EDITORIAL – POESIA E POLÍTICA

 

logo editorialSe dizemos que um determinado político é um «poeta», dizêmo-lo geralmente numa acepção de crítica pejorativa, pois estamos a acusá-lo de não ter um sentido prático da vida e desconhecer a verdadeira natureza humana, de ignorar a realidade e de por isso preconizar medidas que podem ser formalmente belas e teoricamente correctas e empolgantes nos programas eleitorais, mas que se revelam impraticáveis; que os políticos «poéticos» podem traçar caminhos ideais, mas que não levam em linha de conta as «coisas como elas de facto são», que, em suma, ele não é «realista» – é um poeta.

E é mesmo verdade.

A natureza humana é-o no sentido de uma tipologia animal que procura defender-se de predadores e cuja generosidade em termos colectivos abrange, na melhor das hipóteses os membros mais próximos do núcleo familiar. Chama-se «natureza humana» ao que conservamos da nossa condição animal. De facto, os poetas raramente têm consciência dessa realidade crua – a espécie humana, apesar de ser biologicamente cultural, é profundamente egoísta e desumana.

Porém, coloquemos uma questão – nos cinco mil anos de História de que dispomos, se descontarmos a obrigatoriedade de os cronistas elogiarem quem lhes pagava a prosa, se levarmos em linha de conta que os «bons políticos» da Antiguidade, da Idade Média, da Idade Moderna, o eram com base numa realidade em que os seres humanos não contavam, e que depois, logo que as fontes primárias começaram a poder revelar despotismos e soluções criminosas, é que os déspotas puderam ser localizados, nestes milhares de anos de registos, onde é que se encontra um político consensualmente «bom»? Maquiavel levantou uma ponta do véu quando disse que o ódio atinge quem governa, quer o faça bem ou mal. Porque os interesses nunca são coincidentes. Hitler deve ter tido quem gostasse da sua política.

Diríamos que nunca existiu um bom político, porque o que favorece uns prejudica outros. Nunca houve democracia em parte alguma. Rousseau criticou a democracia da Grécia Antiga por não abranger os escravos, mas o conceito rousseauniano de democracia excluía as mulheres. De políticos-poetas é melhor nem falarmos – os poemas de Mao são um insulto à poesia. Eduardo Prado Coelho foi muito censurado por ter dito que os poemas do «livro Vermelho» não passavam e um amontoado de lugares-comuns, tautologias e verdades de La Palissse- Mas tinha razão -Mao pode ser acusado de muita coisa – nunca de ser «poeta».

Em suma há boa poesia, milhares de excelentes poetas-Políticos bons? Nem um. Conclusão – somos uma espécie inteligente, capaz de construir palavras ligadas harmoniosamente, mas não somos capazes de encontrar uma maneira harmoniosa de ligar os sentimentos, de eliminarmos as classes sociais ou de qualquer outra natureza, de eliminarmos o dinheiro, de incluir a maldade no rol das patologias e de investigar a sua cura

Se calhar, este tema é inoportuno nesta semana em que necessitamos de acreditar em que há, pelo menos, um bom político. Ora ai está uma coisa de que ninguém pode acusar Cavaco Silva – a de ser «poeta» Nesse aspecto particular é como  Mao.

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