A Grécia é tratada como um estado hostil ocupado – por Ambrose Evans-Pritchard II

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 (continuação)

 

O economista Nobel Paul Krugman diz que as exigências da UEM são pura e simplesmente uma “ loucura” e a todos os níveis. “O que nós aprendemos durante estas duas últimas semanas, é que ser membro da zona Euro significa que os credores podem destruir a economia de um qualquer país se este se desviar da norma. Isto não tem absolutamente nenhuma relação com os fundamentais económicos subjacentes à austeridade”, disse.

“Isto ultrapassa a intransigência e torna-se pura vingança, destruição completa da soberania nacional, sem esperança de apaziguamento. É concebida provavelmente para que a Grécia não possa aceitar ; mas mesmo assim, é uma traição grotesca de todo o que o projecto europeu é suposto significar”, afirma Krugman. .

Sim, Syriza foi-se abaixo, mas há muitos capítulos ainda por escrever nesta miserável história.

Os bancos gregos estão praticamente a ficar  em situação de falência. Não há mesmo dinheiro suficiente para cobrir os levantamentos dos distribuidores automáticos de 60 € por dia durante esta semana, ou para cobrir os pagamentos semanais de 120 € aos reformados e aos desempregados – ou seja a minúscula fracção dos desempregados que recebe alguma coisa.

O controlo dos capitais conduziu a uma paragem da economia. Quase nada entra no país. As sociedades consomem os seus últimos stocks  de matérias primeiro e de importações essenciais. Centena de fábricas, moinhos e unidades de fabrico já têm reduzido as suas equipas e preparam-se para deixaram de funcionar  a partir desta semana.

As últimas reservas turísticas caíram em 30%. Syriza enfrenta um sério risco do país esgotar as suas existências de produtos alimentares importados a partir do fim deste mês, com consequências catastróficas para o turismo grego. Assim , face ao horror completo de que se passa, os homens de Syriza recuaram.

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Não há necessidade de ser um oráculo para ver que a Grécia vai ter muitos mais problemas com este acordo

Não há nenhuma dúvida que Syriza vendeu um programa enganador ao povo grego com as suas promessas incompatíveis de rasgar o memorando da Troica e de manter a Grécia no euro. Aprenderam uma terrível lição.

No entanto isto é apenas metade da história. Também vimos o poder dos credores da UEM colocar um país de joelhos, cortando a liquidez de socorro (ELA) ao sistema bancário grego.

 Não há nenhuma dúvida, é a decisão do Banco Central Europeu de congelar o programa ELA a 89 mil milhões de euros há duas semanas que precipitou a crise final e destruiu a vontade de resistência de Syriza. As responsabilidades sobre este episódio são confusas. Pessoalmente, não acuso Mario Draghi do BCE por este abuso de poder. Era em substância uma decisão política tomada pelo Eurogrupo.

Mas de qualquer maneira que isto se disfarce, o facto fica de que o BCE ditou pelos seus actos um resolução política e serviu de braço armado aos credores em vez fazer respeitar a lei do tratado da UE.

O BCE adoptou uma atitude que desestabilizou ainda mais o sistema financeiro de um Estado-Membro da UEM que tinha já graves problemas e fê-lo provavelmente transgredindo o seu primeiro dever fixado pelos tratados, o de manter a estabilidade financeira. É um momento crucial.

O que todos nós bem vimos e com uma grande clareza foi que os poderes dos credores da UEM podem vergar um Estado indisciplinado – na condição de ser pequeno – bloqueando o seu sistema bancário. Também vimos que um pequeno país não tem a mais pequena defesa. É o poder monetário tomado de uma loucura furiosa.

E como se isto não fosse suficiente, o primeiro ministro grego Alexis Tsipras não pode mesmo prevalecer-se junto dos Gregos de ter garantido a redução da dívida, a única coisa que o teria podido salvar. Mesmo isto, a Alemanha bloqueou.

Agiu assim apesar da pressão consequente da Casa Branca e do FMI e se bem que a França, a Itália e os líderes da Comissão da UE e o Conselho admitissem que uma certa forma de redução seja necessária.

O FMI diz que a redução das dívidas deve ser de pelo menos 30% do PIB. Mesmo isto é demasiado baixo. Dados os estragos feitos por seis anos de implosão económica, uma década de investimentos perdida, uma histerese crónica, um desemprego dos jovens a 50% ou mais, uma fuga dos cérebros diplomados e um sistema bancário arruinado, seria ainda insuficiente se toda a dívida fosse anulada. Aqui  está a que situação a que conduziu esta experiência da UEM . [A histerese caracteriza um sistema que tende a permanecer na mesma situação mesmo depois de ter cessado a causa externa que terá gerado este estado, NdT]

Mas tudo o que os Gregos obtiveram foi apenas vagos propósitos sobre uma “possível” extensão das maturidades, a começar algures no futuro indeterminado, uma vez que tenham ultrapassado  inúmeros obstáculos e que tenham tido êxito nos seus exames. É que lhes tinham prometido em 2012. O que nunca se verificou.

“Se os detalhes da redução da dívida não foram escritos claramente no plano global, isso não vale rigorosamente nada”, disse Varoufakis.

O documento da cimeira afirma com uma desonestidade egoísta que a dívida da Grécia descarrilou devido ao malogro dos governos gregos em respeitar os termos do Memorando durante o ano passado. Se isso não tivesse acontecido, a dívida seria sempre sustentável.

É uma mentira. A dívida pública aumentou para 180% durante o final do ano passado – bem antes que Syriza seja eleito – e embora o governo de Democracia Nova tenha respeitado a maior parte das exigências da Troika

A verdade é que a Grécia estava já em falência em 2010. Os credores da UEM recusaram atribuir uma reestruturação normal da dívida porque isso o teria provocado um contágio instantâneo a Portugal, a Espanha e à Itália no momento em que a zona Euro não tinha nenhum refinanciador de última instância nem nenhuma outra defesa .

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O primeiro-ministro de rosto amargurado tem que « vender » um acordo que deixa a Grécia de rastos enfiada na armadilha das dívidas permanentes.

Os documentos divulgados do FMI não deixam nenhuma dúvida quanto ao facto de que o resgate não tinha nenhum outro objectivo que não fosse o de salvar o euro e os bancos europeus mas não a Grécia. Uma maior dívida foi sobrecarregar os contribuintes Gregos para se ganhar tempo, tanto  em 2010 como, de novo, em 2012, pondo de lado a crise com que a  Europa se debate hoje.

Numa maneira estranha, o único político europeu que ofereceu realmente à Grécia uma saída do impasse foi Wolfgang Schäuble,  o ministro alemão das finanças, ainda que a sua oferta tenha sido feita de forma nada elegante, uma vez que foi praticamente feita sob a forma de diktat.

O seu plano para uma saída temporária e ordenada da zona euro durante 5 anos – um eufemismo, porque queria realmente dizer Grexit – com uma redução das dívidas de tipo Clube de Paris, uma ajuda humanitária e um conjunto de medidas de crescimento, poderia permitir à  Grécia reganhar de uma maneira ordenada competitividade com a sua moeda nacional, o dracma.

(continua)

 

Ver original em:
http://www.telegraph.co.uk/finance/economics/11736779/Greece-is-being-treated-like-a-hostile-occupied-state.html

 

A Grécia é tratada como um estado hostil ocupado – por Ambrose Evans-Pritchard I

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