28. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Resistir por todos os meios I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão Flávio Nunes

 

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- uma análise social diária da crise na Grécia

Uma série de Panagiotis Grigoriou

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Sexta-feira, 17 Julho 2015

28. Resistir por todos os meios

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O fim do jogo é para breve. Mais exatamente, chegamos ao fim de uma parte das suas partes, mudança de nível. Na Grécia, esta subida de nível no jogo pré-totalitário do programa europeísta não levanta nenhuma dúvida que é assim mesmo. Atenas, torna-se claramente a Guernica deste tão pobre século e imediatamente, cidade outrora bombardeada pelos aviões da Legião Condor nazi alemã nazi em 1937. Em 2015, bancocracia e a dita “moeda europeia”, são as armas de destruição maciça nas mãos das elites ordoliberais , as da Alemanha em primeiro lugar no que nos diz respeito.

 

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Atenas, 2010-2015

O tratamento infligido à Grécia faz-nos antecipar o que se irá produzir na Itália, na Espanha ou a França. Temos aqui, certamente cinco anos de avanço sobre o futuro da Europa, o verdadeiro Futuroscópio é imediatamente visitável em Atenas.
Contudo agora sabe-se. A guerra será longa e será sem piedade. Haverá nações a revoltarem-se e haverá populações que irão perecer. As nossas linhas (Maginot) políticas, herdadas da época democrática, todas estas histórias bem engraçadas a dormirem de pé antes de morrer, entre “esquerda” e mesmo “direita”, e que não põem em causa o totalitarismo europeísta estão neste momento obsoletos.

Encontrei-me recentemente com Anna, através de um amigo, um conhecimento remoto, não tinha falado com ela desde há mais de um ano. Habita nos bairros ricos ao Norte da aglomeração de Atenas, ela é quadro numa empresa grega; Anna, é sobretudo quadro já histórico no partido da Nova Democracia. Mudança de discurso, mudança de mentalidade:

“Agora compreendi. A Europa, a Alemanha, preparam a nossa execução; organizam a sujeição da Grécia. Nas empresas, os quadros, ou mesmo os patrões, compreendem doravante que este memorando punitivo, visa a enfraquecer-nos a nós todos ainda mais, a quebrar definitivamente o que ainda existe de tecido económico do nosso país. As máscaras caem. O pessoal político; todo o pessoal político é muito… ligeiro, muito insuficiente e mentiroso face à gravidade da situação. Os nossos, Samaras e consortes são-no também. Deveriam dizer a verdade aos Gregos, e sobretudo, elaborar e preparar um Plano-b, uma verdadeira via alternativa no caso, para se poder sair da zona euro, ou mesmo, da UE. Tsípras já confessou a sua falta de preparação e na Nova democracia fazem ainda estes filhos da p. Não suporto mais ver perder-se e perder s a minha pátria, e isso, não é um truque de direita nem de esquerda.” Mentalidades mutantes!

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Estandarte do totalitarismo europeísta queimado. Atenas, 2010-2015

 

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A UE, imprensa grega 2010-2015

O abalo é enorme, significa já os próximos sismos que aí vêm. Em SYRIZA, é a instância de divórcio entre a ala esquerda e a ala direita. Esta última, no governo, estaria em via de perder o controlo do partido. Alexis Tsípras e os seus coronéis da ala direita do partido, insistem sobre “a responsabilidade partilhada de todo o SYRIZA , dado que a chantagem à qual sucumbimos existiu e fortemente. A escolha dos deputados que votaram “NÃO” no Parlamento entra abertamente em conflito com o espírito de solidariedade interna no partido e mais, num momento tão grave como este ; a sua atitude provoca uma ferida aberta entre nós. Quando estes camaradas (Plataforma de Esquerda) pretendem, enfim, apoiar o governo, apesar de tudo , este apoio ao primeiro governo historicamente de esquerda é então realmente caduco; doravante sou forçado a prosseguir até à conclusão do acordo com um governo minoritário ao Parlamento”.

A cisão é inevitável, a menos que se tenha um governo sem partido atrás dele , “e isto seria inconcebível. Não devemos dar aos outros o instrumento (governo) que conquistamos depois de tantas lutas. É necessário pelo contrário, fazer certamente a nossa autocrítica, mas prosseguir o caminho depois da nossa derrota tácita e estratégica (o acordo), não tínhamos visto o muro chegar. Contudo, teremos outras ocasiões para combater e inverter a situação”, considera Costas Arvanítis ao micro de 105,5. Este é o tipo de argumentação apresentado pelo governo Syriza.
Para Antonis Davanelos, membro da Comissão Política e do Comité central SYRIZA (plataforma de Esquerda), convidado ao estúdio de Costas Arvanítis (17 de julho); “não devemos permitir esta mutação, ou seja a transformação de SYRIZA num partido do memorando e dão a austeridade, contra a sua alma”, atenção por conseguinte perigo!

