Kerry convidado a apresentar provas sobre o voo MH-17 – por Robert Parry

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Kerry convidado a apresentar provas sobre o voo MH-17

Fonte: Consortiumnews.com, 21/01/2016

 

21 de Janeiro de 2016

Exclusivo: O pai de um jovem americano que morreu a bordo do voo 17 de Malaysia Airlines insiste para que o Secretário de Estado John Kerry forneça a prova das suas declarações precoces segundo as quais o governo dos Estados Unidos possuem detalhes sobre o disparo do míssil que matou 298 pessoas, conta Robert Parry.

Por Robert Parry

 

O pai de Quinn Schansman, o único cidadão americano a ter encontrado a morte na queda do voo 17 de Malaysia Airlines abatido acima do leste da Ucrânia em 2014, pediu ao Secretário de Estado John Kerry que fornecesse as informações que afirmou ter ao dizer que tinha um conhecimento preciso do lugar onde o míssil antiaéreo suspeito de estar na origem da queda tinha sido disparado.

Um dos mistérios do caso MH-17 é o seguinte: porque é que os Estados Unidos – depois de terem declarado que possuíam a informação que punha em causa os rebeldes pró-russos e o governo russo – têm evitado torná-la pública, ou mesmo aparentemente terem evitado partilhá-la com os investigadores neerlandeses que efectuavam o inquérito sobre a maneira de como o avião foi abatido e sobre quem era responsável.

Quinn

Quin Schansman, que tinha a dupla nacionalidade americana e neerlandesa, embarcou no voo MH-17 com 297 outras pessoas para um voo de Amsterdão a Kuala Lumpur, no dia 17 de Julho de 2014. O jovem de 19 anos juntava-se assim à sua família para passarem as férias na Malásia.
Numa carta datada de 5 de Janeiro de 2016, Thomas J. Schansman, o pai de Quinn, refere uma observação de Kerry numa conferência de imprensa em 12 de agosto de 2014, quando o Secretário de Estado disse, a propósito do míssil antiaéreo Buck suspeito de ter abatido o avião: “Vimos o lançamento. Vimos a trajectória. Vimos o choque. Vimos este avião desaparecer dos ecrãs dos radares. E por conseguinte não há realmente nenhum mistério sobre o lugar de onde foi atirado nem sobre a origem destas armas.”
Contudo, o lugar de onde o míssil foi atirado permaneceu um mistério aquando do inquérito sobre o voo MH-17. Em Outubro passado, quando o gabinete de segurança da Holanda tornou público o seu relatório final sobre a catástrofe, não conseguia situar a zona de tiro senão no interior de uma zona de 320 quilómetros quadrados no leste da Ucrânia, território então controlado ao mesmo tempo por forças ucranianas e rebeldes. (As autoridades holandesas da segurança não procuraram saber qual dos dois adversários tinha disparado o míssil fatal.)
Entretanto, Aimaz-Antey, o fabricante de armas russo dos sistemas Buck, efetuou as suas próprias experiências para determinar o lugar provável do TIRO e situou-o numa zona muito mais reduzida perto da aldeia de Zaroshchenskoye, a cerca de 20 quilómetros a oeste da zona retida pelas autoridades holandesas e numa zona sob controlo do governo ucraniano.
Alguns dias depois da queda, Kerry e outros oficiais autorizados americanos apontaram o dedo aos rebeldes pró-russos que se opunham então a uma ofensiva militar do regime de Kiev apoiado pelos Estados Unidos. O governo russo então era acusado de ter supostamente fornecido aos rebeldes um potente sistema Buck anti-aéreo capaz de abater um avião de linha civil voando a 33.000 pés (10 000 metros).
Mas – mais de 18 meses depois da tragédia – o governo dos EUA nunca tornou pública a prova anunciada, enquanto que a Rússia desmentiu ter fornecido um sistema Buck aos rebeldes e os rebeldes declaravam que não possuíam mísseis Buck em estado de funcionar.

