É verdade que o PàF venceu as eleições de domingo passado, 4 de Outubro, na medida em que foi a força política mais votada. Contudo também é verdade que não obteve a maioria absoluta, e que os partidos situados à sua esquerda tiveram mais votos. E que o PàF teve menos votos do que os partidos que o integram obtiveram em 2011, garantindo na altura a maioria absoluta. Decorre uma discussão sobre o que fazer com os resultados, havendo quem defenda que o partido socialista, o mais votado a seguir ao PàF, poderia formar governo coligado com os outros partidos de esquerda.
Esse cenário, que poderá aparecer como positivo a quem deseje um governo mais disponível para uma política mais centrada nos interesses das classes trabalhadoras e da população portuguesa em geral, menos centrada portanto na chamada austeridade, não agrada evidentemente às autoridades da União Europeia (UE). Estas, a começar por Jean-Claude Juncker, presidente da comissão europeia, e Jeroen Dijsselbloem, presidente do eurogrupo, já manifestaram o seu agrado pela vitória do PàF. Não haja dúvidas de que a reacção da parte destas entidades a um governo de esquerda não seria boa. E seria ainda pior se o novo governo português tentasse enveredar por uma senda decididamente não austeritária. O que aconteceu na Grécia deixou bem claro que um governo progressista na UE, sobretudo nos países periféricos na zona euro, não é possível. Por doloroso que seja para muita gente é preciso fazer esta constatação.
Não parecendo possível uma inflexão nos mecanismos de controlo e domínio que funcionam na EU, torna-se indispensável procurar novos caminhos. Contudo, é duvidoso que os partidos maioritários na assembleia da república o queiram fazer, tendo em conta os compromissos que assumiram no passado. As promessas da campanha eleitoral, olhando à experiência recente, serão postas de parte sempre que afectarem os interesses de momento. Assim, prevê-se um incremento do descontentamento e da agitação, até porque a chamada crise financeira não vai dar tréguas.
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