UMA NOTA DE JÚLIO MARQUES MOTA SOBRE A NECESSIDADE DE SE ESTUDAR O QUE SE PASSOU NA GRÉCIA

júlio marques mota

Meus caros

Quando a direita o não esperava, eis que a esquerda se coloca como alternativa para governar Portugal e tentar levar este país, ou antes, este sítio que país há-de voltar a ser, a bom porto, contra a vontade da Troika, contra a vontade do senhor Schäuble, patrão e senhor da Europa, contra a vontade do senhor Draghi, patrão do BCE e ao serviço da alta finança e do senhor da Europa, contra a vontade de Merkel, para nos situarmos apenas no plano europeu. É pois a primeira vez que há uma maioria em Portugal disponível para governar o país e que discorda da política de austeridade seguida e imposta pela Troika.

Ora o que a Grécia provou foi que há uma nova regra implícita nos Tratados, a regra claramente enunciada por Jean-Claude Juncker, o homem dos paraísos fiscais, o homem Presidente da Comissão Europeia, regra essa que é assim por ele enunciada:

« Il ne peut y avoir de choix démocratique contre les traités européens. »

O homem que neste momento ocupa Belém, leu em sentido lato esta regra e portanto tudo o que é marcadamente anti-Troika, mesmo que apenas ideologicamente, deve ser rejeitado. Rejeitada pelo ocupante de Belém foi portanto a maioria de esquerda com assento no Parlamento, porque na sua óptica, a de Juncker acima enunciada, o povo não pode votar contra a austeridade, a regra chave da zona euro, porque votar contra a austeridade é uma opção que vai contra os Tratados. A ser assim, o ocupante de Belém mostrou ser não o Presidente de todos os portugueses, mas sim o funcionário de cargo público mais elevado ao dispor da Troika.

É assim que se compreende a sua decisão de nomear Passos Coelho. Mas porque o não fez imediatamente a seguir às eleições, evitando aquele monstruoso discurso? No dia 6 por exemplo, ficando entretanto a descansar no dia 5. Justificava-se assim a sua ausência no dia 5 de Outubro até porque  quem poderia garantir  que a sua segurança seria   verdadeiramente assegurada? Lembram-se de um 5 de Outubro anterior e do incidente que nesse dia e com o ocupante de Belém se verificou?  Poder-se-ia verificar algo de semelhante mas agora, com os desequilíbrios que aí andam, poderia ser bem mais perigoso e quem decidiria a seguir, se tal infelicidade acontecesse? Resguardado, tudo bem, seria melhor. No dia 6 recebia os partidos, 15 minutos para cada chegaria e duas horas depois anunciava a sua decisão já anteriormente tomada, na noite do dia 4 de Outubro. E num texto de duas a três linhas. Simples, portanto. Porque não foi assim? Porquê tantas reuniões com partidos e entre partidos que o dito ocupante de Belém afinal não reconhece? A minha leitura é simples. Porque se terá assumido como um alto funcionário de Bruxelas, Frankfurt e Berlim e neste quadro quis tentar o que a Troika fez na Grécia com o governo de salvação nacional de Samaras, formado pela Nova Democracia, Pasok e pela Esquerda Democrática. Um arco da governação a favor de Bruxelas. Ora o ocupante de Belém terá tentado a mesma manobra e vários peões, directa ou indirectamente prestaram-se a essa manobra. Forçar o PS a descolar da esquerda e a participar como sendo o segundo partido numa nova coligação de direita, a que chamariam governo de recuperação nacional ou outro nome, ataques frontais a Costa, alimentar a dinâmica dos comportamentos revanchistas dentro do PS, forçar à erosão da imagem deste partido e portanto forçar Costa a ceder ao bom senso de Bruxelas, seria pois o seu objectivo! O que tentou também com Seguro, lembram-se? Aliás, na linha deste objectivo, veja-se na última semana e sobretudo na véspera e no dia da sua decisão o jogo praticado até à exaustão por praticamente todos os media, escritos ou falados contra a maioria de esquerda, veja-se essa liberal de pacotilha que tem por nome Clara Ferreira Alves no Eixo do Mal, veja-se o comportamento do ignorante e snobe, catedrático na Nova, que dá pelo respeitável nome de Braga de Macedo, a quem pelos vistos não ensinaram a respeitar os outros nos debates em que participa, pelo facto dos outros ou serem mais novos ou por não terem ocupado cargos de nomeação política como ele já ocupou[1], ou a quem não retiram a palavra quando não responde ao que se lhe pergunta mas sim ao que entende que se lhe devia perguntar e sem que o impeçam a seguir de falar, e passar ao elemento seguinte do painel, veja-se tanta coisa que se viu e ouviu nesses dias antes dessa decisão, para sabermos que a direita jogou e em força todas as peças disponíveis. Numa das peças falhou claramente: efectuar a divisão do PS. O tempo era curto e o medo era muito, a parada era muito alta e os “jovens turcos” do PS que poderiam fazer muita mossa a António Costa tiveram medo e ficaram-se por assinalar apenas a sua presença, como gente disponível para mais tarde. Neste caso, uma vitória, pequena, mas uma vitória da Democracia.

