Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Grécia, Portugal: a esquerda resiste
E se nada estiver decidido?
Jérôme Leroy
Escritor e redactor-chefe de Causeur.
Grèce, Portugal: la gauche fait de la résistance – Et si rien n’était joué?
Revista Causeur.fr., 13 de Novembro de 2015

A esquerda está a resistir. Tranquilizemo-nos, não em França. Na França, um Primeiro-ministro teoricamente socialista não encontra nada de melhor a algumas semanas das eleições regionais que anunciam tranquilamente um maremoto gerado pela FN, que propor uma fusão entre as listas de “republicanos”, entenda-se, dos Republicanos e do PS, ou mesmo, sejamos loucos de ecologia, com a Frente de esquerda atomizada entre várias listas e o PCF. A menos que se pense como o amigo David que se trata de uma estratégia pessoal, isto traduz o maior pânico que se possa imaginar. A prova, mesmo o amável Pierre de Saintignon, cabeça de lista do PS no Nord-Pas-de-Calais e dado largamente como terceiro frente a Marine Le Pen e a Xavier Bertrand, pediu a Valls que se calasse e que deixasse à vontade no terreno os seus militantes suficientemente experimentados nesta tarefa.
Não, quando a esquerda resiste, ou seja quando recusa a fatalidade austeritária e esta famosa caminhada para a direita da sociedade com que nos matraqueiam os ouvidos nas nossas regiões, isso acontece na Grécia e em Portugal. Não se pode dizer que estes países viveram em festa nestes últimos anos. Inútil falarmos sobre o verdadeiro martírio do povo grego vencido por um golpe de Estado financeiro a 13 de Julho de 2015. Um governo de esquerda radical, tendo como líder Tsipras, teve que assinar um memorando ainda mais severo do que todos os precedentes. Não se tratava somente de fazer voltar os Gregos para o caminho da ortodoxia suicida do euro made in Germany, tratava-se além do mais de os punir porque tinham ousado votar à esquerda e mesmo muito à esquerda. A bom entendedor meia palavra basta, tem-se dito pelo lado da Troika, quiseram fazer-se de espertos querendo reorientar a Europa sem sair do euro (era o sentido da vitória do não no referendo de 5 de Julho), pois bem, ides ver o que vos vai acontecer.
E viu-se: “como um voo de falcões gerifalte fora do seu ninho ”, a Alemanha e a França precipitaram-se para comprar de novo e a muito baixo preço o que restava ainda das jóias da família dos Helenos. De imediato, ninguém na verdade compreendeu como é que a 20 de Setembro, o eleitorado grego que teria devido sentir-se traído, voltou outra vez a votar por Syriza e a reconduzir Tsipras nas suas funções. Disseram-nos que não era muito grave, que em todo caso Tsipras tinha compreendido, que ia fazer a política que lhe pediam para fazer e ainda com o sorriso nos lábios e a dizer obrigado à dama. De resto, uma certa esquerda da esquerda, na França, tem gritado a plenos pulmões por traição social-liberal. É que estes, em conformidade com o famoso provérbio de Péguy sobre Kant, têm as mãos brancas mas não têm mãos.
Ora, o que acaba de se passar com a greve geral na Grécia na quinta-feira 12 de Julho, prova por um lado que nada se pode dar por concluído e que Tsipras, por outro lado, não é um traidor. Esta greve foi massiva e teve o seu cortejo habitual de jovens de cara tapada que se reconciliam no motim na Praça Syntagma enquanto que os hotéis de luxo, todos eles muito próximos, eram transformados em bunker’s. Sendo esta greve convocada por PAME, a frente sindical próxima do KKE, o Partido comunista grego mantem-se a defender a sair do euro e trata Tsipras de Macron, a grande surpresa foi que Syriza apelou à participação nessa mesma greve! Resumindo: o partido no governo apelou a que se manifestassem contra … o governo. Esquizofrenia, é o que se ouve por aqui e por ali. É necessário desconfiar-se da medicamentação. Tsipras, de facto, utiliza as últimas armas que tem à sua disposição num contexto de ocupação financeira estrangeira. Ele testemunha. Testemunha quanto à verdadeira natureza da UE, quanto à impossibilidade de encontrar uma outra via, testemunha quanto aos outros países, indicando-lhes que não será mesmo nada fácil , a menos que se encontre um outro tipo de relação de forças e que ao seu lado estejam vários países, igualmente.
Entre os outros países contestatários parece efectivamente que também está agora Portugal. As últimas eleições legislativas puseram à frente o ex- Primeiro-ministro defensor da política de austeridade. Por conseguinte foi indigitado para voltar a assumir actualmente o cargo de primeiro-ministro. Gritos de êxtase no campo da ortodoxia de Bruxelas, sobre o resultado: efectivamente tinham-nos dito que os Portugueses, contrariamente aos Gregos, eram pessoas sérias e trabalhadoras, pessoas que não protestam, que se calam. São pessoas que vivem felizes e que em nome do euro forte, estão dispostas a perderam todos os acervos sociais e a verem aparecer de novo, como antes da Revolução dos Cravos, um lumpemproletariado precário e submisso.
E depois, de repente, olhando os resultados, somos todos levados a pensar que as coisas não eram assim tão simples. A esquerda da esquerda, ou seja o Bloco de Esquerda (um partido do tipo Parti de Gauche para maior) e a CDU (Comunistas mais Verdes) de um lado e os socialistas do outro eram maioritários em votos e em deputados eleitos. Como o Partido socialista português, contrariamente ao Partido socialista francês, tem ainda momentos de lucidez e efectivamente sentiu que o seu eleitorado lhe fugia de eleições para eleições devido à sua submissão a Bruxelas, decidiu modular o seu discurso, assinar um acordo de governo com as duas forças à sua esquerda e derrubar o Primeiro-ministro de direita. Na terça-feira 10 de Novembro, o governo de Passos Coelho, acabado de ser nomeado, foi derrubado, por conseguinte, através da apresentação e votação de uma moção de desconfiança que obteve 123 dos 230 votos do Parlamento. Não se vê agora muito bem, salvo através de uma mudança da Constituição com a bênção da direita (e de Bruxelas) o que é que poderia barrar o caminho ao socialista Antonio Costa.
Não se sabe evidentemente nem na Grécia nem em Portugal o que é que isto vai dar. Mas o que é certo, é que há bolsas de resistência, e há mesmo um pouco mais do que isso, na Estrela Negra que acreditava contudo na sua vitória definitiva.
Jérôme Leroy, Revista Causeur, Grèce, Portugal: la gauche fait de la résistance- Et si rien n’était joué?. Texto disponível em :
http://www.causeur.fr/grece-portugal-tsipras-costa-35375.html
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