A PROPÓSITO DE FRANCISCO ASSIS, A PROPÓSITO DE ANGELA MERKEL, (NÃO É A NOVA MADRE TERESA DE CALCUTÁ), A PROPÓSITO DE ALGUNS TEXTOS DE REFLEXÃO QUE IREMOS PUBLICAR – por JÚLIO MARQUES MOTA – II

júlio marques mota

(conclusão)

Estes actuais críticos da coligação à esquerda não se perfilam senão como fieis vassalos desta chanceler que tem imposto as medidas de austeridade que se têm praticado por toda a Europa. Neste quadro o que é que se pode sublinhar quando se fala de zona euro? Que se trata de uma união económica e monetária, com uma série de países altamente endividados, como por exemplo, Portugal, Espanha, França, Malta, Chipre, Grécia, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Bélgica, uma união económica e monetária por onde vagueiam milhões de pessoas à procura de emprego e sem condições mínimas de dignidade nem de defesa dos seus direitos, que se trata até de uma Europa alemã, sem nada que tenha a ver com a Alemanha do ponto de vista produtivo, a não ser que se alimenta a Alemanha em mão-de-obra barata e pelos outros países altamente bem formada e qualificada. E não está então esta Europa à beira de algo semelhante a um processo quase final de albanização, ou talvez antes, a ficar transformada actualmente numa  EURSS?

Olhemos por exemplo, para uma das big four, a Espanha. Sobre este país diz-nos Simon Tilford, do Center for European Reform, num texto intitulado Gain or more pain in Spain[1]?:

« A Espanha é o mais recente filho da propaganda da zona do euro quanto à eficácia da austeridade e das reformas estruturais. A economia do país está a crescer de forma robusta na base de um forte crescimento do emprego, retomando a subida dos salários reais e captando investimento para a actividade empresarial. Na verdade, a Espanha está a caminho de ser a economia da zona euro com a mais rápida no conjunto das quatro grandes economias da EU, este ano.

« O regresso da Espanha à situação de crescimento é uma boa notícia, mas não se pode induzir que tal crescimento seja o resultado das politicas de austeridade, de consolidação orçamental e das reformas estruturais. Mais ainda, as perspectivas da economia são de sugerir e os desafios que o país enfrenta grande permanecem enormes.

 « A inflação muito baixa está a corroer o valor real do peso da enorme dívida do país. O desemprego irá permanecer elevado por muitos anos e continuará a ter impacto sobre a descida dos preços. E o BCE terá de lançar mão da flexibilização quantitativa de forma agressiva para elevar a inflação espanhola.

« Os custos reais dos empréstimos obtidos nos mercados são mais altos nos países em dificuldade na zona euro tais como a Espanha (onde a inflação é a mais baixa), e são os mais baixos nos países mais fortes da zona ( onde a inflação é mais alta) levando a que o capital e o trabalho qualificado fluam para as economias mais fortes da zona euro. O governo espanhol não pode impulsionar as despesas públicas para se contrapor a este efeito e à zona euro faltam mecanismos orçamentais para compensar os Estado-Membros mais fracos desta situação que lhes é gravosa.

 « A Espanha precisa de um maior crescimento de produtividade se as condições de vida estão a convergir para o nível daquelas usufruídas nos países mais ricos da UE. Mas há muitos poucos sinais de que o investimento se esteja a deslocar das actividades de baixo valor acrescentado para as actividades de elevado valor acrescentado. A maioria dos empregos criados ao longo dos últimos dois anos é sobretudo de empregos de baixos salários do sector de serviços, especialmente no turismo.

« O “desempenho relativamente forte da Espanha no sector de bens exportáveis dada a profundidade da crise foi obtido sobretudo em sectores tais como o dos combustíveis e nos bens alimentares e menos nos sectores de valor acrescentado mais altos. A retoma na procura interna conduzirá ao aumento das suas importações e mais rapidamente do que as exportações, o que irá provocar um défice na balança corrente e de novo a um agravamento na Espanha da sua posição em termos de disponibilidades líquidas sobre o exterior, já muito fracas, da Espanha.

« A actividade na construção atingiu o fundo, e considera-se que´ irá estagnar a baixos níveis de actividade, dada a situação da demografia, muito má, em Espanha e dado o facto de a Espanha estar à abarrotar de casas vazias, algumas das quais continuam a ser demolidas mas em que muitas continuarão a pesar sobre o mercado.

«. Uma das mais baixas taxas de natalidade do mundo e uma emigração líquida significativa diz-nos que a população em idade activa da Espanha está a reduzir-se rápida e dramaticamente. Isto pode não aparecer como um problema para um país com desemprego em massa, mas os países com a força de trabalho a reduzir-se tendem a sofrer de um fraco crescimento económico o que torna a dívida pública e privada mais difícil de vir a ser paga.

«. Espanha muito provavelmente irá entrar numa próxima recessão, mal tendo ainda recuperado da recessão anterior, com altos níveis de endividamento do sector público e privado, e com uma taxa de desemprego bem acima dos níveis de pré-crise. Fundamentalmente, a Espanha terá poucos instrumentos de política económica disponíveis para lutar contra um novo enfraquecimento da procura interna, o que acresce a probabilidade de que a próxima recessão seja bem profunda.

Alguns gráficos ilustrativos:

Angela Merkel - der spiegel - II

Angela Merkel - der spiegel - III

Angela Merkel - der spiegel - IV

Angela Merkel - der spiegel - V

Ora a esta situação deve-se ter ainda em conta o risco político que poderia representar a ascensão, nas próximas eleições, de partidos como Ciudadanos e Podemos; e isto, no momento em que a Comissão Europeia exige novos esforços em termos de austeridade, especialmente novos cortes orçamentais e mais impostos, ou seja mais austeridade, esforços estes que as autoridades locais estão dispostas a praticar porque, como explicou José María Linde, governador do Banco de Espanha, não devemos correr o “risco de sair fora do caminho de consolidação orçamental.” Por todas as razões acima expostas, conclui Tilford, “a Espanha prepara-se para conhecer ainda bem maiores dores”. A situação portuguesa não está melhor e quanto a esta o nosso Leopardo que dá pelo nome de Francisco Assis diz-nos: ““um acordo de ocasião nada de novo e verdadeiramente relevante pode trazer ao país”. Simplesmente espantoso.

Ora compreende-se que Rajoy tenha ficado desagradado com a hipótese da coligação de esquerda, porque esta representa uma dinamização da própria esquerda em Espanha nas próximas eleições, representa assim uma espinha no coração da Espanha austeritária, e portanto, representa uma espinha no coração da imperial Alemanha. Por aqui também se compreende portanto as posições de Francisco Assis e dos seus amigos, a favor portanto da mesma causa que Rajoy, mas agora, pasme-se em nome das tradições reformistas do PS português. Veste bem a pele de Leopardo de Lampedusa, este nosso Assis.

A demonstrar esta nossa crítica publicaremos agora uma série de textos a esclarecer a nossa posição relativamente à Europa. Como primeiro texto revisitaremos o acordo de capitulação assinado por Tsipras, num artigo de Christophe Bouillaud com o título Estes compromissos que matam a Europa. Depois, segue-se-lhe o artigo de Luc Rosenzweig com o titulo  Angela Merkel, a chanceler da Europa, texto este gentilmente cedido pelo director da revista Causeur e, por fim, um outro texto de Christophe Bouillaud intitulado As esquerdas hoje não têm outras escolhas.

A todos desejo boas leituras.

[1] Disponível em: http://www.cer.org.uk/publications/archive/policy-brief/2015/gain-or-more-pain-spain

 

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