Selecção, introdução e tradução por Júlio Marques Mota
O governo italiano em riscos de cair na sua própria armadilha
Bill Mitchell, Italian government is walking into the trap of its own making
Billy Blog, 5 de Novembro de 2015
(continuação)
…
Primeiro, o gráfico a seguir mostra os movimentos no saldo orçamental global (défice primário+carga da dívida) a partir de 2014 (verificado) até 2019 (onde os dados são estimativas para 2015-19).
As três cores indicam os três estados – Sem mudança de política no actual ano fiscal, a política de mudanças projectada no ‘orçamento’ de Abril de 2015 e as alterações mais recentes apresentadas em Setembro de 2015.
Assim, a taxa a que o défice orçamental global está a diminuir é decrescente como resultado das mudanças políticas propostas em Setembro de 2015.
E o resultado em 2016 é projectado para ser menor do que o de 2015, que, por sua vez, está projectado para ser menor do que o resultado de 2014.
Assim, a conclusão é a de que na base destas projecções a contribuição líquida da política orçamental pública para o total da despesa e, portanto, para a evolução da actividade económica está constantemente a cair ao longo do período de previsão.
É o que se queria ter demonstrado quanto à controvérsia na análise de UENews? Temo que não. Confrontar com original.
Como pano de fundo, por favor leia – Os défices estruturais – O grande trabalho con! LINK [2].
Lembremos que o saldo orçamental global (que se mostrou no gráfico anterior ) é dado por receitas totais do governo menos as despesas totais do governo e estas incluem a carga da dívida.
Então, se a receita total é maior do que os gastos, o saldo orçamental é excedentário e vice-versa. É simplesmente uma questão de contabilidade. No entanto, este saldo orçamental é utilizado por toda a gente para indicar o comportamento orçamental do governo.
Portanto, se o saldo orçamental é excedentário todos nós concluímos que o impacto orçamental do governo é contracionista (redução líquida da despesa[1]) e se o saldo orçamental é deficitário, isto quer dizer que o impacto orçamental é expansionista (aumento líquido da sua despesa).
Este é o sentido que certamente o jornalista do EUNews quis dar ao seu texto.
No entanto, a complicação é que nós não podemos concluir que as mudanças anunciadas no impacto orçamental reflectem as mudanças políticas discricionárias. A razão para essa incerteza é que os chamados “estabilizadores automáticos” estão a funcionar.
Para ver isto, o modelo mais simples do equilíbrio orçamental que nós podemos utilizar pode ser escrita como:
Saldo Orçamental = Receitas- Despesas .
Saldo Orçamental = (Rendimentos dos Impostos+ Outros rendimentos ) – ( Despesas da Segurança Social + Outras Despesas)
Sabemos que as receitas fiscais e as despesas na Segurança Social se movem entre si em sentido inverso, com as últimas a subir quando o crescimento do PIB cai e as receitas fiscais a descer com esta mesma evolução do PIB . Inversamente quando o PIB sobe: as receitas fiscais aumentam e as despesas com a Segurança Social descem. Estes componentes do saldo orçamental são os chamados estabilizadores automáticos .
Por outras palavras, sem qualquer mudança discricionária na política orçamental, o saldo fiscal vai variar ao longo do ciclo económico, fruto da conjuntura económica, da sua evolução.
Quando a economia está fraca – há queda de receitas fiscais e aumentos nas despesas para com a Segurança Social e assim irá aumentar o défice orçamental sem que haja quaisquer alterações de política.
Os estabilizadores automáticos atenuam pois a amplitude do ciclo económico através do aumento do défice quando se está em recessão, [para se sair desta,] e de redução do défice quando se está em forte expansão , [por diminuir a pressão sobre a capacidade de oferta, por “arrefecer” a economia através da redução da procura] .
Então, o facto de que o défice orçamental se esteja reduzir de um ano para o outro não nos permite necessariamente concluir que o governo tenha repentinamente passado a utilizar medidas de austeridade, [medidas de contracção] da actividade económica, [mas pode isso sim, ser um resultado da conjuntura económica e, portanto, um efeito dos estabilizadores automáticos] .
