19. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- Fantasmas e fantasias I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Flávio Nunes

 

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- uma análise social diária da crise grega

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Quinta-feira 9 Abril 2015

19. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- Fantasmas e fantasias

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Esta primavera grega, segundo as dicas mais frescas que se ouvem é mais fria que habitualmente. As chuvas continuam entre dois raios de sol, borrascas de vento e suicídios cometidos em Atenas, Patras, ou mesmo, em Rodes. Então, pelo menos agora dir-nos-ão nada mais que isto, que são contos, ou mais cinicamente ainda, oh, isso é do domínio do maravilhoso com a diferença, portanto, de que é um maravilhoso às avessas.

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Fenêtre. Athènes, avril 2015

Este país de homens cheios de modéstia obrigatória não atribui mais nenhum crédito às forças sobrenaturais “das Instituições”, enquanto que o governo também não informa realmente qual é o teor das discussões e de outras negociações correntes, entre Alexis Tsípras e Vladimir Putin em Moscovo, como por exemplo, entre Yanis Varoufákis e Christine Lagarde nos Estados Unidos. A única certeza provada a demissão nesta semana do sempre representante da Grécia junto do FMI, o pagamento de um parcela de 433 milhões de euros ao FMI pela Grécia na quinta-feira 9 de Abril, bem como os seis mil milhões de euros que a Rússia pagaria à Grécia em breve (no âmbito de um acordo ligado aos futuros gasodutos), de acordo com uma certa imprensa em todo caso.

Observo que o quotidiano grego, e primeiro o ateniense, roda muito lentamente porque suspenso num enorme vazio. Desde há três meses, a vida suposta económica é incerta, exceto o turismo, bem como certa ornamentação dos cafés e das tabernas de topologia no entanto seletiva.

Os Gregos literalmente esvaziaram as sua contas e são numerosos os (fora dos 25% dos que têm posses), que esgotam assim a sua última poupança então colocada sob os colchões, de acordo com a expressão assim bem consagrada. Os bancos, já esvaziados de sentido, estão pura e simplesmente vazios.

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A Grécia atual. Cartaz, Atenas, Abril 2015

 

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Turismo, já. Atenas, Abril 2015

 

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A viagem de Alexis Tsípras a Moscou e na televisão. 8 Abril.

Salvo que este mês de Abril é também um momento de recolhimento e de recordação, para alguns de nós, em todo caso. No dia 4 de Abril de 2012, há por conseguinte três anos, o farmacêutico reformado Dimítris Christoúlas cometeu suicídio politicamente falando, enfiando uma bola na cabeça junto a uma árvore. Pelo jogo de um certo azar, eu andava por perto daquele local dez minutos após os factos, em frente da saída do metro Praça da Constituição (Sýntagma).
Tínhamos acabado de comprar o nosso pequeno pão aos mercadores ambulantes por cinquenta cêntimos do euro. E então, descobrimos que sobre este mesmo lugar os Indignados do Verão 2011 tinham reunido muita gente, a esta hora matinal o que não era muito comum. Equipas da televisão preparavam já as suas câmaras a exemplo dos fotógrafos, uma ambulância e a polícia estavam lá, evidentemente.
À hora do primeiro bom-dia no trabalho para os que trabalhavam e que trabalham ainda, Dimítris tinha-se suicidado e eis-nos todos nós imobilizados, em silêncio por um momento, creio. “Sim, este homem acaba de se suicidar, tinha um revólver”, diz-me um polícia. Não houve comentários, não houve demasiada emoção expressa abertamente e também durante os primeiros minutos que se seguiram ao drama. Da amargura e da cólera, engolidas penosamente com os nossos últimos bocados de pão porque os nossos pequenos pães metade comidos acabaram então por entrar nos nossos bolsos. Recordo-me que certos transeuntes faziam o seu sinal de cruz, num país onde a única grande trindade se chama sempre “a Troika”, ou de outra forma de dizer, as chamadas “ Instituições” desde 2015.
Os nossos primeiros turistas da estação… tinham igualmente apreciado esta Grécia tão inteirinha e em direto. Pessoalmente sublinhei no blog Greekcrisis e neste caderno de notas sobre a crise que é verdadeiramente inarrável que um graffiti do momento, recordava vagamente que a revolução aparece primeiro que o conceito mural e que prosseguimos na nossa procura da vida e da morte, sendo dado que estes últimos dias (em 2012 como infelizmente em 2015) conhecemos uma grande vaga de suicídios.

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A árvore de Dimítris Christoúlas. A 4 Abril 2015

 

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Memória reafirmada. A 4 Abril 2015

 

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Movimento EPAM, contra a União Europeia. Praça da Constituição, a 4 Abril

Naquilo que tem a ver com a nossa história, refira-se que o general Geórgios Tsolákoglou, signatário do armistício com as forças alemãs, foi o primeiro chefe de governo grego sob a Ocupação, nomeado pelos nazis (Abril de 1941-Dezembro de 1942). O seu nome na Grécia, é sinónimo “de colaborador”. Eis pois o contexto, digamos, bem histórico.
Pessoalmente, compreendi que em face deste acto, bem como tendo em conta o local escolhido por Dimítris Christoúlas para cometer o seu político gesto final, assistiríamos imediatamente à criação de um novo lugar de memória, tratando-se naturalmente da crise grega. Rapidamente, durante todo o dia do 4 de Abril, a notícia do suicídio na Praça da Constituição fez o seu caminho. À parte os meios de comunicação social, a rua tinham sido também um vetor essencial quanto à propagação da notícia, de significado bem real, bem palpável. Porque é este precisamente este vetor essencial que é criador da ligação política.

(continua)

Reproduzido do sítio greek crisis

Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

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