Um pai angustiado

Thomas Schansman, que vive na Holanda, escreveu a Kerry, sublinhando que “passar as festas de Natal e o Novo Ano sem o seu filho, foi duro para mim e para a minha família” e insiste junto do Secretário de Estado de modo que dê a informação americana sobre o assunto.
“O que eu entendo, é que nem o governo neerlandês nem o organismo de segurança da Holanda receberam oficialmente nenhuma informação radar por parte dos Estados Unidos a que eles mesmos tinham feito referência através de Kerry. Esta não está presente no relatório feito pelas autoridades holandesas e não é também do conhecimento do domínio público,” escreve Schansman.
“Em nome dos pais em luto, e para ajudar a investigação da justiça, peço que os Estados Unidos forneçam às autoridades holandesas as informações radar às quais fez alusão na vossa conferência de imprensa e assim como toda outra informação disponível e relevante (como dados de satélite e dados por infravermelhos) que o vosso governo tem na sua posse”!.
“Ficar-vos-ei muito grato se os Estados Unidos, directamente ou através da NATO pudessem publicamente transmitir às autoridades holandesas os registos radar e por satélite dos minutos que precederam e se seguiram à catástrofe… Isto permitiria às autoridades holandesas reabrir o inquérito e incluir um capítulo relativo a esta informação, uma vez que esta é essencial para o sucesso da processo a ser presente nos tribunais. Conto sobre o apoio do governo dos Estados Unidos para encontrar e prosseguir os responsáveis da morte do meu filho, vosso concidadão. ”
Kerry nunca respondeu, mas um oficial consular americano, Pamela J. Hack, enviou a Schansman uma carta datada de 14 de Janeiro em que exprime os seus pêsames relativamente à morte do seu filho e dizendo: “Espero que venha a receber uma resposta em separado … de Washington.”

 

Um julgamento prematuro

Nos dias que seguiram a queda do avião, Kerry posicionou-se acusando os rebeldes pró-russos (e implicitamente os seus apoios em Moscovo) de terem abatido o avião do voo MH-17. Três dias depois da tragédia, Kerry esteve nos diversos estúdios de televisão para as emissões de Domingo com declarações que deixavam muito pouca dúvida sobre a responsabilidade dos rebeldes e dos Russos.
Depois de ter mencionado informações respigadas sobre “as redes sociais”, Kerry declarou durante a emissão de NBC “Meet the Press” (Encontro com a Imprensa): “Mas mais importante ainda, nós temos a imagem deste lançamento. Conhecemos a trajectória. Sabemos de onde partiu. Conhecemos os detalhes horários. E é exactamente agora que este avião desapareceu do ecrã do radar.”
Dois dias depois, a 22 de Julho de 2014, o gabinete do director da informação nacional fez saber “uma declaração governamental”, citando também “as redes sociais” e parecendo implicar os rebeldes. Seguidamente este documento dava a lista dos equipamentos militares supostamente fornecidos pela Rússia aos rebeldes. Mas esta lista não continha a bateria de mísseis Buck ou outros potentes mísseis antiaéreos.

O director da informação nacional fez de modo que os analistas dos serviços secretos informassem alguns repórteres seleccionados dos meios de comunicação social importantes, mas os analistas mostraram bem menos convicção que os seus mentores teriam podido esperar, sublinhando que havia ainda muitas e grandes incertezas a respeito da responsabilidade do disparo do míssil.
O artigo do Los Angeles Times declarava “as agências americanas de informação foram até agora incapaz de definir a nacionalidade ou a identidade da equipa que lançou o míssil. Oficiais americanos declararam que era possível que o SEU-11 (designação do míssil antiaéreo Buck de fabricação russa) tenha sido lançado por um trânsfuga do exército ucraniano treinado na utilização de tais sistemas de mísseis.”
A incerteza dos analistas corroborava parcialmente o que me tinha dito uma fonte que tinha sido informada pelos analistas americanos da informação imediatamente depois da queda do avião a propósito de que tinham podido ver fotografias de satélite de elevada resolução, e que de acordo com elas tudo parecia indicar ter sido pessoal militar ucraniano que impulsiona a bateria que supostamente terá disparado o míssil.
A fonte que me falou várias vezes depois d éter recebido informações suplementares a propósito do avanço do inquérito declarou que à medida que os analistas americanos obtinham mais elementos sobre a queda do MH-17 por parte de fontes técnicas e outras, começavam a aumentar a convicção de que o ataque tinha sido efectuado por elementos arruaceiros do exército ucraniano, tendo relações com uma oligarca extremista ucraniana. [Ver, por exemplo, sobre Consortiumnews.com “Flight 17 Shoot-Down Scenario Shifts” et “The Danger of an MH-17 Cold Case.”]. ”]

 

