13. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- Primavera ambígua II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão Flávio Nunes

 

(conclusão)

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Perto de Atenas, princípio de Março 2015

 

Sobre o plano interno (e como de resto o sublinha muito justamente e mesmo com tristeza uma certa imprensa ligada à direita), o governo SYRIZA/ANEL já abriu as hostilidades face aos oligarcas de Atenas, num momento de resto onde a chantagem abertamente expressa “pelos parceiros” no Eurogrupo e nomeadamente por Wolfgang Schäuble (ministro das Finanças da Alemanha), quereria que as reformas austeritárias retomem o seu caminho e todo o seu sentido, porque se assim não for corre-se então o risco de asfixiar ainda um pouco mais o funcionamento do Estado grego e isso até à falência (oficial), pensa-se em Bruxelas, como em Atenas. Abrir assim as hostilidades contra os oligarcas locais e muitos outros igualmente grandes e poderosos peixes-espada da fraude fiscal, não é uma tarefa fácil. Além disso, esta batalha interna deve ser suficientemente ganha, se possível antes do fim da prolongamento de quatro meses do acordo entre a Grécia e o Eurogrupo de Sexta-feira (suficientemente) negra de 20 de Fevereiro passado. Cóstas, o meu primo, também compreende tudo isto e mantém-se paciente. “Aconteça o que acontecer, já não quero mais voltar à situação que conhecíamos sob Samaras. É claro.” Este é pois o estado das mentalidades na Grécia e neste momento.

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Atenas, Fevereiro 2015

 

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Atenas, Fevereiro 2015

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Atenas, Fevereiro 2015

 

O país prepara contudo a sua estação turística de que já claros sinais . Os comerciantes, os trabalhadores restantes e os reformados, discutem assim apaixonadamente. De política obviamente: “ Entremos então na falência, já que disso há tantas ameaças. Tsípras deveria preparar-nos para voltarmos a ter a nossa moeda nacional saindo do euro, deveria também avançar com a sua ideia sobre a auditoria da dívida grega, enfim, recusaríamos o que deveria então ser rejeitado”, palavras, não de um politólogo mas de um vendedor de legumes num mercado de Atenas. À minha volta, observo este trabalho incessante a que os acontecimentos obrigam a impor às nossas consciências evolutivas. E isso até ao recente Comité central de SYRIZA. Certamente, a proposta da maioria interna (e de Aléxis Tsípras) pôde passar, no entanto, um texto apresentado pela ala esquerda do partido (30% no Comité central), rejeita o acordo concluído aquando do último Eurogrupo e obteve 40% dos votos ou mesmo 45%, se tivermos em conta as abstenções e os brancos. O que quer dizer que internamente, as conclusões (ou contorções, consoante) do Eurogrupo do 20 de Fevereiro, obtêm apenas o aval de 55% dos quadros SYRIZA.

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O Eurogrupo de 20 Fevereiro. “Quotidien des Rédacteurs”, Fevereiro 2015

 

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O Eurogrupo de 20 Fevereiro. “Quotidien des Rédacteurs”, février 2015

 

Contudo, ninguém negará a gravidade do momento. Eis-nos assim nesta situação muito inédita, onde quase o memorando do último azar, pode então ser interpretado como um início da libertação (versão da história encarnada por Aléxis Tsípras e pelos seus próximos), ou senão (como o sublinha a ala esquerda de SYRIZA mesmo), ou como um precedente certamente fatal pela força das coisas e da chantagem, um precedente que vai por conseguinte ser necessário anular nos quatro meses que se seguirão. É assim que o governo apresentará a partir desta semana no Parlamento, as suas primeiras medidas anti-austeridade. Aléxis Tsípras acaba de anunciar a cor-de-rosa dos quatro projetos de lei da semana, e pela seguinte ordem: Uma lei-quadro para fazer face à crise humanitária, outra, para resolver o problema das dívidas não pagas, seguidamente virá, o restabelecimento da ERT (a rádio-televisão pública que teve uma morte súbita sob o governo Samaras), a luta contra a evasão fiscal, a proteção da residência principal face à confiscação já efetuada das casas e, por último, esta proposta destinada a criar um Comité de Análise com o objetivo de determinar as circunstâncias e sobretudo as responsabilidades do pessoal político que fez mergulhar o país no regime do memorando em 2010 e em 2012. Além disso, o primeiro-ministro grego declarou que a retirada da autorização da fábrica de extração do ouro em Skouriés, no Norte da Grécia, foi necessária a fim de verificar se certas disposições são respeitadas. Os oligarcas apreciarão!

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“Contra os oligarcas. O choque frontal”. “Quotidien des Rédacteurs” de 28 de Fevereiro

 

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Atenas, Março de 2015

 

Resta, contudo, um detalhe importante. O governo não deseja fazer adotar pelo Parlamento o texto assinado no Eurogrupo. Os partidos da oposição indignam-se com isso e na maior das hipocrisias, seguramente; contudo, esta intenção publicitada pelo governo é certamente mais (ou melhor), que uma simples operação destinada a evitar as ruturas no próprio seio da maioria SYRIZA/ANEL. Isto parece ser mais uma tomada de precaução que outra coisa. Os juristas da maioria, entre os quais Zoé Konstantopoúlou, Presidente do Parlamento, consideram que é preferível não comprometer juridicamente a responsabilidade da Assembleia sobre este assunto, deixando-o assim amadurecer ou apodrecer. Toda a ambiguidade de resto do nosso momento histórico tem também a ver com isto. E não durará certamente.

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Vendas imobiliárias destinadas aos compradores germanófonos. Uma outra ambiguidade. Méthana, Fevereiro 2015

 

Sem nenhuma ambiguidade, uma espécie de contraponto, os citadinos da cidade de Halkída (ilha Eubée), ficaram chocados com o duplo suicídio de 25 de Fevereiro. Uma mãe idosa de 63 anos e o seu filho 27 anos suicidaram-se, lançaram-se do quinto andar do seu prédio. De acordo com a reportagem, terão sido as suas graves dificuldades financeiras com que os dois infelizes se confrontaram ao longo destes três últimos anos, que os levaram a pôr fim à vida. De acordo com os testemunhos, primeiro suicidou-se a mãe e, seguidamente, o seu filho repetiu imediatamente o mesmo gesto fatal. Ficou ferido seriamente e foi transportado para o hospital, onde sucumbiu imediatamente a seguir. É de resto o primeiro suicídio conhecido desde o nosso novo tempo político. Outras estatísticas e estimativas estão a ser atualmente publicadas neste momento, e dão-nos conta de mais de uma centena de diplomados muito qualificados, a saírem diariamente do país. Assim, a Grécia terá perdido mais de 300.000 almas qualificadas e formadas desde 2010. Digamos que a primavera está quase a chegar, e que a pausa para o café terminou. Sem ambiguidade.

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Primavera. Atenas, Março de  2015

 

13. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- Primavera ambígua I

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