Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
4. Migrantes : a razão do mais fraco
Não esqueçamos as lições da história
Binyamin Tagger, Migrants: la raison du plus faible. N’oublions pas les leçons de l’histoire
Revista Causeur, 21 de Setembro de 2015
No seu último editorial, “o asilo para todos, uma história de loucos”, Elisabeth Lévy efectivamente pôs os termos do problema com que esta actualmente confrontada a União Europeia. A quadratura do círculo. O tormento de uma sociedade hedonista e consumista, frequentemente desorientada em relação a ela própria, mas que fascina uma boa parte do planeta tanto pela sua “doçura de viver” – relativa! – como pelos valores que chegou a promover e encarnar – às vezes de contra vontade – no fim de uma longa história de civilização. O tormento “dos bons sentimentos” confrontado com a gestão do real. O difícil discernimento entre a miséria do mundo e a desgraça do mundo.
Mas para que serve esta argumentação de estar a jogar com o fingir –se com medo (ainda mais), evocando as hordas de norte-coreanos que chegam um dia fora das suas fronteiras para fugir do seu “regime ubuesco”? Em face à imagem da desgraça, que é também o real do nosso mundo ubuesco, que serve então a demonstração de brandir a perigosa “ quimera” de pretender subtrair ao seu destino os povos submetidos aos regimes tirânicos? Como concluir este debate terrível de uma só penada – que certamente terá tremido talvez – de que “a verdadeira generosidade, às vezes, é ter de dizer não”?
Porque não posso impedir-me de evocar a última grande imigração ilegal que conheceu a Europa. Foi há quase setenta anos, um episódio ignorado do pós-guerra, evocado nomeadamente no fim do muito bonito livro – talvez o seu mais bonito livro – de Primo Levi, Agora ou nunca, em hebreu Beri’ ha, a fuga, referiu-se sem dúvida a mais de duzentos mil judeus da Europa do Leste, que se confrontaram com a impossibilidade de voltar para as suas casas e para as suas aldeias, vítimas aos milhares de horríveis pogroms como o de Kielce na Polónia, em Julho de 1946, ou brutalmente retidos nos antigos campos tal como o de Bergen-Belsen, esperando a comiseração do mundo para encontrar uma terra de asilo. Através de montes e florestas, com as intempéries e a neve dos cumes alpinos, com a ajuda frequente de passadores à quem era necessário distribuir os subornos, através dos pontos de controlo dos exércitos locais ou de ocupação, fugiram das suas terras de aflição e miséria numa corrida tresloucado a caminho dos portos da França ou da Itália, e serem enfiados como sardinhas em lata em miseráveis barcos muito lentos. Exodus. Que devia dizer-lhes a Europa exangue, a Europa destruída, toda ela ocupada a curar as suas chagas e a integrar o novo dado que era a Cortina de Ferro?
Houve então, como já tinha sido o caso no período que antecedeu imediatamente a guerra, muitos pessoas para dizer que “a verdadeira generosidade, às vezes, é dizer não”. Sei, mutatis mutandis, comparação não é razão. Será então que isso significa que temos necessidade de aceitar, de justificar mesmo, que nos devemos deixar perder e divagar em histórias de diagonais de loucos?
Binyamin Tagger, Revista Causeur, Migrants: la raison du plus faible. N’oublions pas les leçons de l’histoire. Texto disponível em :
http://www.causeur.fr/migrants-immigration-primo-levi-34652.html


