Introdução a três textos esclarecedores de que a situação actual na União Europeia é o produto de circunstâncias historicamente criadas e determinadas – por Júlio Marques Mota II

Falareconomia1

Texto de Júlio Marques Mota

(continuação)

Será que a resolução da crise passa pela substituição de alguns maus dirigentes, claramente psicopatas sociais? É obvio que não. Que é inegável que somos dirigidos à escala internacional por um bando de psicopatas, isso é para nós certo, mas não podemos também esquecer que eles são o produto do sistema, formados pelo sistema e fazem, portanto, parte dele. São eles que pretendem assegurar a reprodução do sistema. É nesta mesma linha que se insere o excerto do texto de Ögmundur Jónasson. E tudo isto nos faz lembrar Marx e o seu 18 de Brumário quando este nos diz:

Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam directamente, legadas e transmitidas pelo passado.

A pergunta acima pode parecer irrelevante e aparentemente seria mais fácil colocar a crise como resultado apenas da muito má qualidade dos nossos dirigentes, (dirigentes precisam-se, dizia há dias Freitas do Amaral) sejam eles à escala nacional ou internacional, mas pensar assim é supor que a crise brutal do sistema se pode resolver por polir falhas do sistema ou pior ainda, por substituição dos nossos governantes mantendo o sistema. Seria esquecer que as pessoas em presença e que nos governam à escala nacional e internacional são a expressão política das forças económicas e sociais dominantes cuja articulação caracteriza em cada momento histórico o próprio sistema. Mudá-las sem mudar a relação de forças é pura quimera e, ou é uma impossibilidade lógica ou é uma prática à Leopardo, ou seja, em que se considera ser preciso que alguma coisa mude mas para que fique tudo na mesma. Mudá-las, mudando a relação de forças seria o 13º trabalho de Hércules. Um trabalho a exigir primeiramente um esforço colectivo de consciencialização política à escala europeia, possível somente com o agudizar da crise, e depois a reconstrução da Europa com estes dirigentes a serem julgados politicamente num tribunal europeu e responsabilizados pelos estragos realizados à escala de todo o nosso continente. Por outras palavras, a tomada do poder na Europa pelos cidadãos.

Um pouco de tudo isto nos fala o antigo ministro da Islândia quando se refere: a barbárie, à ganância, ao colonialismo, ao império, aos atentados à civilização, à democracia, que todo este processo está a revelar. Um certo cheiro a cinzas dizia alguém na Revista Causeur. Mas é Verão e são portanto temas que não iremos desenvolver. Basta-nos referir que na noite de 12-13 de Julho é toda a Europa que ficou cativa da Alemanha, num verdadeiro golpe de Estado sancionado pelos restantes parceiros europeus, de tendência de direita ou socialista. E nesta Europa cativa os países do Sul assumem o estatuto de verdadeiras colónias da Alemanha, para melhor serem exploradas1.

A este respeito e muito curiosamente, foi há dias publicado por um dos mais prestigiados institutos de analise económica, o Leibniz-Institut fur Wirtschaftsforschung Halle (IWH), um texto onde se afirma:

O orçamento equilibrado na Alemanha é em grande parte o resultado de mais baixos juros sobre a dívida pública alemã, devido à crise da dívida europeia. Um estudo promovido pelo Halle Institute for Economic Research (IWH) – Member of the Leibniz Association – mostra que a crise da dívida teve como resultado uma baixa nas taxas dos títulos alemães, os bund, em cerca de 300 pontos base (p.b.), o que deu origem a poupanças em juros de mais de EUR 100 mil milhões (ou seja, mais que 3% do produto interno bruto, PIB), durante o período de 2010 a 2015. Uma parte significativa desta redução é directamente imputável à crise grega. Quando se discutem os custos que os contribuintes alemães terão de pagar face a um resgate da Grécia, estes benefícios não devem ser esquecidos, pois eles tendem a ser bem maiores do que os custos, mesmo num cenário em que a Grécia não pague nada, absolutamente nada, das suas dívidas. A Alemanha beneficiou substancialmente com a crise grega

