30. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – A vida está algures I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Flávio Nunes

 

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- Uma análise social diária da crise grega

Uma série de Panagiotis Grigoriou

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Quinta-feira, dia 23 de Julho de 2015

30. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – A vida está algures

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Esta outra noite branca dos deputados não motivou os gregos. Não houve segunda vigília fúnebre em frente dos televisores para esta segunda vertente do memorando III, validado “pelo Parlamento” na noite de quarta-feira 22 de Julho. Ora, 32 deputados SYRIZA votaram contra e cinco abstiveram-se. Por conseguinte status quo ante bellum, expectativa . A actualidade une-se ao volte-face de Yanis Varoufákis, que votou “sim” desta vez, a história nada irá reter . Óleo, efeito coberto com lantejoulas!

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Afluxo para obter ajuda alimentar. Câmara de Trikala, 22 de Julho

Num bar da cidade de Trikala (Tessália), os meus amigos de longa data , retêm quanto a eles, apenas o essencial, arrasador e humilhante. “O texto discutido no Parlamento contem 900 páginas que ninguém irá ler. Será adoptado em duas partes, em dois artigos apenas. Vergonha e ainda vergonha. Uma paródia mais e é mesmo demais.”

Uma evidência do totalitarismo actual suficientemente em forma de paródia, salvo que escapa completamente às contingências de uma certa aventura jornalística, mais mainstream que nunca. “O Parlamento grego valida o segundo pacote de medidas reclamado pelos credores”, traz “o Pravda” parisiense do neoliberalismo e do social-liberalismo reunidos (Le Monde de 22 de Julho -Le Parlement grec valide le second train de mesures réclamé par les créanciers)

Já para Voltaire nenhum povo merece que que se lhe dedique toda a atenção dos historiadores; três séculos mais tarde “em face do aumento do cepticismo e da rejeição que suscita o espectáculo irrisório e pouco envolvente da política europeia, o regresso das grandes tiradas europeias está na moda . François Hollande fala de governança económica – para se deixar a política aos chefes de Estado e de governo – e do Parlamento da zona euro para lhe dar uma fachada democrática”, como muito bem o sublinha nestes negros dias, Paul Jorion.

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A governança económica europeia . “Quotidien des Rédacteurs”, 21 de Julho de 2015

 

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Representação da UE e da Grécia. “Quotidien des Rédacteurs”, julho de 2015

E não é por acaso que o desenho de Mihális Koundoúris (“Quotidien des Rédacteurs”) realiza uma aproximação, entre o emblema sudista, utilizado como se sabe durante a guerra da Secessão nos Estados Unidos entre 1861 e 1865 pelo campo sudista esclavagista e o da governança económica da zona euro, tão caro à François Hollande e às elites históricas da Alemanha actual.
Para aqueles que não o teriam compreendido, o projecto europeísta é ao mesmo tempo anti-social (inscrevendo no mármore dos Tratados a dominação das classes possidentes pertencentes ao famoso 1%), abertamente neocolonialista e para nada dissimular sob as habituais pomadas para se pensar, este projecto já a meio da sua realização evolui tanto em intenção nacionalista e racista de geometria variável, de acordo com o grau da servidão e assim, da taxonomia constantemente devoradora dos povos submetidos, até os submeter a todos eles. Os Gregos contudo sabem-no, e aconteça o que acontecer, não o esquecerão mais nunca.

Os meses do memorando III serão por conseguinte abjectos, os seus anos ficarão imprevisíveis. SYRIZA Tsipriota concede certamente à Troika a dádiva da sua pessoa para atenuar a desgraça dos Gregos, tal é em todo caso o sentido do seu último romance gritado Urbi et Orbi, o que não deixa completamente indiferente a nossa tão grande opinião pública (mortificada depois do referendo).

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Zona rural da Tessália. Julho 2015

Para o meu primo Germain na aldeia (perfeito homónimo e… no entanto antigo do PASOK), “não há outra alternativa. Eu voltarei a votar Tsipras nas próximas eleições, não há nada melhor do outro lado , é mesmo assim, e então… a sentir-se traído”. Nosso outro primo Chrístos, insurge-se: “Não voltarei a votar nunca mais em SYRIZA, e não sei o que farei a seguir. ”.

Esta a sorte da aposta dos Tsipriotes, e também o da Troika . Ganhar tempo, semear o vazio e as demasiadas medidas, levam ao medo e à incerteza. Excepto para o que tem a ver com a demolição da sociedade, dos direitos, da democracia e da economia ainda realmente existentes. Stélios, quadro de SYRIZA em Trikala (cidade Tessália), está agora muito amargurado no que afirma: “Espero o comportamento do próximo congresso de Outono, o da demolição, após o qual e muito provavelmente, vou-me deixar o Partido.”
A demolição, é aqui exactamente que nós estamos. “Os controlos dos capitais, o novo IVA, a asfixia económica, acabarão por levar todas as médias e pequenas empresas à falência antes do próximo inverno. É o que os meus clientes me dizem e de resto, estou muito colocado para me aperceber disso mesmo, alarma-se Manólis, contabilista que exerce em Tessália ocidental. Em Trikala como em Atenas e como um pouco por toda a parte na Grécia neste momento, os caixotes para o lixo são assimilados às urnas. Democracia triunfante, amargura perigosa.

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Urnas simbólicas. Trikala, Julho de 2015

Demolições, façam-se pois. Assisti, com os meus outros primos, à demolição da casa histórica, para uma parte da família, pelo menos. Tinha sido construída no tempo de Yórgos, dito “o Patriarca”. Jovem casado à época, tinha sido mobilizado para a frente da guerra Greco-turca na Ásia menor, estávamos em 1921.

“As gerações seguintes nunca teriam suportado vê-la a ser destruída como esta o foi. As nossas casas modernas, foram todas elas construídas em redor desta casa histórica, um pouco como que a render-lhe homenagem. As novas taxas imobiliárias, aumentada e ao que parece por este memorando Tsipras fizeram-nos mudar de ideias, suspira a minha sobrinha Eleni , trabalhadora muito ocasional. A linhagem adapta-se, a família ajusta-se. Desemprego, família, dor!
Na aldeia, cerca dos 1.350 habitantes de antes dos memoranduns, mais de 350 já se foram embora, migraram, principalmente para a Alemanha. Christoforos, o marido Eleni, de pequeno empregado municipal vê já a sua última hora económica chegar. Até 2012, participava das ilusões culturais do tempo de crise (ao sentido pleno do termo). Plantou árvores de fruto, com o objetivo de completar os seus magros recursos. Vendeu o seu automóvel e para ir para o seu trabalho, recuperou o segundo automóvel da família da sua irmã que já não estava a ser utilizado, a crise obriga. Mas em 2015, ou seja em Junho de 2015 e depois de ter votado SYRIZA em Janeiro e “NÃO” no referendo, Christoforos deseja por fim virar a página desta Grécia.

 

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Vila de Tríkala, Julho de 2015

 

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Cartaz do ‘NÃO’, Trikala, Julho de 2015

 

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Boutique em falência. Trikala, Julho de 2015

Para Eleni, é inconcebível. Sente-se insultada. “Não, e não. Não deixarei a minha aldeia, não emigrarei. Que ele parta então sozinho e, aliás, sem levar as crianças. Comerei calhaus e até poeira, se for necessário mas ficarei aqui”.

(continua)

Uma série de Panagiotis Grigoriou
Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

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