Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Que fronteiras e que estrategas?
Bernard Plouvier, QUELLES FRONTIÈRES ET QUELS STRATÈGES?
Revista Metamag.fr, 24/11/2015
Em todas as épocas históricas, os estrategas do tempo de paz enganaram-se fortemente, tanto sobre os meios como sobre a duração, ou mesmo – e o que é mais grave – sobre os objectivos da guerra próxima.
Em 1990-93, quando a URSS e os seus satélites do Pacto de Varsóvia se desmoronaram, passou a ser evidente para o mais embrutecido dos embrutecidos da Europa ocidental que era necessário virar sobre um eixo de 90 graus para Sul os nossos olhares angustiados, bem como os nossos objectivos militares. Quando um embrutecido deste calibre expunha esta ideia aos estrategas procedentes de Saint-Cyr ou Politécnica, como aos semi-deuses saídos de ENA, fazia-se passar por um perfeito parvo, qualificado “de perigoso” quando acrescentava que a NATO já não tinha mais nenhum interesse, servindo objectivamente apenas os interesses do Estado plutocrático dos EUA.
Um quarto de século mais tarde, a NATO cobriu-se de glória ao desestabilizar – de 2008 aos nossos dias – as velhas ditaduras muçulmanas, transformando estes países em zonas de guerrilha permanente e centros de formação para vingadores do Islão.
Há pior. A NATO, inicialmente criada e com muita razão para conter e combater o comunismo, transformou-se em organismo de combate somente contra a Rússia, no entanto ocidentalizada e em via de recristianização acelerada. A sua economia é de tipo liberal. Mas – e isto faz ranger dos dentes em Nova Iorque, Washington e outros lugares – o chefe do Estado tenta lutar contra o capitalismo de especulação e contra uma máfia que tem de russo apenas o nome (é composta de Judeus, Georgianos e Chechenos… nada mais que afirmar esta triste realidade faz-vos passar por “um revisionista”).
Por outro lado, asseguram-nos que “a questão da guerra já não se coloca hoje em dia como dantes … Não há mais nenhuma ameaça nas nossas fronteiras” (conferência dada a 26 de Março de 2012 à Academia das Ciências morais e políticas – ou seja um curioso acoplamento de adjectivos – por um estratega de peso, o ex-chefe de Estado-maior do exército francês, Jean-Louis Georgelin). Não importa quem, pode facilmente dar-se conta de que se deslocou simplesmente a nossa soberania transfronteiriça para os Estados limítrofes da União Europeu… que, no caso francês, corresponde ao nosso litoral mediterrânico, largamente aberto sobre a África.
Ora, tudo muda de sentido neste mês de Novembro de 2015, mas muda menos devido aos atentados islamitas que não são uma novidade se forem de uma amplitude inquietante, do que muda devido a um início de confrontação entre as forças aéreas da NATO (neste caso a aviação turca) e a força aérea russa. A NATO contra a Rússia: isso pode agradar aos EUA, ou mesmo ao seu “51º Estado” – a Grã-Bretanha, tão pouco “europeia” -, assim como aos seus aliados Povos túrquicos (que, da Turquia ao Turquemenistão, ameaçam o Sul da Rússia), mas em nenhum caso pode agradar aos verdadeiros Europeus.
O nosso continente não se reduz à União das economias europeias ocidentais, centrais e danubianas; ainda menos a uma relação de dependência – que confina à dependência – com os EUA. O nosso continente é o berço da raça branca (“caucasiano” de acordo com os antropólogos pouco doutos do século XIX).
A Europa estende-se da Islândia a Vladivostok. É tempo de nos lembrarmos disso e de melhor escolhermos os nossos amigos e os nossos inimigos.
Bernard Plouvier, Revista Metamag, QUELLES FRONTIÈRES ET QUELS STRATÈGES? Texto disponível em :
http://metamag.fr/metamag-3376-QUELLES-FRONTI%C3%88RES-ET-QUELS-STRAT%C3%88GES-.html
Ilustração do texto – Marco a indicar o limite entre a Europa e a Ásia, entre Vorkouta e Salekhard …

