41. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Mentira e barbárie II

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão Flávio Nunes

 

(conclusão)

No seu recente comunicado da quarta-feira 16 de Setembro, o Centro médico solidário de Ellinikón, acabou de denunciar os novos cortes sobre o orçamento da saúde que o governo Tsipras acaba de assinar . Ele denuncia de resto sob um título então bem significativo “a crueldade e as mentiras continuam”, a inação ativa do governo SYRIZA/ANEL e também, a utilização da mentira (por SYRIZA) quando esta formação política pretende (no caso de reeleição) aliviar os Gregos dos desgastes do memorando III, quando se sabe que “a via a seguir é determinada, e apenas determinada por este terceiro memorando, assinada pelo governo precedente, esta política será aplicada, qualquer que seja o novo governo”.

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Schäuble e Tsipras, sentados no sofá do poder. “Quotidien des Rédacteurs” de 31 Agosto.

 

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Os nossos políticos. “Quotidien des Rédacteurs” de 14 de Setembro.

Na Grécia, a estação de verão está-se a acabar nas praças de Atenas, onde os recém‑ chegados vindos da Síria como de outros lugares, se misturam às vezes aos turistas e aos autóctones, mais provisórios que nunca neste país desde o velho tempo da pobre guerra dos anos 1940.
Os suicídios multiplicam-se uma vez mais e os meios de comunicação social disso não falam mesmo nada, os Gregos estão agitados, todos têm o sentimento de que o pior estará apara chegar e em breve. É nisso que o dialeto da nossa esquerda parece às vezes um pouco antiquado em face da enormidade da exatidão que nos atinge. A palavra da Unidade popular não faz sempre exceção à esta regra, não obstante, que nas suas reuniões públicas se pode ainda criar emoção partilhada. Para fazer realmente reaparecer a esperança é bem mais difícil depois da mutação SYRIZA. Isso levará tempo, lutas e lágrimas.
Segunda-feira 14 de Setembro, no bairro popular de Sepólia em Atenas, a Unidade popular teve uma reunião pública, coorganizada pela minha amiga Katerina Thanopoúlou, Ex – Comité central SYRIZA e Vice-Presidente da região de Átila , encarregada dos negócios sociais. Em frente de uma multidão, nem muito numerosa, nem ausente; os oradores analisaram, recordaram, denunciaram e por último propuseram. Zoé Konstantopoúlou, chegou com algum atraso devido à sua participação numa emissão difundida por televisão era aguardada com muita emoção.

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Zoé Konstantopoúlou e Katerína Thanopoúlou, Atenas, Sepólia, 14 Setembro

 

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Sepólia, reunião da Unidade Popular, 14 de Setembro de 2015.

 

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Zoé Konstantopoúlou e os cidadãos Sepólia, 14 Setembro 2015

 

Zoé Konstantopoúlou evocou publicamente a sua deslocação de 2 de Setembro à sede da O.N.U, onde evocou a abolição da Democracia na Grécia, antes de tomar posição a favor de uma auditoria financeira e judicial (procedimento) da dívida grega. Depois, o ministro Houliarakis (nomeado por Alexis Tsipras, ou seja, pelas instituições) decidiu pela abstenção da Grécia aquando do voto recente sobre o tema das dívidas dos países e dos fundos abutres na ONU.

Zoé Konstantopoúlou também acrescentou em parte, mas publicamente: “Não sei realmente o que se terá produzido realmente durante esta longa noite de Tsipras em Bruxelas, pessoalmente tentei saber mas, impossível, um dia sabê-lo-emos”.

Presente sobre os lugares, apenas antes do início da reunião, um homem que se apresenta como um Syrizista incorrigível, tentava impotentemente convencer os participantes, da justificação da sua análise: “Konstantopoúlou e Varoufákis são peões que participam ao plano do financeiro George Soros com o objetivo de fazer cair Alexis Tsipras, o único que se opôs ao bloqueio acaba por finalmente por conhecer o impasse que é hoje o seu mas que pode então mudar quando a situação interna e externa se mudar também no futuro”. É em resumo a tese oficial de SYRIZA, com o financeiro Soros a menos. O homem deixou a reunião como tinha chegado. Nenhuma animosidade, à parte uma certa tensão entre ele e os atenienses pré-conquistados à causa da Unidade popular. Tempo que passa.

Um dos oradores considerou que Keynes estava bem morto e que o capitalismo atual definitivamente o enterrou, por conseguinte “vai ser-nos necessário sair de um outro modo”. Contudo deixou a porta aberta “aos camaradas que ficaram em SYRIZA, estes irão talvez juntar-se a nós um dia e de resto, não será daqui a muito tempo, uma vez que o memorando SYRIZA comece a ser aplicado”. Desejo piedoso?

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Carro e altifalantes do PC grego, KKE, Atenas, Setembro de 2015.

 

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Publicidade e um cantinho de um sem-abrigo. Atenas, Setembro de 2015

 

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Um emigrante africano tocando guitarra. Atenas, Setembro de 2015.

Imagens e sonoridades díspares em país desaparecido. Os altifalantes motorizados do KKE (PC grego) convidam “ a que nunca mais nos enganemos, mais uma vez e uma vez em demasiada”.

As praias esvaziam-se e a esperança não ultrapassa as ruas como no tempo das eleições de Janeiro passado. O verão era então em Janeiro e o inverno em Agosto. Só um guitarrista numa pequena encruzilhada perto da Acrópole, um imigrante vindo da África mostra-se inevitavelmente sorridente, na ausência de ser tranquilizado talvez, os curiosos em todo caso apreciam mesmo muito o seu grande sorriso pelos tempos que correm… contra todos nós . Algumas ruas mais à frente, turistas fotografam os nossos monumentos dedicados às lutas pela Democracia, datando dos anos 1960. Histórias definitivamente (?) sem nexo.

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As praias esvaziam-se. Ática, Setembro de 2015

 

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Atenas, a Setembro de 2015 os turistas fotografam os nossos monumentos dedicados às lutas dos anos de 1960.

 

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Cerimónia dedicada à memória do nosso amigo Pávlos Gondikákis. Atenas, Setembro de 2015

Tempo cinzento e no entanto às vezes ensolarado. A campanha eleitoral atingiu o seu ponto mais baixo, e para muito muito tempo. “Em Atenas a atmosfera é subtil, de onde vem esta delicadeza de trato”, escrevia Posidonios de Apamée, filósofo estoico grego de Apamée, uma cidade e um sítio arqueológico pilhados porque na Síria.

Meados de Setembro, já de 2015 , porque evocamos a memória do nosso amigo e filósofo à sua grande maneira, Pávlos Gondikákis (1940-2013). Os Franceses de Atenas, nomeadamente os do Liceu FrancoGrego recordam-se de Pávlos. Redescobertas e discussões então alimentadas, em redor de um espírito que toma sempre assim corpo, para além da ausência. Pensávamos que Pávlos não teria sem dúvida apreciado mesmo nada estas últimas eleições, as mais afastada de todas, da democracia assim como da liberdade, no entanto ainda formal.

Meta-democracia dos memoranduns e dos impérios exceto na hora da sesta e para certos seres apenas. Mentira e barbárie.

 

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A hora da sesta para certos seres. Atenas, Setembro de 2015

 

Uma colectânea de alguns dos textos publicados por Panagiotis Grigoriou
Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é: http://www.greekcrisis.fr/

 

41. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Mentira e barbárie I

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