Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
L’arène nue
As esquerdas hoje não têm outras escolhas que não sejam ou abandonar qualquer perspectiva de mudança ou tornarem-se revolucionárias – Entrevista com Christophe Bouillaud
Coralie Delaume, Les gauches n’ont le choix qu’entre abandonner toute perspective de changement ou redevenir révolutionnaires – entretien avec Christophe Bouillaud
Blog L’Arène Nue, 18 de Setembro de 2015
Christophe Bouillaud é professor de Ciências políticas no Instituto de Estudos políticos de Grenoble. É especialista da vida política italiana e, mais geralmente, da vida política europeia. Tem um excelente blog cujo link é o seguinte: que se pode aqui consultar*. O texto que se segue são as suas respostas a algumas perguntas que lhe foram postas a respeito dos movimentos de esquerda “alternativos” que se vêem aparecer e crescer (ou estagnar!) em vários países da Europa.
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(conclusão)
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O malogro de Alexis Tsipras na Grécia, que levará finalmente, da mesma maneira que os governos gregos precedentes, a uma política “memorandista” irá enfraquecer ou pelo contrário galvanizar estas esquerdas alternativas?
Vai primeiro dividi-las! Divide-as já entre os que acreditam que há um ganho político em ocupar, apesar de tudo, o poder de Estado para privar os adversários da direita de o ocuparem, e os que vêem nisso nada mais que uma traição dos ideais e das promessas, ou seja aqueles para quem o poder vale apenas tanto quanto se possa fazer a política que se deseja realmente. É de resto uma velha controvérsia à esquerda.
Além disso, é provável que a sequência da experiência Tsipras vá ser muito importante. Conseguirá ele em manter-se no poder na sequência das eleições de próximo domingo? Se sim, ao preço de que compromissos? E para fazer o quê? O mais provável nesta fase, dado que é tido com a corda ao pescoço pelo novo memorando, é, contudo, que falhe em efectuar uma política de esquerda, mesmo que minimalista do ponto de vista humanitário – dado que é disto que se trata com efeito, muito mais disto do que dos grandes projectos sociais-democratas à maneira dos anos 1960-70. A crise social grega vai por conseguinte agravar-se ainda mais. Por este facto, uma grande parte das esquerdas alternativas parece estar em vias de compreender que não é possível governar um país à esquerda no quadro europeu actual. E também que não podem esperar fazer com que o navio europeu mude de trajectória tanto quanto são estruturalmente minoritárias
O problema torna-se então o seguinte: estas esquerdas não têm mais nenhuma outra alternativa que não seja ou de abandonarem qualquer perspectiva de mudança perceptível ou então voltarem a serem revolucionários no sentido antigo da palavra. Ora, acontece que todo o percurso destas esquerdas, em especial da ala comunista mais tradicional como o PCF em França foi o de precisamente, desde os anos 1970, de abandonar toda e qualquer perspectiva revolucionária. Do mesmo modo, os partidos comunistas têm na sua maior parte aceite a pertença do seu país à União europeia e inscreveram-se nesta perspectiva vaga de uma “ Outra Europa”, como o tinha feito, aliás, Alexis Tsipras ele mesmo ao passar a ser o candidato destes partidos à Presidência da Comissão Europeia em 2014. Ora é todo este trajecto a considerar uma “ Outra Europa”, que se obteria à força de pressões eleitorais suaves e repetidas, que se encontra posto em cheque pela situação grega [ depois de ter assinado o memorando III em 12-13 de Julho]. Claramente, verifica-se que as eleições num país periférico e devedor da zona euro não têm mais nenhum peso político. Mesmo um referendo não tem mais nenhum peso. De facto, é suficiente imaginar outro percurso para a Grécia, depois do dia 6 de Julho de 2015, do que o que foi escolhido por Tsipras, para se dar conta que é na verdade uma revolução que seria necessário fazer – ou pelo menos uma ruptura nítida com a situação existente. Além disso, como uma tal revolução só se pode fazer sobre uma base nacional, isto desestabiliza completamente esta esquerda, no fundo muito europeísta. É suficiente ver as propostas “do Plano B” do grupo Varoufakis/Mélenchon/Lafontaine/Fassina. Este ainda permanece como um esboço de plano destinado a fazer pressão sobre a “Outra Europa”. Não é muito realista. Somente a saída da zona Euro ou da União europeia seriam realistas, mas isso implicaria acabar e por muito tempo com o sonho da Europa unida. Tertium non datur. A esquerda não deixou até agora de estar dividida sobre este ponto.
