Quando me dizem que alguém é um nome de peso no partido, que é um político de peso, que é um barão do partido lembro-me sempre dos simulacros eleitorais dos tempos do início do liberalismo, do sistema de rotativismo do século XIX.
Os políticos de peso eram os chefes de sindicato de votos, figurões locais ou regionais que arregimentavam eleitores como se fossem gado de uma manada de um chefe qualquer. Nesses tempos chegavam a ter ao seu serviço bandos armados, para que o peso dos grandes homens, dos barões partidários se fizesse sentir. O Zé do Telhado e o João Brandão – mais tarde apresentados como bandidos famosos – surgiram dessa necessidade dos políticos de peso organizarem os eleitores à força, primeiro à força de favores e depois à força de balázios.
Nas sociedades ditas primitivas de África e da Ásia, em termos antropológicos, homem grande refere um indivíduo muito influente dentro de uma tribo. Que toma a designação de mamã grande no caso das mulheres. Os políticos de peso deviam corresponder a esta definição. Serem influentes na sua tribo. Não é o que acontece. Pelo menos com aqueles a quem oiço chamar pesos- pesados dos partidos.
Falam os jornais e os comentadores dos “pesos-pesados” de um dado partido que apoiam o candidato A ou B. Eu levo esse termo à letra: olho-lhes para o diâmetro das barrigas e concluo que foram ganhas em negócios de trocas de favores. Só o Marques Mendes é um peso pluma a fazer de peso pesado.
Os verdadeiros pesos pesados dos partidos, ou da política em geral, serão (seriam) aqueles que marcaram um rumo, conseguiram a adesão de um número significativo de seguidores, que tiveram uma ideia de futuro e foram capazes de a impor. São aqueles que criaram uma esperança. São muito poucos e ninguém dirá deles que são pesos pesados. Dirá simplesmente que são figuras. Figuras de que podemos gostar mais ou menos, amar ou odiar, mas que não podem ser pesados. São figuras. Têm luz própria. Não são mordomos que organizam procissões, são eles o motivo do culto. Não são comentadores, são criadores, são decisores, são autores, não são críticos, são atores.
Os pesos pesados que por aí vejam anunciados são pequenos e grandes traficantes de influências. São, nos escalões mais baixos do PSD e do PS os Relvas e os Varas, nos escalões intermédios, os Marco António e os Jorge Coelho e, no topo, os padrinhos como Ângelo Correia e Vera Jardim. A lista pode ser elaborada à vontade de cada um. Maiores ou menores, todos têm as unhas compridas e a pele luzidia. Como as ratazanas andam de nariz no ar em busca do odor da dispensa onde está guardado o queijo. Mais as comissões do que o queijo, diga-se. Os pesos pesados recebem e distribuem comissões. Vivem de comissões. De percentagens.
Os pesos pesados dos partidos são videirinhos bem sucedidos. Uns são, outros gostariam de ser como os padrinhos da mafia, a quem os necessitados, aqueles que lhes dão peso, vão pedir um favor e receber uma bênção.
Nas eleições do dia 24, como noutras, há quem queira ser abençoado por pesos pesados e há quem tenha a seu lado grandes figuras. Ser ajudado por Miguel Relvas e Marco António Costa, como Marcelo Rebelo de Sousa, apoiado por pesos pesados como José Lello ou Vitalino Canas, como Maria de Belém, ou ter a seu lado figuras como Mário Soares, Eanes, ou Jorge Sampaio marca a diferença entre a velha política de ratos de mercearia, de comissionistas e de facilitadores e quem apresenta um projecto de decência para o futuro de Portugal.
Os pesos pesados da política afundaram Portugal…. Para voltar à superfície, para o tempo novo, para o novo ciclo de que que fala Sampaio da Nóvoa, Portugal precisa de os atirar borda fora… espero que o faça.
subscrevo EM ABSOLUTO Exmº. Senhor Coronel. Muito obrigado pela sua LUCIDEZ e esclarecedor verbo.