A OPINIÃO DE DANIEL AARÃO REIS – O NACIONAL-ESTATISMO NAS CORDAS

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O primeiro golpe veio no dia 22 de novembro passado, com  a vitória do liberal Maurício Macri sobre Daniel Scioli, candidato do peronismo, por apertada maioria. Pouco depois, em 2 de dezembro, o inacreditável e desacreditado Eduardo Cunha autorizava o início do processo de impeachment contra Dilma Roussef. Mais quatro dias, seria a vez de Nicolas Maduro sofrer contundente derrota eleitoral por uma diferença de 2 milhões de votos.

Em apenas duas semanas foram severamente abaladas as três atuais mais importantes experências nacional-estatistas nas Américas ao sul do Rio Grande. Qual o contexto histórico das derrotas? Que futuro se poderá vislumbrar a partir delas?

Antes de falar do presente, é importante referir a densidade da cultura política nacional-estatista. Execrado por muitos, à direita e à esquerda, chamado de “populismo”, sinônimo das piores taras da história política latino-americana,   o nacional-estatismo, em Nuestra America,  tem sólidas raízes – sociais, históricas e culturais.

Elaborado como programa nos anos 1930, no Brasil (varguismo), na Argentina (peronismo) e no México (Cardenismo), foi obrigado a recuar no imediato pós-II Guerra Mundial.

Refez-se, porém,   nos anos 1950 com tinturas variadas, indo de um nacionalismo moderado (Vargas e Jango no Brasil), a programas radicais (Bolívia, Guatemala e Cuba), construindo, em certos momentos,   pontes entre o nacionalismo e o socialismo (castrismo e guevarismo). A sequência das ditaduras dos anos 1960/1970 sufocaria a maré montante desta segunda versão do nacional-estatismo, com a exceção solitária de Cuba.

A última década do século XX, contudo,  registrou uma nova onda. Como se fora uma fénix, reapareceu como alternativa  à hegemonia do liberalismo dos anos 1980, colecionando vitórias, através de diferentes experiências, mas com aspectos comuns:  Venezuela (chavismo),  Argentina (Kirchnerismo),  Brasil (Lula/Dilma),  Bolívia (Evo Morales),  Uruguai (José Mujica),  Paraguai (Fernando Lugo),  Equador (Rafael Correa) e   Nicarágua (Daniel Ortega).

Como no passado, o nacional-estatismo elege o Estado (burocracias militar e civil), encabeçado por líderes carismáticos, como fator decisivo para o desenvolvimento da Nação. Sua ambição: unir os cidadãos num amplo arco de alianças, incluindo desde setores da burguesia agrária, industrial e financeira, aspergidos com empréstimos subsidiados, proteções e incentivos de toda a ordem, passando por apetitosas classes médias emergentes, bafejadas pela prosperidade econômica, e mais trabalhadores urbanos e rurais, cujos direitos sociais são reconhecidos, sem falar nas camadas empobrecidas e marginalizadas, beneficiadas com políticas de inclusão  (assistência social). Um detalhe negativo: as gentes acostumam-se a olhar para o alto, o Estado e o Líder e não aprendem a valorizar a autonomia, condição de real emancipação.

A arquitetura, para dar certo,  depende de circunstâncias positivas: conjunturas  internacionais permitindo ciclos de prosperidade, quando se viabilizam jogos de ganha-ganha, atribuindo-se a todos um lugar ao sol; governos legitimados; grandes líderes, capazes de conciliar e harmonizar a variedade de interesses e demandas que se estruturam no interior dos arranjos pactuados.

Foi o concurso destes fatores que ensejou o ressurgimento e um novo apogeu do nacional-estatismo: prosperidade, conciliação de classes, euforia nacional.  Entretanto, o conjunto da situação alterou-se de modo significativo, impondo  desafios. O contexto internacional mudou para pior. A prosperidade naufragou,  dando lugar a crises – econômica e política. Já não há recursos para bancar subsídios e financiamentos amigos e mesmo os programas sociais periclitam. Volta o espectro da inflação num processo de desaquecimento da economia, de desemprego, de crise fiscal e desestabilização política.  E o pior de tudo é que os grandes líderes, senhores do Verbo e do Carisma, pelo chamado da morte (Chavez e Nestor Kirchner) ou por infelizes escolhas (Lula), cederam lugar a  pálidas figuras, que penam para lidar com o momento difícil.

Para sair do buraco, sem dúvida,  haverá um custo, e será alto. A velha questão, familiar às crises, retorna com força imprevista: quem vai pagar a conta? Tempos de escolhas e de decisões. De apuros para as lideranças  nacional-estatistas, acostumadas à conciliação. O que farão elas? Mobilizarão as camadas populares em sua defesa? Ou aceitarão passivamente a derrota, retirando-se sem luta e descarregando o custo da superação da crise, como de hábito, nas costas dos trabalhadores? Considerando a densidade de sua história, o colapso definitivo da proposta não é uma hipótese provável , como já quiseram e ainda querem seus inimigos de sempre. Mas o  fato é que,  a depender de suas respostas, o nacional-estatismo, agora nas cordas,  poderá conhecer um outro  eclipse histórico.

Daniel Aarão Reis

Professor de História Contemporânea da UFF

Email: daniel.aaraoreis@gmail.com

 

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