16. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- Abril invisível II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão Flávio Nunes

 

(conclusão)

 

Numa dupla entrevista concedida (17 de Março) ao jornal berlinense “Tagesspiegel” e ao “ The Press Project Internacional”, Costas Lapavítsas precisou assim as suas posições: “Chegou a altura para a Grécia e para os seus parceiros de terem de ter em conta que estão a chicotear um cavalo já morto. Em vez disso, devem trabalhar juntos para uma saída pelas negociações e pelo consenso. Depois de cinco anos de desinformação alarmista dever-se-ia enfim chegar a um verdadeiro debate aberto.”
“A estratégia de SYRIZA foi e permanece ainda a seguinte: chegar a um alinhamento político das forças na Grécia e na Europa em geral, ou ainda, que SYRIZA possa encarnar o papel de catalisador na zona euro. Esta estratégia está agora a atingir os seus limites. A verdadeira questão é, portanto, quanto tempo é que é ainda necessário para o compreender. Estamos muito céticos. Não há ainda nenhum alinhamento político possível, exceto se forem apenas os mecanismos das instituições e a lógica da união monetária. Para aqueles que acreditam que uma mudança de política é simples, que é suficiente, digamos, transformar esta lógica, estão errados. O que temos visto revela que o quadro institucional da zona euro e o mecanismo ideológico que a suporta são apenas sensíveis aos argumentos nascidos das perturbações eleitorais. O reflexo de tudo isto é o acordo do 20 de Fevereiro no Eurogrupo.” Propósito por conseguinte a seguir, na sequência acontecimentos.

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Diante do ministério das Finanças. Atenas, Março 2015

 

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Memorial do cao Sotíris. Atenas, Março 2015

Enquanto que em Atenas se comemoram certas lutas, da mesma maneira que o cão Sotíris habituado aos lugares antes do seu desaparecimento, os meios de comunicação social gregos apresentam o encontro marcado entre Alexis Tsípras e Angela Merkel, na segunda-feira 23 de Março como sendo o da última possibilidade.
Tudo se acelera, por conseguinte, na atualidade como se pode facilmente confirmar. No SYRIZA (não oficial), evoca-se às vezes (de acordo com as minhas informações) esta outra (?) solução (investimentos massivos na Grécia e gestão da crise humanitária designadamente), sugerida ao partido da Esquerda radical pelos economistas do Instituto Levy (think tank nos Estados Unidos), posicionamento que não é o da Alemanha (oficial) e muito distinto (se compreendo bem), do de Costas Lapavítsas.
Certos meios de comunicação social pretendem convencer-nos, por último e em paralelo, que os Estados Unidos teriam intervindo de modo que este encontro, entre Alexis Tsípras e Angela Merkel, pudesse dar-se, “notícia” não verificável.

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Bebida quente. Atenas, Março de 201

 

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Certas queimaduras. Atenas, Março 2015

Em Atenas é decididamente o momento da ablução e mesmo da memória. Numa visita à Moscovo, o vice – ministro da Defesa, Costas Isichos, nascido em Buenos Aires em 1957, declara que o seu ministério procura também nos arquivos russos, peças (…) provas convincentes , relativas à ocupação alemã dos anos 1940.

Já no diário “Avgí” (SYRIZA) o mesmo Costas Isichos declarou recentemente que o governo grego adquiriu junto dos arquivos aos Estados Unidos, “ reproduções de mais de 400.000 peças antigamente classificadas, atestando as atrocidades nazis cometidas durante a ocupação”.

 

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Reproduções de mais de 400.000 peças historicas. Quotidien “Avgí” de 11 Março.

 

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Luta pelo planeta Terra. Atenas, Março 2015

 

Lutas de antanho e lutas de sempre, enquanto sobre uma fachada ateniense, um slogan de resto incompleto, sugere então a necessidade “da luta pelo planeta Terra”.
Odysséas Elýtis, tinha escrito este poema “Jornal de um Abril invisível” (tradução francesa de Xavier Bordes e de Robert Longueville em “Axion Esti” seguido “da árvore lúcida” e “a décima-quarta beleza”, Gallimard, 1996):
“Pura jornada transparente. Pode-se mesmo ver o vento que tropeçou contra a forma da montanha ali em baixo para os lados do Ocidente. E o mar com as suas asas estendidas, todas em baixo, sob a janela. Ter-se-ia desejo de voar em altitude e de partilhar de bem alto a sua alma como presente. Depois, descer para, corajosamente, se entrar no túmulo e tomarmos o lugar que nós cabe. ”
A sua alma em presente, longe das obscuridades conhecidas do seu tempo, como do nosso. Abril invisível e fachadas atenienses.

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Odysséas Elýtis, nascido a 2 Novembro de 1911 em Héraklion et morto a 18 Março de 1996 em Atenas.

 

16. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- Abril invisível I

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