A IDEIA – Textos e escolhas de António Cândido Franco – MANUEL DE CASTRO – A ESPINHA ÚNICA, META FÍSICA, INSULTANTE DA POESIA – 1 – por FERNANDO J. B. MARTINHO

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Passei pelo Café Gelo duas ou três vezes. Para me encontrar com o Manuel d’Assumpção, que, em Portalegre, antes de partir para Lisboa, me disse que à noite frequentava habitualmente aquele café. Isto terá sido por volta de 1957, porque guardo dele dois desenhos com data desse ano que fez num dos últimos encontros que tivemos no Café Facha, nos dias que antecederam a sua vinda para Lisboa. De alguns dos que se reuniam no Gelo já conhecia eu um ou outro texto vindo a público num dos vários suplementos literários que lia. No suplemento do Diário Ilustrado, um jornal que saía à hora do almoço e com que costumava acompanhar a bica no café, me lembro de ter lido poemas do Manuel de Castro. Seguia com atenção o que ia fazendo a gente da geração que era a minha, eu próprio já então me exercitando em escritas e desenhos. Com um dos poetas do Gelo, o António José Forte, viria, mais tarde, a estabelecer relações de amizade, quando ele esteve em Portalegre como encarregado da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian. Através dele, seguramente, consegui colaboração do Manuel de Castro para uma secção que coordenei, nos começos dos anos 60, no semanário A Rabeca, de Portalegre. Intitulava-se a dita coluna, onde reuni durante mais ou menos dois anos, textos poéticos de gente então a revelar-se, Poesia Nova. Os poetas eram apresentados individualmente, e a anteceder os poemas ou poema, no caso dos mais extensos, vinha uma sucinta nota biobibliográfica, elaborada a partir de dados fornecidos pelo próprio autor. Recordo-me de uma situação cómica que se passou exactamente com um dos poetas do Gelo, o José Carlos González. Nos dados biográficos que me fez chegar, constava a indicação de ter sido porteiro de hotel em África, que eu, escrupulosamente, embora roído de dúvidas, reproduzi. Anos mais tarde, quando ele trabalhava na Biblioteca Nacional, perguntei-lhe se não estava a gozar comigo, e o González garantiu-me a pés juntos que o que me tinha dito era verdade. Os três números da Pirâmide, saídos entre 1959 e 1960, tinha-os eu comprado quando vieram a público, e ajudaram-me a definir o perfil de parte dos poetas que passaram pelo Gelo. O Forte foi, no período imediatamente posterior, um mediador fundamental no acesso aos materiais produzidos no âmbito dos que continuavam a alimentar a chama da aventura surrealista. Foi ele que me passou, refira-se, um exemplar de A Estrela Rutilante, de Manuel de Castro, que tinha a seguinte dedicatória: para quem o receber of. Manuel de Castro. De um dos membros do Gelo que mais admirava, o João Rodrigues, presença frequente em alguma imprensa da época, com o traço implacável dos seus desenhos, conservo eu um desenho, que salvei de ir para o lixo no que foram os restos de uma exposição de poesia ilustrada que se realizou nas antigas instalações da Faculdade de Letras, em 1957, e onde ilustrara o poema Vesperal de Helder Macedo. 

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