Turismo de massa, dos parques temáticos aos monstros marinhos
“Lisboa às moscas e Veneza aos gatos…” é o verso que abre um evocativo poema de Alexandre O’Neill (Feira Cabisbaixa, 1965). Hoje o poeta seria obrigado a deixar ambas as cidades aos turistas: Lisboa pelo menos no verão, Veneza durante o ano inteiro.
Ano após ano, o fluxo imparável de turistas parece estar a contribuir para um afundamento progressivo ainda mais rápido da cidade, que tem de fazer face a um sistema hidrogeológico ameaçado pelo próprio mecanismo de defesa contra as cheias da cidade, o chamado MOSE. O sistema de barragens móveis deveria estar concluído para o final de 2016 e solucionar o problema, mas foi mais um caso de corrupção nacional em grande escala e no outubro passado registou, a poucas semanas da inauguração, a explosão de um dos contentores de cimento, com um prejuízo estimado em 10 milhões de euros.
Com o trânsito insustentável dos grandes navios de cruzeiro e asfixiada pelos 25 milhões de presenças por ano, a impressão mais frequente é de estar num grande parque temático ao ar livre, onde ninguém se lembra de que há pessoas reais a viverem vidas reais, num sítio tão especial e tão maltratado pelas últimas gerações de políticos. O recém-eleito Presidente da Câmara, Luigi Brugnaro, acaba de lançar, porém, uma ideia que vem duplicar e alargar a falsificação da realidade lagunar, propondo a realização de um parque de diversão estilo Disneylândia num terreno de cerca de 50 hectares na área adjacente ao aeroporto de Veneza. Perante um número cada vez mais reduzido de residentes na cidade, o trespasse massivo de lojas a comerciantes asiáticos, a venda dos mais prestigiados imóveis a estrangeiros (sobretudo ingleses e franceses) e a mercantilização da vida da cidade rendida a um estéril turismo de massa, o desânimo de quem ama Veneza é compreensível.
As perspetivas de medidas políticas eficazes para revitalizar o centro histórico veneziano, protegendo-o de lógicas de lucro baseado em atividades de mera exploração turística, são evidentemente fracas. De facto, o referido Presidente da Câmara, que logo no princípio do seu mandato ganhou uma triste celebridade na imprensa nacional e internacional pela anacrónica censura de que foram alvo os 1.098 livros de contos de “género” presentes nas escolas da cidade, tem-se revelado pouco sensível ao tema do turismo sustentável e recentemente não deixou de inviabilizar a mostra fotográfica de Gianni Berengo Gardin sobre os navios de cruzeiro (“Monstros marinhos em Veneza).
Contudo, e como a coerência já não costuma reger a atividade de quem nos governa, Luigi Brugnaro mudou de ideias quanto a questões de género e afinal declara-se disposto a abrir a cidade à Parada do Orgulho Gay, propondo até um “Gay Pride de água” ao longo do Grande Canal. Um grande desfile temático, mais uma invasão da cidade, embora pela causa dos direitos LGTB, sob a bandeira arco-íris.