue dentro de alguns meses quando se aperceberem que a economia grega ( não confundir com o orçamento do Estado grego) permanece deficitária e que, consequentemente, a Grécia não pode reembolsar praticamente nada.

Disseram-lhe e muitas vezes; a saída pela desvalorização será dura para o povo grego, devido ao aumento do preço dos produtos importados, mas permitir-lhe –á, ao fim de alguns meses, começar a recuperar. Sem a saída do euro, haverá também sacrifícios mas não haverá esperança.

Podemos supor que os peritos que se reuniram à Bruxelas sabem tudo isto. Os técnicos do FMI disseram-no e quase que nestes termos. Uns e outros mesmo assim assinaram.

Os Alemães que já emprestaram muito à Grécia e sabem que não recuperarão nada do que lhes emprestaram, pensões de reformas ou não , não se querem empenhar mais. Bem, assinaram mesmo assim. Bem,  mais do que a atitude mais flexível de François Hollande, é uma pressão tão firme quanto discreta dos Estados Unidos que terá forçado Merkel a  aceitar um acordo, para com e contra uma opinião alemã em crescendo contra os gregos.

Quanto a Tsipras, terá ele tido que sofrer as mesmas pressões ( de que maneira é que?) ou joga ele   um jogo-duplo   para colher ainda algumas vantagens antes de uma ruptura definitiva – que veria sem dúvida o regresso de Yannis Varoufakis. Os próximos dias irão dizê-lo.

 

O mediador discreto

Não se compreende nada nesta história desta crise se não se tem em conta, por detrás da cena, o mediador discreto de Washington que, por razões geopolíticas tanto quanto económicas, não deseja nem a ruptura da Grécia, nem o rompimento do euro.

Este dado relativiza tudo o que se pode dizer sobre as tensões “do casal franco-alemão” (isto faz cinquenta anos que os Alemães nos fazem saber que não gostam desta expressão de “ casal” mas a imprensa continua infatigavelmente a utilizá-la!). No dicionário das ideias recebidas: Merkel a dura contra Hollande o negligente, Merkel, a chanceler de ferro, que tem entre as suas mãos o destino da Europa e que impôs o seu diktat à Grécia. É certamente importante saber que as coisas são vistas desta maneira (e uma vez mais o nosso lamentável Hollande tem o mau papel!). Mas a realidade é muito outra, bem diferente. O que a Alemanha queria impor não é nada mais que um princípio de coerência conforme aos tratados que fundaram o euro. O que Tsipras concedeu, é o que não fará de todas as maneiras, pela simples razão de não o poder fazer. Merkel foi forçada ao acordo por Obama contra a sua opinião pública. “A vitória da Alemanha” é duplamente ilusória: em primeiro lugar não defendeu os seus interesses mas sim a lógica do euro; esta lógica, ela só a impos sobre o papel.

Mas então porquê, tanta obstinação por parte da Europa de Bruxelas, da França e da Alemanha (e sem dúvida da América) em encontrar uma solução para o que desde o início é a quadratura do círculo? Porquê tanta rabugice no que diz respeito aos Gregos e todos os que tomaram mais ou menos a sua defesa, ao ponto de anestesiar todo e qualquer debate económico sério?

O jornal Le Monde acendeu a mecha colocando como grande título : “A Europa evita a implosão mantendo a Grécia no euro.” Lemos bem: a Europa, e não somente o euro. Embora a Grécia represente apenas 2% do PIB da zona euro, a sua manutenção nesta zona condiciona a sobrevivência do euro. Mas, para além do euro, é toda a construção europeia que parece dever ser posta em causa se a Grécia saísse e se, devido à Grécia, a zona euro estoirasse. Ainda aqui, o paradoxo é grande: como é que pequenas causas podem ter assim efeitos tão grandes? Esta simples constatação mostra, se necessário fosse, a fragilidade do edifício europeu. Esta fragilidade reaparecerá quer se queira quer não , até à queda do que se prova cada vez mais ser apenas um castelo de cartas, o edifício europeu .

Face a uma tal perspectiva, os Europeus, disseram ao carrasco “ por favor, ainda um minuto mais” Um minuto, ou alguns meses mais, mas não mais.

 

Roland Hureaux, Revista Causeur.fr. Euro: Fin de partie remise-Sans une sortie de l’euro, point de salut pour la Grèce. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/grece-euro-merkel-obama-33817.html

*Photo : Markus Schreiber/AP/SIPA/VLM133/812735085543/1506081323

 

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