TURQUIA: UM GOLPE DE ESTADO EM SILÊNCIO ? ERDOGAN, SULTÃO QUE ENTRA PELA PORTA DAS TRASEIRAS – por GIL MIHAELY

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Erdogan

Turquia: um golpe de estado em silêncio ?

Erdogan, sultão   que entra pela porta das traseiras

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Gil Mihaely, Turquie: un coup d’Etat en douce? Erdogan, sultan par la petite Porte

Revista Causeur, 18 de Agosto de 2015

 

Sem tanques em  frente das sedes da rádio e a televisão nacionais nem declaração do estado de emergência, a Turquia acaba de  sofrer um golpe de Estado. E é talvez porque o cenário tradicional de um golpe de Estado militar não foi respeitado que as reacções demoram em vir a público. Mas ao ouvir o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, há de facto  uma mudança de regime que se tem estado a realizar : “esteja-se  de acordo ou não, o regime turco mudou”. O que o  inquilino do Ak Saray (literalmente “o palácio branco” ou seja a muito muito grande Casa branca…) quis ele lembrar, é que, contrariamente ao seu antecessor Abdullah Gül eleito pelos deputados,  Erdogan  foi plebiscitado a 10 de Dezembro de 2014 pelo povo em sufrágio universal. A partir daqui  ele deduz que o regime alterou: de democracia parlamentar, a Turquia mudou-se para um  regime presidencial.

Os factos remontam ao fim de Agosto de 2014 mas é chegado o momento de ratificar a situação e de lhe  “dar um enquadramento  legal”. Se Erdogan fosse um professor de Ciências políticas ou um jornalista, esta declaração estaria cheia de bom-senso: Se, efectivamente, da mesma maneira que a Segunda república francesa entre a eleição de Louis-Napoléon Bonaparte para a sua  presidência e o golpe de Estado do 2 de Dezembro de 1851, o regime turco está colocado  entre duas legitimidades iguais e concorrentes. Ora, Erdogan não é um comentador  nem um simples actor da política do seu país, é o príncipe-presidente que joga ao mesmo tempo sobre todos os quadros possíveis.

À partida, o plano era todo ele um plano diferente. A eleição de Agosto de 2014 devia certamente pôr um pé na porta constitucional. Após a sua vitória no verão passado,   Erdogan tinha mostrado  claramente a sua intenção de alterar a constituição turca à fim de reforçar e estender os poderes do presidente. Numa reunião em  Istambul, algumas semanas antes  das  eleições, tinha  declarado que se for eleito presidente “uma nova Constituição para uma nova Turquia será () uma das nossas prioridades”. Ora, para alterar a Constituição, é necessário passar seja por um  referendo seja  por uma maioria qualificada de dois terços dos deputados do Parlamento. Erdogan escolhendo a via parlamentar, o prazo foi  prolongado para  7 de Junho de 2015, data das eleições legislativas. Se tudo correr bem, o AKP de Erdogan devia ganhar as eleições por larga maioria e seguidamente efectuar a operação da alteração constitucional. Em vez deste plano perfeitamente concebido, Erdogan teve um pequeno “acidente” de percurso: o AKP saiu à frente das eleições  mas o partido islamita-conservador perdeu nove pontos (de 49.83% em 2011 para  40.87% em 2014), 69 lugares  e a maioria absoluta (entre 2011 e 2015, o AKP ocupava 327 dos  550 lugares  do Parlamento turco). Em face destes  resultados estes vieram-se juntar à sua relativamente  curta  vitória na  primeira volta das  presidencial de Agosto de 2014 (51.79%), pode-se compreender porque não arriscou a via referendária .

Neste contexto, a declaração de Erdogan aparece ao mesmo tempo como um ultimato e a primeira salva da próxima campanha legislativa. Porque desde as eleições de Junho, o AKP não chegou  a formar uma coligação. Apesar das manobras  dilatórias, o tempo passa e a armadilha constitucional fecha-se  sobre o AKP: impossível continuar “ à  belga”. Erdogan não deixa de  declarar que a Turquia tem necessidade de uma nova constituição porque aspira a um novo futuro. Mas tudo isto é paradoxalmente o exemplo perfeito do que se pode  fazer no âmbito de uma democracia parlamentar: entre 2002 e 2014, sem vastos poderes  executivos  nem palácios de 1500 divisões, Recep Tayyip Erdogan gozou de um campo de manobra  política inédito, graça certamente aos seus talentos, ao seu carisma e a  sua energia mas também às actuais regras do jogo político turco. Mais que a natureza do seu regime, pareceria que o verdadeiro problema da Turquia seja  a extraordinária ambição de um homem para quem  tudo se tornou  demasiado pequeno.

Gil Mihaely, Revista Causeur, Turquie: un coup d’Etat en douce? Erdogan, sultan par la petite Porte.

Texto  disponível em:

http://www.causeur.fr/turquie-erdogan-coup-etat-34188.html

*Photo: Sipa. Numéro de reportage : AP21767958_000013.

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