O debate de ontem foi o que se esperava. Tudo se passou ao nível da técnica, nada da substância. Como no Quem Quer Ser Milionário, Passos Coelho pedia ajuda quando as ideias faltavam: a Sócrates e ao Syriza. A tarefa de Costa era mais fácil: esconder-se no muito que havia por onde atacar. Os três jornalistas faziam o seu show off de presidentes da junta, como uma subespécie de troika determinada não a impor austeridade mas a mostrar autoridade. A dado ponto comecei a detectar ali uma matrioska de troikas: a oficial (que sobrevoou o debate e serviu de arma de arremesso a ambos os candidatos), uma mais pequena composta por Passos, Costa e pelos media (na verdade, o elenco completo deste truque televisivo em que todos desempenharam esquematicamente o seu papel) e, dentro dela, a tal que integra a RTP, a SIC e a TVI. Perdeu-se demasiado tempo com perguntas ridículas – ex: se Costa vai ou não cumprimentar Sócrates pessoalmente – e tudo se fez ali para que o espectáculo (aquele espectáculo triste à americana que vemos representado com incomparável mestria na série House of Cards) prevalecesse sobre a informação. Assuntos como a educação ou os refugiados, entre outros de primeira importância, acabaram vítimas da falta de tempo. Mas a cereja no topo deste bolo enjoativo e insalubre veio quando Clara de Sousa sentenciou: “Um destes senhores vai ser o líder do próximo governo”. Desculpem a acintosidade, eu confesso que fico capaz de morder: à luz de que deontologia esta estúpida se move?! Acaso é impossível – por mais “quase” que o seja – a escolha dos portugueses recair noutros candidatos? E não têm esses candidatos o direito democrático a ver as suas legítimas ambições – realistas ou não, isso é outra história – respeitadas e salvaguardadas pelos media até que o acto eleitoral se cumpra? Todos os que não são ingénuos sabem que o postulado da doutora Clara influencia o voto. Ela, então, sabe-o melhor que muitos. E por isso não merece respeito. Merece, ela e os outros que com ela montaram e interpretaram a peça que ontem vimos, uma expressão clara – como o seu nome – de indignação e repúdio. A política está de rastos e o jornalismo é cada vez mais a lama onde ela se esfrega.