Os desminadores em volta da bomba atómica grega – por Jean-Claude Werrebrouck I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Os desminadores em volta da bomba atómica grega

Do blog La crise des années 2010

 

O nosso artigo “a bomba atómica grega: quantas megatoneladas?” publicado em Junho passado sobre este blog está a ter uma actualidade muito maior do que aquando da sua publicação [1]. As suas conclusões permanecem completamente actuais.

Simplesmente, o referendo grego tem posto à luz do dia o jogo dos empresários políticos e os instrumentos que têm à sua disposição.

Até aqui, a fachada ordoliberal era mantida no sentido de que o conjunto dos empresários (empresariato) políticos político se escondia largamente por detrás das instituições que abrigam um pessoal politico-administrativo às ordens: altos funcionários da Comissão, do Eurogrupo, ou mesmo do “independente” BCE….de facto tornado um agente da desestabilização da economia grega, etc. Neste jogo, o FMI constituía um actor bastante diferente, uma vez que era estrangeiro ao teatro europeu e fazia prevalecer os seus próprios interesses – incluindo os que passavam pela renovação de mandato da sua Directora-Geral- os quais passam mais pelo respeito do liberalismo clássico do que do ordo-liberalismo alemão.

Porque o referendo era um meio de largar os debates técnicos em proveito do sentido dado à construção europeia, os empresários políticos, em especial os mais importantes, devem acompanhar mais directamente a desminagem da bomba grega.

Os servidores e os desminadores da bomba

Em redor da bomba, há:

– Os seus detentores, susceptíveis de a accionarem e para quem ela pode representar uma força de dissuasão: trata-se certamente dos actuais detentores do poder grego, os quais viram ser-lhe entregues as chaves do poder à saída do referendo. Podem accioná-la em qualquer momento, não, não através da criação de uma moeda paralela que assegura os pagamentos em termos de reconhecimento de dívidas, mas muito simplesmente pelo controlo do banco central e do conjunto do sistema bancário [2].

– Os empresários políticos alemães que só se podem reproduzir no poder se eles se afirmarem e se mostrarem como indiferentes à dissuasão imaginando que se trata de uma bomba de papel. Prisioneiros dos eleitores, e estes mesmos a serem prisioneiros de uma religião estritamente alemã, o ordoliberalismo, eles são tentados por uma explosão suave.

Para isso podem agir directamente sobre um instrumento construído à sua medida, o BCE, que pode ser encarregado de uma missão: fazer explodir a bomba de maneira indirecta asfixiando antes aqueles que a detêm . Isto passa pelo fim do dispositivo ELA [3] e o encerramento da conta TARGET para a Grécia. E, se no final à explosão não for suave, estes mesmos empresários políticos não seriam directamente os responsáveis e não seriam directamente os actores da terceira catástrofe europeia, ou mesmo mundial, proveniente da Alemanha.

– Os outros empresários políticos estão em graus diversos ao serviço da religião alemão que adoptaram a título utilitarista com o propósito da sua própria manutenção no poder. Para tanto, o ordoliberalismo do qual a moeda única é procedente, só funciona correctamente se for em proveito do país dominante: a Alemanha, os outros devem respeitar a religião, ao mesmo tempo que a detestam e em graus diversos. É que as políticas ditas estruturais, políticas directamente procedentes da rigidez das taxas de câmbio, fabricam a desvalorização interna, a política da baixa contínua de poder de compra, por conseguinte os riscos da oposição interna e também os riscos de não renovação ao poder. Os empresários políticos franceses estão obviamente neste caso: as classes dominantes francesas, em especial a ligada à finança e às rendas, gostam muito, de forma completamente utilitarista, da religião alemão e desejam um poder que a difunda : a Alemanha é um modelo a seguir….mas as classes dominadas são também susceptíveis de contrariar os resultados eleitorais desejados

Os empresários políticos, a cavalo sobre economias de produtividade global mais afastadas da produtividade da Alemanha (Portugal, Espanha, Itália, etc.), pagaram caro estarem no euro: tiveram que adoptar plenamente a religião alemã. Tiveram mesmo de defender esta religião sob pena de desaparecimento: as taxas de juro sobre a dívida pública tornaram-se objectos ruinosos em detrimento dos que detêm o poder. Daí os empresários políticos que são verdadeiros milicianos a soldo dos empresários políticos alemães: acusam os empresários políticos gregos e têm medo da irradiação que viria a expulsá-los do poder [4].

Outros milicianos podem aparecer no seio dos Estados mais pequenos para os quais o euro constitui uma garantia contra um imperialismo soviético que continua a ser sempre uma ameaça. Vêem-se assim empresários políticos de Estados bálticos ou da Europa central a tomar posições muito anti-Grécia.

Suserano e vassalos na teia da finança.

Os empresários políticos alemães dispõem assim de meios de retransmissão no conjunto da zona. Os alemães são os suseranos que consideram que os seus vassalos continuam a ser equipados pelos mercados políticos periféricos do seu novo império [5].

Por detrás da religião alemã há certamente a finança que vê neste traço cultural fundamental a garantia possível de uma expansão sem limite. É que o ordoliberalismo garante um verdadeiro paraíso: para além de bancos centrais independentes dos Estados, estes últimos são despojados dos seus direitos reais tratando-se da criação monetária a favor de um monopólio bancário. Assim se assegura que a moeda criada será acompanhada de uma taxa de juro vantajosa. Nisto, a finança prefere de longe o ordoliberalismo alemão simples ao simples liberalismo anglo-saxónico.

É o conjunto dos empresários políticos da Alemanha alimentado de ordoliberalismo que melhor protege a finança. Em contrapartida a teia tecida pela finança no espaço da zona euro saberá prestar-lhes eminentes serviços e se, por incidente, os mercados políticos periféricos alimentarem vassalos traidores os mercados financeiros poderão vir a repreender duramente estes últimos com taxas arrasadoras sobre a dívida pública [6].

 

(continua)

 

[1] http://www.lacrisedesannees2010.com/2015/06/la-bombe-atomique-grecque-combien-de-megatonnes.html

[2] É necessário compreender que o pagamento, por exemplo, das reformas, a partir do reconhecimento de dívidas é de imediato inflacionista: os comerciantes não aceitarão os títulos em questão senão na base de um desconto sobre os mesmos. Isto significa dizer que o poder de compra destes títulos só poderá evoluir no sentido da baixa.

[3] Fim ou endurecimento sobre a forma de redução crescente do valor dos ttítulos (decote) servindo de colateral ou garantia.

[4] É particularmente o caso dos empresários políticos espanhóis

[5] Para mais detalhes veja-se : http://www.lacrisedesannees2010.com/2015/03/monnaie-unique-et-emergence-du-nouvel-empire-germanique.html

[6] Nós colocamos aqui o dedo sobre a questão do servilismo dos empresários políticos franceses relativamente aos seus colegas alemães …com o seu célebre slogan : « A Alemanha é um modelo ».

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