Em paralelo à emergência destas esquerdas críticas, vê-se crescer por toda a parte diversas formas “de populismo de direita”. Num caso como no outro, que eles dêem respostas à esquerda ou respostas à direita, constata-se que todos estes movimentos puseram no centro do seu discurso duas temáticas: a da União europeia (que seria necessário seja abandonar seja reformar) e a da soberania (nacional e/ou popular). Devido a que razões?
Este enervamento crescente contra a União europeia, tanto, certamente, à extrema-esquerda como à extrema-direita dos tabuleiros do xadrez político, devem-se ao facto deste último condicionar muito fortemente as políticas públicas dos Estados-Membros. É necessário ao mesmo tempo respeitar a ordem neoliberal em economia, e a ordem “libertária” em matéria de costumes no sentido lato do termo (direitos do homem, liberdades pró-criativas, direitos dos homossexuais, estatuto dos estrangeiros, etc.).
Contrariamente ao que se diz, por vezes, à esquerda, este duplo constrangimento “liberal/libertário” não resulta somente dos tratados, mas também das relações de força partidárias no Parlamento europeu (como o mostram efectivamente os estudos do grupo Votewatch.eu) e no seio do Conselho europeu. Se o leitor for, como o é actualmente o muito conservador Viktor Orban, a favor da promoção da vossa economia nacional e da defesa “da Europa cristã” (e não necessariamente a do Papa Francisco…), o leitor encontrar-se-á muito largamente fora das linhas defendidas pelo consenso que reina em Bruxelas. Portanto, os que defendem visões contraditórias com este consenso europeu “liberal/libertário” terão cada vez mais a tentação de deixar o navio europeu, à medida que os seus próprios eleitores compreenderem que não têm nada a esperar da União europeia.
Teria sido necessário sem dúvida uma visão muito mais atenta às fixações de cada população para evitar este tipo de escolhos: o caso húngaro ilustra-o efectivamente. Está aí o caso de uma nação “étnica” que tem medo de desaparecer demograficamente e que ainda não se refez o do traumatismo do Tratado de Trianon de 1920. Teria sido possível prever de antemão que a chegada de imigrantes ou de refugiados sobre o seu solo, muçulmanos além disso, seria imediatamente instrumentalizada pela direita e extrema-direita do país. Por conseguinte teria sido necessário ser muito mais cuidadoso e mais realista, no conjunto das disposições dos tratados, e seria bem melhor respeitar as idiossincrasias de cada um. Se amanhã o Reino Unido deixar a União na sequência de um referendo, isso será largamente devido a esta falta de discernimento nas obrigações impostas a este país em declínio secular.
Precisamente! A Grã-Bretanha, que tem no entanto uma relação muito distendida para com a Europa, também encontrou o seu líder de esquerda crítica na pessoa de Jeremy Corbyn, de quem se diz que tem extremamente pouca simpatia para com a UE. Como explicá-lo?
O que compreendo, é que a dinâmica Corbyn está principalmente inscrita na vida política britânica, na recusa de certos sectores da esquerda em aceitar a dominação do neoliberalismo sobre o “New Labour”, e a recusa das políticas conservadoras efectuadas por Cameron e que parecem feitas para durar. Esta eleição não tem por conseguinte uma relação muito nítida com a União Europeia, porque o Reino Unido não teve nenhuma necessidade da UE para se tornar o paraíso (ou o inferno?) do neoliberalismo. No país dos contratos de trabalho zero-horas, a União europeia pode ainda aparecer, por contraste, como uma esperança de justiça social.