Criação de um pária

Mas, oficialmente, o governo dos Estados Unidos nunca se retractou nem precisou as suas declarações iniciais. Simplesmente permaneceu silencioso, dando lugar à uma crença muito difundida que eram os rebeldes pró-russos que eram os responsáveis destas atrocidades e que o governo russo tinha sido completamente irresponsável ao fornecer um potente sistema Buck aos rebeldes.
Os hábitos ocidentais de pensamento rapidamente convenceram a União Europeia a juntar-se ao governo dos Estados Unidos impondo sanções económicas à Rússia e tratando o presidente Vladimir Putin como um pária internacional.
Enquanto que o governo dos Estados Unidos acusava alto e bom som e ao mesmo tempo escondia as provas que dizia deter, tornou-se claro que as agências de informação dos Estados Unidos não tinham provas para apoiar a declaração inicial de Kerry e o seu julgamento precipitado que põe em causa os rebeldes e os Russos.
Apesar de uma vigilância aérea intensiva do leste da Ucrânia no verão 2014, os Estados Unidos assim como outros serviços de informação ocidentais puderam apenas encontrar provas de que a Rússia nunca fornecera nenhum sistema Buck aos rebeldes nem nunca o introduziram na zona. A informação satélite – examinado igualmente antes e após a queda – não detectou nenhum sistema de míssil Buck que não estivesse nas mãos de militares ucranianos na zona de conflito.
Poderíamos ser levados à mesma conclusão pelo facto de que o director da informação nacional, a 22 de Julho de 2014, não avançou que os mísseis Buck figuravam entre os sistemas de armamento que a Rússia teria fornecido. Se tais sistemas Bucks tivessem sido fornecidos pelos Russos estes teriam sido localizados – e as baterias de quatro mísseis de 16 pés de comprimento transportadas por camiões são difíceis de esconder – a sua presença teria sido certamente sublinhada.
Mas não é necessário assentar a nossa análise sobre esta ausência de prova. Num relatório da informação neerlandesa muito pouco referido, em Outubro passado e citando informações do serviço da informação e da segurança militar neerlandesa (os serviços secretos holandeses), que enquanto participante na NATO tem –se acesso à vigilância aérea sensível e a outros dados relevantes, dizia-se que tudo parece indicar que as únicas armas antiaéreas no leste da Ucrânia – capazes de abater o MH-17 à 10 mil metros de altitude – pertenciam ao governo ucraniano.
Este serviço de informação militar neerlandês fez esta declaração tentando explicar porque é que os voos comerciais continuavam a sobrevoar a zona de combates do leste da Ucrânia no verão de 2014. Indicou que com base em informações cobertas “pelo segredo de Estado” se sabia que a Ucrânia possuía alguns antigos mas potentes sistemas de armas antiaéreas e que “diversos destes sistemas estavam localizados na parte leste do país.”
Mas a agência de informação acrescentava que os rebeldes não tinham esta capacidade, que não dispõem de nenhum sistema de mísseis antiaéreos de longo alcance, mas de curto alcance, e de alguns mísseis Buck não operacionais que tinham sido apanhados numa base militar ucraniana. “Durante o mês de Julho várias fontes credíveis indicavam que os sistemas presentes sobre nesta base militar não estavam operacionais,” declarou o serviço militar da informação neerlandesa. “Por conseguinte não podiam ser utilizados pelos separatistas.”