Tudo isto vem a propósito da Grécia, exactamente do governo de coligação nacional de Samaras, uma coligação que no nosso caso não se verifica mas que bem se terá tentado. Na sequência de Samaras, tivemos Syriza I e na sequência da capitulação de Syriza I temos agora Syriza II.

É bom que se estude o que se passou na Grécia porque muito de paralelo se poderá passar em Portugal, a partir de agora. A situação política criada com as eleições,  com a decisão do Presidente e com as ameaças implícitas no seu discurso são claramente um sintoma de que o  caminho está aberto, e a Esquerda que esteja consciente das armadilhas que sucessivamente lhe irão ser colocadas. Nesta lógica o blog A Viagem dos Argonautas passou a publicar uma longa série de artigos sob o titulo genérico e geral Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Uma análise social diária da crise grega.

Esta série inclui perto de 40 textos que pessoalmente considero de leitura fundamental para percebermos as coordenadas políticas dos tempos dolorosos pelos quais passamos. São aparentemente textos longos, mas muitos espaços são ocupados por fotografias e muitos outros estão vazios por causa das ditas fotografias e  porque não sei paginar, mas na verdade são textos de leitura rápida.

Num destes textos lê-se sobre a dinâmica imposta à Grécia pelas Instituições   e temo que venha a ser igualmente a dinâmica a ser criada pela Troika para Portugal, se não nos soubermos defender:

Memorando após memorando, suicídio após suicídio, é então a relação… social tecida em torno do medo e da morte que se torna então o catalisador não controlável do futuro. A barreira anatómica da sociedade grega foi aberta desde então, a ferida está escancarada. Salvo que, finalmente, o medo foi vencido, já em Janeiro de 2015 e seguidamente, aquando do recente referendo. Daí muito… logicamente, esta expedição punitiva, herdada do passado imperial e nazi da elite alemã.

Salvo que na Alemanha já numerosos cidadãos, ou mesmo colectivos políticos, exprimem  o seu desacordo e às vezes o seu próprio mal-estar. Wolfgang Schäuble, vigarista e mafioso  entre os  grandes mafiosos,  “não somente prepara um projecto da Europa centrado nos interesses da Alemanha, mais ainda, e ele é … o beneficiário directo de um tal acordo . O fundo luxemburguês… para onde deviam então ser transferidos os 50 mil milhões de dólares das privatizações gregas impostas inicialmente pela primeira versão do memorando III, é realmente uma sociedade na qual Schäuble é o presidente do conselho de administração. Isto explica então isso,  porque devemos de uma vez por todas compreender o  que significa verdadeiramente o saque organizado sobre os povos europeus  levado a cabo pela oligarquia  alemã”, declarou, face aos deputados nesta quarta-feira,  o ministro do Trabalho (SYRIZA) Panos Skourlétis.

E como ilustração de tudo isto:

Original File Name: 2015071558.jpg
Legenda: UE, Euro e a sua ditadura. . “Quotidien des Rédacteurs”, Julho de  2015

Votos pois de boa leitura e as minhas desculpas pela ousadia tomada.

Júlio Marques Mota, 24 de Outubro de 2015.

 

[1] É no seu tempo de ministro que se defendia, com António Borges, que bela parelha, a tese da  moeda forte para Portugal, um instrumento chave na desinflação competitiva, sendo para isso necessário abater as indústrias mais frágeis, os chamados patos coxos!

Leave a Reply