Confrontados com a crise, os investidores procuram investimentos seguros (fuga para a segurança). Durante a crise da dívida na zona do euro, a Alemanha beneficiou desproporcionalmente deste efeito: sempre que havia más notícias sobre a Grécia, os rendimentos sobre os títulos do governo alemão caiam e em cada momento que havia boas notícias sobre a Grécia, os rendimentos sobre os títulos do governo alemão aumentavam. Os efeitos são simétricos e com variações de 20 a 30 p.b. em dia de importantes acontecimentos, como aconteceu em Janeiro deste ano, quando a probabilidade de uma vitória de Syriza nas eleições se tornaram muito altas, ou um pouco depois, quando o novo governo de Tsipras recusou continuar a manter quaisquer conversações com a Troika, ou seja com o grupo composto pelo Banco Central Europeu (BCE), União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Efeitos similares surgiram em Junho deste ano, quando o primeiro governo de Alex Tsipras decidiu a favor de um referendo e o seu resultado subsequente (negativo) (as taxas de juro sobre dívida alemã a baixarem), e também quando a Grécia sucumbiu às exigências dos credores, uma semana depois (as mais altas taxas na Alemanha). As boas notícias sobre a Grécia durante o final de 2014 e meados de 2015 resultaram numa subida de 160 p.b. nas taxas de juros sobre a dívida pública alemã. Outros países beneficiaram também é claro, por exemplo, os EUA, a Holanda ou a França, mas os efeitos são significativamente menores.

Enquanto seja claro que os encargos com os juros alemão foram reduzidos pela crise grega, há dificuldade em traduzir estas reduções de encargos com a dívida pública alemã em poupanças orçamentais, em euros. O IWH usou a regra de referência na política monetária (regra de Taylor) para simular o rendimento gerado por títulos do governo alemão num cenário hipotético, em que as taxas de juro alemãs seriam independentes da crise da dívida europeia. Nós mostramos que esta abordagem produz uma boa aproximação para as taxas de juro alemã, para os Bunds, sem os consequentes desequilíbrios resultantes da crise da dívida. Utilizando esta metodologia e a estrutura de vencimentos da sua efectiva dívida pública alemã, a poupança do orçamento alemão é estimada em mais de EUR 100 mil milhões (ou superior a 3% do PIB), durante o período de 2010-2015.

Na maioria dos cenários e dos seus correspondentes resultados, a participação da Alemanha no pacote de resgate (principalmente através do Mecanismo Europeu de Estabilidade – MEE – e do BCE, mas também o FMI e certas exposições menores) não ultrapassam o valor total de EUR 90 mil milhões, incluindo o pacote actualmente a ser negociado. Assim, em caso de incumprimento da Grécia sobre as suas dívidas e sem nenhum recurso a qualquer das garantias que esta entregou aos credores (por exemplo através do mecanismo ELA – programa de assistência em liquidez de emergência- os custos máximos futuros e incertos em resgatar a Grécia seriam para a Alemanha menores do que os benefícios já acumulados pelo orçamento alemão. Mesmo se a Grécia na verdade não pagar nenhum dos empréstimos que lhe foram concedidos, a Alemanha ainda continua a ter ganhos com a crise grega. Se a Grécia não pagar ou pagar apenas uma parte, as poupanças feitas pelos contribuintes alemães ainda são substanciais.

Do texto, na sua versão completa, reproduzimos os dois gráficos (unificados) seguintes, bem elucidativos inclusive das mentiras de Schauble quando e contrapunha a Varoufakis de que a Alemanha tinha o orçamento equilibrado e porque é que os gregos não haviam de ter também? Esquecia-se de dizer que isso era parcialmente devido ao desequilíbrio criado na Grécia!

1 Não só a Europa do Sul está a ficar dominada pelo diktat alemão. A leste da Europa passa-se a mesma coisa. Foi a Alemanha que impôs a entrada da Polónia, país da sua esfera de influência Admite-se que seja sob a sua influência que se tenha desencadeado uma política externa agressiva contra a Rússia, e mais, admite-se que seja também sob a sua influência que se tenha desencadeado a política belicista da EU na Ucrânia, com forte apoio aos partidos de extrema-direita deste país e mesmo com a colocação de nazis no poder. Trata-se de apoiar os netos daqueles que foram a guarda avançada de Hitler na sua marcha para Leste! Foi isso que foi feito. Relembremos que as relações de dominação sobre a parte ocidental da Ucrânia vêm do tempo de Hitler. Por “curiosidade” relembremos que a conquista de um novo Lebensraum a leste e a sua consequente germanização implacável era um dos grandes objectivos de Hitler. Simples analogia o que se passa hoje a Leste?

(continua)

Introdução a três textos esclarecedores de que a situação actual na União Europeia é o produto de circunstâncias historicamente criadas e determinadas – por Júlio Marques Mota I

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