Selecção, introdução e tradução de Júlio Marques Mota
O governo italiano em riscos de cair na sua própria armadilha
Bill Mitchell, Italian government is walking into the trap of its own making
Billy Blog, 5 de Novembro de 2015
(CONCLUSÃO)
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Para o caso de Itália, o gráfico seguinte mostra os défices estruturais projectados (como pontos percentuais do PIB) sob os três cenários acima concebidos. Os dados estão igualmente disponíveis na tabela acima.
Pode-se ver que o défice estrutural projectado aumenta de -0,3 por cento do PIB em 2015 para -0,7 por cento do PIB em 2016, o que sinaliza que a política orçamental discricionária em Itália está a ser planeada para ser expansionista mesmo que o resultado fiscal total reduza a contribuição líquida das despesas públicas sobre os anos considerados.
Como explicar isto?
O gráfico seguinte mostra o projectado gap do PIB (a diferença entre o PIB efectivo e o PIB potencial em percentagem do PIB potencial) até 2019. Podemos ver que a diferença está projectada para se reduzir um pouco dramaticamente entre 2015 e 2016 como resultado do forte crescimento de PIB real projectado que o estímulo expansionista da política está a pretende ter.
O gráfico seguinte mostra o actual resultado orçamental projectado (barras azuis) e a componente cíclica projectada (o estabilizador automático) (barras verdes).
A diferença entre as duas barras é o défice estrutural.
É claro que a componente cíclica contrai-se muito rapidamente – também devido à hipótese de que o crescimento do PIB real será muito forte e as receitas fiscais aumentarão fortemente em 2016.
Assim o governo italiano está a tentar sugerir que um estímulo discricionário muito modesto (o défice estrutural a aumentar) tem tais poderosos efeitos sobre o crescimento que leva a que o aumento nas receitas públicas (3,6 por cento) venha a ultrapassar o aumento nas despesas públicas (1,1 por cento) sobre o ano de 2016 e é por isso que o défice global se irá reduzir.
Mas isto está a ser conseguido pela expansão no deficit estrutural ao longo de 2015 e 2016.
A verdadeira história
As projecções totais apresentadas no documento de Setembro são completamente estranhas e eu considero que se ficará muito longe destes valores.
As projecções sobre o crescimento do PIB real são em particular totalmente fantasistas.
A base para todos estes resultados orçamentais projectados está na hipótese considerada de que o PIB real aumentará de -0,4 por cento em 2014 para 0,9 por cento em 2015, depois para 1,6 por cento desde 2016 a 2017 e a seguir 1,5 por cento em 2018 e de 1,3 por cento em 2019.
Estas projecções optimistas são conduzidas sobretudo através da hipótese de aumentos em grande escala no investimento privado previsto.
Podemos apenas sugerir que nada disto vai acontecer e que a melhoria nas receitas orçamentais será bem mais baixa do que o que é esperado.
Isto significaria que se irá ter um défice maior do que o valor estimado e então o engraçado da história começará. É pena pensar que as intervenções demoníacas de Bruxelas são “engraçadas” – uma forma de olhar para as políticas de Bruxelas.
A tabela seguinte mostra o grau em que as previsões oficiais do PIB real são revistas em indicações orçamentais sucessivas.
Assim, em Abril de 2012, previram o crescimento do PIB real em 1,2 por cento. Alteraram progressivamente as projecções à medida que a realidade lhe vai roubando o seu optimismo e daí até Outubro de 2014 a projecção tinha sido dividida por dois.
Conclusão
As mudanças orçamentais anunciadas em Setembro são expansionistas porque o deficit estrutural projectado está a aumentar. Mas eu olharia para os gráficos com uma certa desconfiança, ou melhor não lhes daria nenhuma importância.
O verdadeiro problema é que a Comissão Europeia estará a olhar para este processo à medida que ele se desenvolve e a felicitar-se ela própria por ser “flexível” ao permitir um aumento único, de uma só vez, no défice estrutural e por estar a facilitar na austeridade
Mas vem depois o ano seguinte quando o crescimento projectado for menor do que o esperado e o saldo orçamental global aumentar, os tecnocratas passarão então a exigir que haja mais e mais dura austeridade governamental e com o argumento de que a política orçamental discricionária foi inútil.
Jogando com este jogo de previsões optimistas do crescimento (alguma coisa copiaram provavelmente do FMI!), o governo italiano está a caminhar para uma armadilha – feita por si-mesmo.
O facto é que as diferenças do PIB (entre PIB real e PIB potencial) são muito maiores do que as projectadas e é necessário um estímulo orçamental discricionário muito maior do que o que está a ser feito. Mas por outro lado isto colocaria os resultados orçamentais obtidos fora do radar do Pacto de Estabilidade e Crescimento e Bruxelas enviaria as suas “tropas” (os contadores de feijões`) – ou então desviaria alguns deles de Atenas para Roma.
Bill Mitchell, Italian government is walking into the trap of its own making, texto disponível em:
http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=32268
Publicação autorizada pelo autor.
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Para ler a Parte II deste texto de Bill Mitchell, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
O GOVERNO ITALIANO EM RISCOS DE CAIR NA SUA PRÓPRIA ARMADILHA – por BILL MITCHELL – II





