Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Cédric Durand
The End of Europe – The crisis in Greece is part of a larger disintegration of the European project
Jacobin, 16 de Julho de 2015
Neste artigo inicialmente publicado sobre o sítio americano Jacobin, Cédric Durand mostra que a crise na Grécia se inscreve num movimento de desintegração do projecto europeu.
Cédric Durand é economista na universidade Paris-13 e ensina na EHESS. Membro dos Economistas Aterrados e do Comité de redacção de Contretemps-web, é o autor do livro Le capital fictice (Les Prairies ordinaires, 2014), e coordenou a obra En finir avec l’Europe (La Fabrique, 2013).
Do ponto de vista europeu, o desmoronamento financeiro de 2008 foi apenas o prólogo de uma crise continental generalizada. O caos financeira criado nos Estados Unidos desencadeou uma cadeia complexa de acontecimentos inesperados por todo o Velho Continente, contaminando todas as esferas da vida social e levando à criação de uma paisagem radicalmente nova, sujeita e vítima das turbulências políticas e económicas.
Como o declarava há alguns meses Ada Colau, a presidente da câmara municipal recentemente eleita de Barcelona à cabeça de uma coligação inspirada dos Indignados:
“Desta crise, ninguém sairá como antes. O que nos espera, é, à escolha, um horizonte feudal, com um aumento brutal das desigualdades, uma concentração sem precedentes das riquezas, novas formas de precariedade para a maioria dos cidadãos. Ou então, uma revolução democrática, onde milhares de pessoas se empenham e, para alterar o fim do filme”.
Chegamos muito provavelmente a este momento decisivo histórico. A vitória muito larga do não no referendo grego de 5 de julho é uma das mais claras indicações da vontade das classes populares de pôr um termo a décadas de integração europeia neoliberal. Esta reabertura do que Auguste Blanqui chamava “o capítulo das bifurcações” participa de movimentos tectónicos que agitam um continente caído numa espiral de rancor e de ressentimentos nunca visto desde meados do século passado.
Um grande projecto falhado
Há quinze anos, o sucesso do lançamento da moeda única alimentou uma onda de Euroforia em todo o continente. A Estratégia de Lisboa de 2000 prometia tornar a União Europeia “a economia do conhecimento mais competitiva do mundo, acompanhada de um crescimento económico sustentável, com mais empregos e melhor qualidade e uma maior coesão social. “Os entusiastas consideravam a UE como” um farol de luz num mundo conturbado”. Marcel Gauchet e Jürgen Habermas fazem crer que a nova fórmula Europeia – em termos de governação democrática e Estado social supranacional – se destinava a servir como um “modelo para as nações do mundo.”
As previsões dos dias europeístas nunca se materializaram. Pelo contrário, em retrospectiva, toda a sequência aparece como uma história de falhanços sucessivos. Os resultados económicos da zona euro em termos de crescimento económico têm sido bem inferiores aos de todas as outras regiões, antes e depois da crise, e a viragem austeritária de 2010 produziu um colapso económico impressionante. O PIB ainda não recuperou do seu nível no final de 2007, tornando-se uma das piores crises económicas da história recente – ultrapassada apenas pela catastrófica restauração capitalista na Rússia nos anos de 1990.
A OCDE apresentou uma demonstração clara da inadequação da gestão económica durante este período, o que se ilustra com o contraste entre as previsões de crescimento e a trajectória real da zona euro. A retoma anunciada repetidamente, nunca se materializou.
Prévisions du PIB de la zone euro et trajectoire effective (OCDE, 2014) :
O desemprego disparou: em 2014, são 44 milhões de pessoas que estão sem emprego ou subempregados na União Europeia. Este flagelo não é apenas uma tragédia pessoal dolorosa para os trabalhadores em causa e as suas famílias, mas também uma ilustração dramática da irracionalidade da nossa organização social que resulta num enorme desperdício económico, num desperdício económico tanto mais significativo quanto os trabalhadores europeus estão entre as mais produtivas do mundo.
O mito da convergência intra-europeia também entrou em colapso. Nos últimos cinco anos, a aproximação ilusória dos níveis socioeconómicos desapareceu, esfumou-se, reinstalando-se com um ardor redobrado a hierarquia económica entre o núcleo Europeu alemão e as periferias. O PIB per capita da Itália é agora menor do que era em 1999. Outros países como a Grécia, a Espanha e Portugal são dominados pelo desespero social, com segmentos inteiros da população a serem incapazes de satisfazer as suas necessidades básicas
A ironia da história é que todo este sofrimento foi em vão. Os rácios dívida/PIB aumentaram apesar das severas medidas de austeridade, encerrando os países periféricos e as suas classes laboriosas num ciclo sem fim de servidão por causa da dívida no que diz respeito aos mercados financeiros, às instituições e aos países credores. Ao mesmo tempo, os desequilíbrios comerciais persistem na zona euro, e a coordenação mais estreita das prescrições neoliberais a nível da UE não oferece nenhum mecanismo capaz de tratar os problemas subjacentes do desenvolvimento desigual.
(continua)
Texto originalmente publicado no site Jacobin: https://www.jacobinmag.com/2015/07/tsipras-syriza-euro-austerity-debt/



