Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Revisão de Flávio Nunes
Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Uma análise social diária da crise grega
Uma série de Panagiotis Grigoriou

32. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Comité descentrado
Os slogans ficam, a liberdade pode esperar. A Troika, reforçada porque promovida em Quadrunvirato do novo caciquismo, mora outra vez em Atenas, no hotel Hilton mais precisamente, de acordo com a reportagem. Os ministros SYRIZA, Tsakalotos e Stathákis tornaram-se a partir de sexta-feira de manhã (31 de Julho), história de “tomar contacto” com os representantes da ordem financeirista (FMI, BCE, Comissão Europeia e MEE). Máfias respeitáveis.

As medidas de segurança tomadas são draconianas, os guarda-costas postos assim à disposição dos Troïkanos para as necessidades das suas deslocações entre os hotéis de luxo e os setores “das negociações” tidos como secretos, é então mais importante que nunca antes, tudo isto, às custas da colónia, os executantes da máfia financeirista não se sentem muito à vontade em Atenas, eles têm razão.
Em Julho de 2015 tudo se concluiu num imbróglio então trágico. “NÃO, a Grécia não é uma colónia. Podemos ser outra coisa”, tal era o slogan essencial da Praça da Constituição, aquando da grande manifestação do “NÃO” de 3 de Julho. Alexis Tsipras tinha aí sido aclamado pelos Atenienses; depois, estes deploravelmente foram remetidos para a sua esfera privada, e para o que lhes resta do verão grego, preferirão… fazer o que puderem, ocupar as praias de Ática.

Entretanto, o Comité central SYRIZA, enfim, reuniu-se na quinta-feira 30 de Julho, aí também houve imbróglio e esquerda paródica. Dezassete dos seus membros demitiram-se, denunciando assim a paródia reinante: “Num momento bem crítico para o nosso país em total falência, e na véspera da assinatura de um novo memorando enquanto todos os cenários permanecem abertos, o Comité Central SYRIZA é levado a “ concluir” a opção que o Primeiro-ministro assumiu, através de um procedimento de emergência tendente à sua ratificação. Esta escolha refere-se à aplicação do acordo humilhante já assinado, prolongando assim o regime político do memorando. A direção de SYRIZA visa assim muito simplesmente, validar a mutação da nossa formação política fazendo dela um partido do memorando, e isso, através da organização de um congresso, onde certas correntes serão abertamente afastadas. No mesmo momento, a política efetuada pelo governo intensifica, dia após dia, a frustração e a desmobilização de milhares de membros e amigos de SYRIZA”. SYRIZA, partido doravante mutante e mutilado.



A Plataforma de Esquerda por conseguinte teria perdido (antecipadamente) a batalha “do Plano B” interno. Panagiótis Lafazánis e os nossos, no entanto, tinham proposto a realização de um congresso permanente, a partir da semana próxima, precisamente, antes da conclusão do acordo (com a Troika reforçada), história de não ratificação, a nível do partido já. Esta moção da ala esquerda de SYRIZA foi rejeitada à tangente e por aclamação.
“Apenas o corpo do Congresso permanente, composto de delegados do congresso fundador de SYRIZA, será este coletivo competente, capaz de assumir de modo coerente a continuidade na luta contra o memorando, e também, o carácter radical do nosso partido sem estar a comprometer a sua unidade. Este Congresso Permanente, defendendo o programa assim como os estatutos do nosso partido que ele mesmo, de resto, tinha adotado, teria a obrigação democrática de convidar o governo a respeitar os seus compromisso quanto ao programa político sobre o qual foi eleito, e a respeitar também o mandato popular que lhe foi atribuído aquando das eleições do 25 de Janeiro e aquando do referendo 5 de Julho. Dito de outro modo, pôr um fim às políticas de austeridade e encontrar uma alternativa face à chantagem dos credores.”
“É muito importante tentar evitar a incorporação de SYRIZA num novo memorando, para o próprio partido em primeiro lugar e, sobretudo, com respeito ao futuro do nosso país e do nosso povo. A convocação do Congresso extraordinário para o Outono (moção adotada de Alexis Tsipras), fazendo sequência ao voto do Parlamento, ou seja, depois de ter sido ratificado o novo memorando (em Agosto), e com isso se apertará ainda mais o garrote ao nosso país, não tem nenhum sentido, dado que os participantes serão conduzidos a aceitar retrospetivamente factos já realizados e que são extremamente prejudiciais para a Grécia”, eis pois o comunicado oficial da Plataforma de Esquerda.
Na realidade, e de acordo com as minhas fontes, a Plataforma de Esquerda reunirá os seus membros em breve para se determinar nas suas linhas de ação face à situação. A ideia de um novo movimento político à esquerda (e já que a Aurora dourada se pode tornar o segundo partido na Grécia), está na urgência do tempo que corre, pura e simplesmente isto. Por conseguinte, ação?



A conquilha (seca?) de SYRIZA fecha-se agora. O seu novo caciquismo terá assim restaurado todo o poder dos memorandistas, “ não passa de um acordo que durará apenas três anos ”, argumenta o campo Tsipriota, sem estar a acreditar muito nisso.
Os slogans e outras frases efémeras dos muros de Atenas, exprimem já a nova anfitímia que os Gregos sentem, estado mental como se sabe, em que se mistura e depressão e euforia. As mentalidades não permanecerão seguramente nesta situação.

Pelo seu lado, Míkis Theodorákis, acaba de publicar um novo manifesto, imediatamente aprovado por numerosas outras personalidades na Grécia. As palavras são bem pesadas. Pelo seu apelo, pede “ que se faça respeitar toda a vontade do povo grego, tal como ele se exprimiu aquando do referendo do 5 de Julho e assim, parar o progresso do memorando que conduzirá à destruição e a escravidão”.
(continua)