 

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Atenas, 2010-2015

 

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Grécia do memorando, 2010-2015

A tensão sobe, a polícia cada vez mais no seu papel de antes de Janeiro de 2015. Aquando da manifestação da quarta-feira em frente do Parlamento; houve estes choques, às vezes calculados e provocados mesmos alguns, com as unidades especiais da Polícia (MATE), que não pedia menos para ripostar. Ripostar, assim, sobretudo sobre os manifestantes, os quais não conseguir na verdade chegar sequer à Praça da Constituição.

Membros da juventude SYRIZA (a organização pronunciou-se oficialmente contra a adoção do texto do memorando a partir desta semana), denunciaram via a rádio 105,5, a violência policial de que foram as vítimas. Pequeno apelo à memória, o ministro responsável das forças… e da ordem é Yannis Panoússis, um antigo do PASOK e do partido da pseudo-esquerda DIMAR, que eleitoralmente desapareceu, na sequência da sua participação com o PASOK, onde o governo do memorando e Antonis Samaras.

Os golpes caem, a sociedade observa e encaixa completamente atónita, salvo que a ebulição sobe. Passado, presente… futuro. Como por azar, um enorme incêndio Acaba de ser declarado na noite ao Sul do Peloponeso , o vento é naturalmente violento e não é a primeira vez que na Grécia, que os incêndios das florestas se tornam frequentes e devastadores durante o período estival, quando por exemplo, um governo deve ser mais “ recomposto” de acordo com os interesses das oligarquias internas como externas. Dois outros incêndios, devastam neste momento as montanhas em redor de Atenas, história do tempo presente inevitavelmente escaldante. Estamos em guerra.

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Atenas, 15 Julho . Manifestantes no chão a serem espancados pelos polícias, praça da Constituição.

 

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Policiais e um manifestante. Atenas, 15 Julho 2015

A Grécia no meio do vau. Para o historiador Pétros Pizánias, “a questão é simples: nesta batalha política contra a Alemanha, perdemos claramente. E foi certamente um erro do governo: escolher o método muito suave, quase ingénuo aquando das negociações. Evitou ter um plano de salvação alternativo, pior ainda, o governo grego evitou também devolver os golpes que sofreu, que encaixou. E assim foi até ao ponto de se deixar surpreender pelo facto que os cidadãos o ultrapassarem em resistência e determinação aquando do referendo.”

“Ao longo de todas as negociações, prevaleceu este impressionante europeísmo ingénuo da Esquerda. Como se, eles tivessem esquecido que a Europa foi construída a partir de guerras religiosas e de muitas outras guerras, a partir da colonização da metade do planeta, a partir das duas guerras mundiais, a repressão das revoluções anticoloniais . Deu origem certamente, ao século das Luzes, salvo que o nosso inimigo número um hoje, a Alemanha, gerou o nazismo, ao qual tinham aderido 80% dos Alemães e cujo espírito ainda não morreu neste mesmo país.”

“Contudo, devemos agora gerir a nossa pesada derrota. E se o governo se coloca então a fazer outra coisa, a fim de ganhar os votos da oposição , estar-se-á fatalmente a oferecer a Merkel e aos falcões neoliberais , sem, no entanto, solicitar o nosso parecer à nós todos, cidadãos que continuamos no entanto a apoiá-lo.”

 

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“Quotidien des Rédacteurs”, julho 2015

“E se mesmo, SYRIZA cedendo ao pânico, decide fazer uma “purga” dos membros da Plataforma de Esquerda, estes últimos terão assim realizado a sua saída … no mosteiro da pureza, similar em caso, nuns como nos outros, terão entregue SYRIZA a Schäuble e aos seus falcões. Estes erros são estritamente proibidos, caros deputados, caros ministros e caros chefes do partido, nada disso, porque isso seremos todos nós cidadãos, os mesmos cidadãos que vos apoiam.”

“O que temos nós de enfrentar com esta derrota? Um memorando, que chega depois de uma pausa de seis meses, confirmando outra vez a perda da nossa soberania política, um plano financeiro quase totalmente inaplicável politica e socialmente, um futuro ausente, e ainda em cima disto, quanto à ajuda ao desenvolvimento e ao problema da dívida, nada mais que falsas pérolas e jogos de espelhos, miragens apresentadas … aos indígenas pelo colonizador.”

 

 “Resumidamente, este memorando III de exigências extremas que o tornam impraticável, é o resultado da vulgaridade do governo alemão e de certos governos dos países Bálticos e outros, do oportunismo do Presidente François Hollande quando fez uso da questão grega para pretender que ele existe politicamente para além de Merkel, e da covardia dos outros (entre os quais o governo cipriota).”

(continua)

Uma série de Panagiotis Grigoriou
Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

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