EDITORIAL – A GUERRA DE OBAMA
Decorreram conversações nas Nações Unidas para tentar enfrentar a situação de guerra que se mantém na Síria há vários anos, causando inúmeras baixas, grandes sofrimentos e um número incalculável de refugiados, parte dos quais tem vindo para a Europa nas condições que se conhecem. A superpotência anunciou disposição para negociar com a Rússia e o Irão, com a exigência de haver uma alteração no governo da Síria, de modo a arredar Assad do poder. Mas terça-feira houve uma cimeira de líderes em que não estiveram presentes aqueles dois países, o Irão porque continua a fazer parte da lista norte-americana dos países patrocinadores de terrorismo, e a Rússia por não querer fazer parte de um encontro ostensivamente patrocinado pelos Estados Unidos, segundo nos informa o Público de ontem, 30 de Setembro.
Existe consenso entre as várias potências de que é necessário atacar o EI – Estado Islâmico, mas que não é extensivo aos métodos a utilizar. E sobretudo não há acordo sobre o que fazer com Bashar al – Assad, que tem estado â frente do estado sírio desde 2000, tendo sucedido ao seu pai, Hafez al – Assad. Haverá acordo sobre os ataques aéreos contra os jihadistas, mas não sobre a táctica a utilizar no terreno. A França, com Hollande ansioso para se distinguir, terá começado os ataques aéreos. Entretanto, há notícias de que os russos também começaram a bombardear, e que terão atingido civis. Claro que o Russia Today não dá notícias idênticas, mas torna-se difícil destrinçar os factos da propaganda.
Tudo indica que a situação na Síria não vai melhorar. A estratégia norte-americana na região parece passar por abater todos os poderes que possam defrontar-se com Israel ou a Arábia Saudita, de um modo ou outro. E estes países aproveitam-se para irem eliminando quem lhes faz obstáculo. Por outro lado, Barack Obama, a aproximar-se do fim do seu mandato, não quer contrariar a oligarquia política, militar e financeira que governa o seu país, e procura obter alguns sucessos que facilitem a eleição de um democrata, para lhe suceder na presidência. O acordo com Cuba seria prioritário, mas suspender o embargo será sempre complicado, com o partido republicano, muito buliçoso e cada vez mais chegado à direita. Há indicações de que Obama, para alcançar sucessos (muito duvidosos) ao pé da porta, faz concessões em questões que decorrem geograficamente mais longe. Como tal, acordos com a Rússia na Ucrânia ou no Médio Oriente estarão excluídos. Deste modo, também tem de haver manutenção do actual estado de coisas na Europa, com exclusão de independentismos (ver posições sobre os referendos na Escócia e na Catalunha) e sobre saídas do euro (tendo em atenção os muitos benefícios que a zona euro tem trazido às multinacionais), preparando a celebração do TTIP/TAFTA. No oriente o apoio ao regime nacionalista do Japão parece ser a arma principal para contrariar a China, que aliás parece andar a enredar-se nas armadilhas da especulação financeira. É assim que Obama procura dar aos seus compatriotas a imagem de que com ele a fortaleza norte-americana não perdeu nada do seu poderio.
Propomos algumas leituras:
http://www.theguardian.com/commentisfree/2015/sep/29/west-vladmir-putin-syria-us-assad
http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=4804317