Da mesma forma, um eventual aumento do défice não indica necessariamente uma postura expansionista na apolítica seguida.
Por outras palavras, a presença de estabilizadores automáticos pode tornar difícil discernir se a orientação da política orçamental (escolhida pelo governo) é expansionista ou contracionista, em qualquer momento específico no tempo.
Para superar esse problema, os economistas usam o chamado o saldo estrutural `em que para o seu cálculo se excluem as componentes cíclicas (os estabilizadores automáticos).
De facto, isto representa uma tentativa de medir qual seria o saldo orçamental se a economia estivesse a funcionar ao nível do emprego potencial ou de pleno emprego. Por outras palavras, calibrando a posição orçamental (e os parâmetros subjacentes do orçamento) contra algum ponto fixo (capacidade total) eliminam-se as componentes cíclicas – as variações estarão em torno do pleno emprego [e neste ponto a politicas sociais e fiscais dadas teremos o máximo de receitas e o mínimo de despesas para a Segurança Social].
Assim o resultado do saldo orçamental estrutural seria equilibrado se o total das despesas e o total das receitas forem iguais quando a economia está a operar na sua capacidade total. Se o saldo orçamental estrutural está excedentário com a economia a trabalhar na sua capacidade total, nós concluiremos que a estrutura discricionária da política orçamental é contracionista, dita também limitativa, e que a estrutura discricionária da política orçamental é expansionista se o saldo orçamental estrutural está em défice com a economia a funcionar na sua capacidade total.
[Dito de uma outra forma. Para o ponto imaginário de PIB potencial, a politicas fiscais e sociais dadas, as receitas serão máximas e as despesas com a Segurança Social são mínimas. Se a este nível o saldo for zero, diz-se então que o saldo orçamental estrutural é zero. Porém se para esse ponto imaginário, o saldo estrutural for positivo, isto quer dizer que as receitas são maiores que as despesas, ou seja, quer dizer que o que o Estado retira à economia é superior ao dinheiro que injecta. Neste caso a manutenção do PIB ao seu nível potencial e a estrutura fiscal dada e a política de Segurança Social fixa, só é possível se período a período o Estado estiver a arrefecera economia, retirando em termos líquidos liquidez à economia. Por isso se diz que a estrutura discricionária da política orçamental é contracionista. Inversamente, imaginemos que no referido ponto de pleno emprego, estamos agora numa situação de défice. De novo com a política fiscal e social fixas, dadas, então aqui temos o Estado pela via das despesas a injectar mais dinheiro do que aquele que retira através das receitas que obtém dos contribuintes. A manutenção do PIB ao seu nível potencial só é então possível se, ano após ano, o Estado em termos líquidos injectar liquidez na economia, para que a economia não se afaste desse ponto virtual, o PIB potencial, para que o PIB potencial não desça. Diz-se então que a estrutura discricionária da política orçamental é expansionista, situação simétrica do caso anterior].
(continua)
________
[1] Nota de Tradução: Visto de uma outra forma, talvez mais simples: sendo o saldo orçamental global excedentário significa que as receitas do Estado são superiores às despesas.. Mas isto significa que o que o Estado retira à economia, as receitas do Estado, é superior ao que o Estado injecta na economia, o dinheiro com que paga as suas despesas. Daí o dizer-se que se trata de uma situação de contracção da economia. Inversamente, se o saldo orçamental global é de défice, neste caso o dinheiro que injecta na economia, as suas despesas, é superior ao dinheiro que retira da economia, as suas receitas. Daí o dizer-se uma situação de política expansionista ..
[2] – http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=2326
________
Ver o original em:
http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=32268
________
Publicação autorizada pelo autor.
________
Para ler a Parte I deste texto de Bill Mitchell, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
O GOVERNO ITALIANO EM RISCOS DE CAIR NA SUA PRÓPRIA ARMADILHA – por BILL MITCHELL – I



