
Domingo passado, os catalães foram às urnas para eleger seus representantes. A questão central que dominou – e esquentou – a campanha eleitoral foi, mais uma vez, a independência da Catalunha, cujos partidários ganharam a maioria do Parlamento regional (72 em 135 cadeiras), permitindo que alguns, mais afoitos, anunciem que a independência será fato consumado em 2017.
Mas há pedras no caminho.
O governo central, em Madrid, já declarou que a independência é inaceitável, pois colidiria com cláusulas pétreas da Constituição. Também a Comissão Européia, com sede em Bruxelas, avisou que, se a Catalunha sair da Espanha, estará saindo da Comunidade Européia e que, para voltar, terá que cumprir todo um ritual.
A história das contradições entre a Catalunha e Madrid, sede do governo espanhol, vem de longa data. A província, com capital em Barcelona, é, há décadas, a mais rica da Espanha e cultiva, também há tempos, a convicção de que é oprimida e explorada cultural, politica e economicamente pelo Estado espanhol. De fato, os impostos pagos pelos catalães ao governo central excedem em muito o retorno em forma de benefícios transferidos à província. O centralismo madrilenho também é acusado de tolher a liberdade dos catalães, armadilhados pela burocracia castelhana. Trata-se de uma problemática também existente em outros países, onde regiões mais ricas acusam os governos centrais e as regiões mais pobres de “parasitarem” o seu progresso.
Não falta solidez, porém, aos argumentos em sentido contrário. Sandrine Morel mostrou como o trabalho de imigrantes provindos de várias províncias espanholas contribuiu para a prosperidade da Catalunha. Por outro lado, eventos de todo o tipo, patrocinados nacionalmente, têm revertido em vantagens para a Catalunha. A este propósito, são referidas as Olimpíadas de 1992, ponto de partida de um boom econômico e cultural sem precedentes em Barcelona. As forças contrárias à secessão ainda sustentam que o grau de autonomia alcançado pela Catalunha, do qual seria expressão maior o uso quase universal da língua catalã na província, evidenciaria a existência de novos equilíbrios que desmentiriam processos de subordinação nocivos aos interesses catalães.
Um outro fato – complicador – é que a “questão nacional” divide transversalmente partidos e tendências políticas. Nos dois lados, há esquerdistas e direitistas. A Coligação mais votada, a “Juntos para o Sim”, reúne lideranças de esquerda e de direita. Foi vitoriosa, sem dúvida, mas, para alcançar a indispensável maioria absoluta precisará do apoio de uma outra tendência, a “Candidatura de Unidade Popular, que preconiza a independência num contexto de revolução social. Acresce que estas coligações lograram maioria de cadeiras, mas ganharam apenas 47,63% dos votos (sem contar um pouco mais de um terço de abstenções).
Incomoda a forças de esquerda, optando ou não pela independência, o fato de que Artur Mas, presidente da província da Catalunha desde 2010, e líder independentista, seja um notório conservador, o que não o impede de estar na lista da “Juntos para o Sim”. Segundo seus críticos, Mas tenta ocultar malfeitos diversos sob o manto unificador da luta nacionalista. Por outro lado, a Associação Municipal pela Independência/AMI, que agrupa centenas de pequenas cidade e vilarejos catalães, sobretudo no interior, é criticada pelo uso – e abuso – de rituais “místicos”, inebriando as gentes com cânticos e hinos que desembocam frequentemente num ódio cego a todos os que não são “puros” catalães.
Não gratuitamente, a nova prefeita de Barcelona, Ada Colau, eleita em maio deste ano, e seu agrupamento político – Barcelona em comum – abstiveram-se na votação realizada pelo Conselho Municipal que decidiu, por maioria, não se integrar na AMI. É que Ada foi eleita com base num programa de luta a favor dos despejados e dos sem-teto, de defesa dos mais pobres (na rica Barcelona, 25% das crianças se encontram em situação considerada “de risco”), pelo controle da especulação imobiliária, do turismo predatório e da corrupção galopante.
Como articular estas bandeiras – que remetem a identidades sociais e cidadãs – às lutas nacionalistas que uniformizam as diferenças numa grande noite onde todos os gatos seriam pardos?
Uma eventual independência suscitaria, sem dúvida, promessas de autonomia e liberdade frente à burocracia madrilenha. Mas os mitos, emblemas e bandeiras nacionais ensejam também perigos – o do anestesiamento, e no limite, o da anulação das diferenças e contradições sociais.
Entre estas promessas e perigos as forças favoráveis à construção da democracia e da justiça social deverão empreender difícil navegação, pois estas são questões de caráter internacional, não interessam apenas à Catalunha, e não podem ser resolvidas em seus estreitos limites.
Daniel Aarão Reis
Professor de História Contemporânea da UFF
Email: daniel.aaraoreis@gmail.com

Parabéns prof Daniel Reis. Texto lúcido e que esclarece bem, a meu ver, o que se passa na Catalunha. E em que nem necessitou invocar a manipulação feita pelos “media” (nomeadamente os media da Catalunha) sobre o assunto. Gostaria de lembrar uma recente análise de Vicenç Navarro, “Análisis de las elecciones: qué ha pasado en Catalunya” (in Publico.es de 30set último), que não obstante a sua condição de apoiante de Podemos (que ele não esconde), isso não o impede de uma análise também muito lúcida sobre a situação na Catalunha.