
Ó noite, porque hás-de vir sempre molhada!
Poema: Eugénio de Andrade (in “As Mãos e os Frutos”, Lisboa: Portugália Editora, 1948 – p. 55-57; “Poemas 1945-1965”, col. Poetas de Hoje, Lisboa: Portugália Editora, 1965 – p. 55-56)
Música: Fernando Lopes-Graça (ciclo “As Mãos e os Frutos”, 1959)
Intérpretes: João Rodrigues & Nuno Vieira de Almeida* (in CD “Fernando Lopes-Graça: Clepsidra; As Mãos e os Frutos; 3 Canções de Fernando Pessoa”, Tradisom, 2009)
Ó noite, porque hás-de vir sempre molhada!
Porque não vens de olhos enxutos
e não despes as mãos
de mágoas e de lutos!
Porque hás-de vir semimorta,
com um ar macerado e de bruxedo,
e não despes os ritmos, o cansaço,
e as lágrimas e os mitos e o medo!
Porque não vens natural,
como um corpo sadio que se entrega,
e não destranças os cabelos
e não nimbas de luz a tua treva!
Porque hás-de vir com a cor da morte
— se morte já temos nós!
Porque adormeces os gestos,
porque entristeces os versos,
e nos quebras os membros e a voz!
Porque é que vens adorada
por uma longa procissão de velas,
se eu estou à tua espera em cada estrada,
nu, inteiramente nu,
sem mistérios, sem luas e sem estrelas!
Ó noite eterna e velada,
senhora da tristeza, sê alegria!
Vem doutra maneira ou vai-te embora,
e deixa romper o dia!
* João Rodrigues – voz (tenor)
Nuno Vieira de Almeida – piano
Assistente musical – Fernando Serafim
Supervisão artística – Nuno Vieira de Almeida
Técnico de piano – Fernando Rosado
Coordenação executiva – José Moças
Gravado na Escola Superior de Música de Lisboa, de 3 a 15 de Agosto de 2009
Gravação, edição e masterização – José Manuel Fortes