Contudo, é significativo que o novo líder dos trabalhistas não seja um entusiasta europeísta. Recorda-se sem dúvida que nos anos 1970, era a direita conservadora que queria a entrada do Reino Unido no Mercado Comum, e não tanto a esquerda trabalhista que tinha dúvidas quanto a este projecto de integração continental. Contudo, Corbyn não deu o passo de defender a saída do seu país da União europeia, quando ele própria poderia então aproveitar a ocasião com o referendo que prometeu imprudentemente David Cameron sobre o assunto. Provavelmente, a questão escocesa complica a equação, dado que o SNP (Scottish national party) se declara fortemente ligado à União Europeia.
Bom, não se irá evidentemente ao ponto de dizer que “a direita da direita” e “a esquerda da esquerda” se equivalem sobre a questão europeia, e que, de acordo com uma famosa banalidade, “os extremos juntam-se”. Não é?
Certamente que não. Fora da constatação partilhada de uma pressão cada vez maior da União Europeia sobre as políticas públicas nacionais (sobretudo em matéria de política económica onde existe mais apenas o one best way neoliberal a todo o custo promovido pela Comissão Europeia e o BCE), existe uma evidente diferença de abordagem entre extrema-direita e a extrema-esquerda crítica da Europa. A direita, é fácil ser nacionalista e dizer mal de Bruxelas, “da EURSS, [ou seja da Europa modelo soviético]”, ao mesmo tempo que se proclama mesmo assim disponível para uma colaboração entre nações europeias soberanas. A esquerda, não é coisa dada o propor-se uma ruptura com o projecto europeu, considerado como tendo também aspectos muito positivos quando é tomado sob o ângulo “libertário” (ao sentido por exemplo de defesa da igualdade homens/mulheres, dos direitos dos homossexuais, etc.).
De facto, é suficiente que num país o orgulho nacional – na acepção de capacidade de ver o futuro do país como o de um país autónomo e auto-suficiente – esteja um pouco desenvolvida para que a assimetria dos resultados entre a esquerda e a direita euro‑criticas seja impressionante. A França representa o caso típico desta situação: a extrema-direita adquiriu um bom avanço na crítica da União Europeia fazendo apelo à ideia de grandeza – perdida mas possível de reencontrar – do país. Durante este tempo, a extrema-esquerda perde-se em argucias em redor da possibilidade ou não de tornar o euro mais social…
Conhece particularmente efectivamente a Itália. Como país da Europa do Sul largamente maltratado pela crise das dívidas soberanas e pelo euro, deveria então ter também o seu partido de esquerda crítico. Mas isto não é o caso. Porquê? Que formação ocupa este lugar na Itália?
É necessário compreender que na Itália, “a esquerda da esquerda” – o Partido da Refundação comunista ou os Verdes por exemplo – tiveram todas as aventuras e desventuras da esquerda governamental desde 1993. Tanto ao nível nacional como regional ou comunal, devido aos modos de voto adoptados desde essa época, esta esquerda funcionou como uma periferia crítica da esquerda dominante, a antiga maioria PCI (Partido comunista italiano) que se tornou o PDS (Partido democrático da esquerda), depois chamou-se de DS (Democratas de esquerda) e, por fim, PD (Partido democrata). Nunca esta “esquerda da esquerda” foi capaz de representar outra coisa que não fosse apenas o de grupo de companheiros de estrada, certamente um pouco rebeldes e irrequietos, da esquerda dominante. De imediato, aceitou todas as reformas neoliberais feitas por esta esquerda dominante com a qual nunca cortou. É necessário acrescentar ainda as inúmeras querelas de pessoas, a construção de capelas e de subcapelas na sequência das derrotas sucessivas, uma fixação desastrosa sobre as glórias passadas do comunismo italiano, uma propensão extraordinária a escolher líderes medíocres, um gosto a corrupção também ao nível local e regional.
Face a esta situação vai criar-se, em 2007-09 e por iniciativa do humorista Beppe Grillo, “o Movimento 5 Estrelas”, que vai afirmar-se “para além da esquerda e da direita”. À partida, vai atrair militantes frequentemente ligados aos combates ecológicos locais, que teriam podido estar e ser da esquerda da esquerda se esta última não lhes fosse desagradável. De facto, o desgosto de uma parte dos eleitores italianos contra a classe política está então como este movimento rotulado “nem direita nem esquerda” encontra um imenso sucesso nas eleições de Fevereiro de 2013.
Depois de uma passagem no vazio, parece que o M5S representa doravante a grande força de oposição ao governo de centro-esquerda de Matteo Renzi, nomeadamente sobre as problemáticas de esquerda como a defesa de um rendimento mínimo garantido para todos os Italianos. É necessário igualmente notar que o M5S ousa ter um discurso muito crítico contra a União Europeia, e a zona euro em especial. Nunca um partido italiano de esquerda teria ousado defender este tipo de posições, porque a esquerda italiana é, desde os anos 1970 e do período do eurocomunismo, muito europeísta. Para muitos, o internacionalismo comunista foi substituído pelo europeísmo. Deste ponto de vista, o M5S é um movimento nacionalista, porque entende fazer prevalecer os interesses reais dos Italianos, da economia italiana, sobre qualquer forma de crença europeísta, prevalecendo-se da realidade de uma Itália, se o posso dizer, já europeia (honesta, trabalhadora, instruída, conectada, etc.). Em certa medida, o M5S pensa que a Itália tem bastante de Europa nela mesma para não ter necessidade de receber lições de Bruxelas e de Frankfurt.
Além disso, parece que o movimento do PD para o centro – ou mesmo para a direita – impulsionado pelo Matteo Renzi, o seu líder desde o fim de 2013 e actual Presidente do Conselho, é tão evidente que uma parte da minoria PD vai tentar este outono fundar um novo e verdadeiro partida de esquerda. É por conseguinte possível que uma força alternativa acaba por existir à esquerda do PD. Para terminar, é necessário notar que um dos problemas da esquerda italiana reside na relação para com o comunismo. As últimas eleições mostraram que a marca comunista (a foice e o martelo) já não valia coisa nenhuma no mercado eleitoral italiano. É sem dúvida tempo de fazer o luto pelo PCI e de ir realmente em frente …
De acordo com a sua posição, a que partido “de esquerda alternativa” já existente a nova formação italiana procedente do PD se poderia assemelhar? Quais são as suas possibilidades de avançar na paisagem política do país?
Esta força nova será sem dúvida crítica no que diz respeito à actual União europeia, mas não irá provavelmente ao ponto de preconizar uma ruptura com a zona euro ou a UE.
Esta problemática permanecerá por conseguinte o privilégio do M5S ou da direita extrema, representada pela Liga do Norte de Matteo Salvini. Este partido investiu no eurocepticismo desde 1999. No entanto, participou em todos os governos de Silvio Berlusconi sem estar a influenciar em nada a sua política europeia. De imediato e apesar da sua retirada na oposição desde Outubro de 2011, estava até há bem pouco tempo em declínio. Actualmente, o seu novo líder decidiu jogar à fundo a carta da anti-UE, e fazê-lo em nome de toda a Itália (enquanto que se trata à partida de um partido de defesa dos interesses do Norte da Itália contra o Sul do país). Como frequentemente à direita do xadrez político, este discurso euro-critico junta-se a uma xenofobia afirmada, na espécie de uma recusa de qualquer presença do Islão na Itália. De imediato, este partido nunca esteve tão bem colocado nas sondagens de opinião
Em síntese, a esquerda crítica joga um papel eleitoralmente menor sobre o xadrez político italiano, e duvido que com o M5S de um lado e a Liga do Norte do outro, um qualquer discurso crítico sobre a Europa proposto por um qualquer destes dois partidos venha a encontrar muita audiência.
Christophe Bouillaud, blog Arène Nue, « Les gauches n’ont le choix qu’entre abandonner toute perspective de changement ou redevenir révolutionnaires ». Texto disponível em : http://l-arene-nue.blogspot.pt/
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Ver o original em:
http://l-arene-nue.blogspot.pt/2015/09/les-gauches-nont-le-choix-quentre.html
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