As razões dos Ucranianos

Por outras palavras, é claro – com base nos comentários explícitos do serviço de informação militar da Holanda e das omissões “das declarações governamentais” dos Estados Unidos que as potências ocidentais não tinham nenhuma prova de que os rebeldes ou os seus aliados russos dispunham de mísseis Buck operacionais no leste da Ucrânia, mas o governo ucraniano tinha na verdade várias baterias de tais mísseis.
Tinha igualmente sentido que a Ucrânia deslocasse sistemas antiaéreos perto da fronteira devido ao temor de uma invasão russa, enquanto os militares ucranianos empurravam a sua “operação anti-terrorista” contra os combatentes separatistas de origem russa que se opunham ao golpe de Estado apoiado pelos Estados Unidos de 22 de Fevereiro de 2014, que tinha derrubado o presidente eleito Victor Ianoukovitch cujo apoio político se situava a Leste..
De acordo com o relatório da agência de segurança holandesa, um avião de combate ucraniano tinha sido abatido provavelmente por um míssil ar-ar (provavelmente por um caça russo) a 16 de Julho de 2014, o que significa que as defesas ucranianas estavam provavelmente em situação de alerta forte. Os militares russos declararam também que a Ucrânia tinham activado um sistema radar que é utilizado para guiar os mísseis Buck.
Uma fonte da informação indicou-me que os analistas dos Estados Unidos examinavam seriamente a possibilidade de que o objectivo visado seria o avião oficial do presidente Putin que regressava de uma visita de Estado à América do Sul. O seu avião e o MH-17 tinham uma pintura com as mesmas cores, vermelho, branco, azul, mas Putin tomou uma via mais a Norte e chegou são e salvo a Moscovo.
Outros cenários possíveis consistem num erro de identificação por um esquadrão ucraniano mal treinado e indisciplinado que teria confundido o MH-17 com um avião russo que teria penetrado o espaço aéreo ucraniano ou que este esquadrão teria procedido a uma provocação voluntária para fazer levar a que os russos fossem considerados culpados.
Qualquer que tenha sido o culpado, qualquer que fosse o seu objectivo, um ponto não teria podido permanecer na sombra, é o lugar de onde partiu o TIRO. Kerry repetiu várias vezes nos dias que se seguiram a tragédia que a informação dos Estados Unidos tinha detectado o lançamento e que sabia de onde provinha.
Então porque é que o gabinete da segurança da Holanda se deve esforçar à volta de um míssil que provem de uma zona de 320 quilómetros quadrados, enquanto que o fabricante russo localiza o lançamento a 20 Km mais a oeste? Enquanto que o lugar do TIRO é um ponto crucial no debate, porque é que o governo dos Estados Unidos impede um aliado da NATO (bem como investigadores a propósito de uma catástrofe aérea essencial) que se conheça a sua localização.
Pode-se pensar que se a administração Obama tivesse tido provas sérias que mostram que o TIRO provinha do território rebelde, assim como Kerry o insinuava, os oficiais dos Estados Unidos teriam ficado muito felizes por fornecer esses mesmos dados. Estes dados poderiam ser também as únicas provas por radar precisas. A Ucrânia pretendeu que os seus principais sistemas radar estavam fora de uso no momento do ataque, e os russos – enquanto tinham avançado que os seus ecrãs radares davam conta de um outro avião à abordagem do MH-17 – não conservaram os seus dados brutos.
Thomas Schansman nota na sua carta a Kerry: “O DSB (Organismo de Segurança neerlandês) declarou que não tinha recebido nenhum dado bruto, de nenhum Estado… A resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas n°2166 requer explicitamente que os Estados-Membros forneçam toda a assistência pedida e cooperem plenamente no inquérito. Os dados primários (brutos) dos radares são essenciais para estabelecer a causa, para identificar e prosseguir os responsáveis deste acto odioso.”

 

A opinião geralmente admitida

Apesar das surpreendentes falhas nas provas e do malogro dos Estados Unidos em apresentar as provas que se orgulham de possuir, “a opinião geralmente admitida” no Ocidente continua a ser que tenham sido os rebeldes pró-russos ou os Russos eles mesmos os responsáveis pelo abate do MH-17 e que tenham procurado esconder a sua culpabilidade. Uma parte desta certeza provem do jogo puro e simples que consiste em repetir que os mísseis Buck “são fabricados na Rússia”, o que é verdadeiro mas não relevante quanto a saber quem é que disparou o míssil, até porque os militares ucranianos possuem Bucks de fabricação russa.
Apesar da falta de cooperação dos Estados Unidos no inquérito – e do malogro da informação ocidental em detectar os Russos ou os rebeldes pró-russos armados de uma bateria Buck no leste da Ucrânia – os magistrados neerlandeses que trabalham em relação estreita com o governo ucraniano dizem que levam a sério as declarações feitas por blogueurs de um sítio britânico chamado Bellingcat e que identificaram soldados russos a manusearem uma bateria de mísseis Buck pelo que os consideram como suspeitos número 1 do ataque.
Assim, não é de afastar a possibilidade que o inquérito conduzido pelos Neerlandeses – em coordenação com o governo ucraniano – terminará por pôr em causa soldados russos e isto ao mesmo tempo que o governo dos Estados Unidos retém dados que poderiam resolver perguntas chave como localizar o sítio de onde o míssil fatal partiu.
Uma acusação sobre os soldados russos justificaria uma renovação de propaganda anti Putin e desencadearia certamente um coro de denúncias contra Moscovo por parte dos meios de comunicação social ocidentais dominantes. Mas um tal desenvolvimento contribuiria muito pouco para elucidar o mistério de saber quem abateu realmente o MH-17, matando assim Quinn Schansman e 297 outras pessoas que iam a bordo.

Fonte: Consortiumnews.com, 21/01/2016

Le reporter d’investigation Robert Parry a élucidé de nombreuses affaires sur l’Iran et les Contras pour l’Associated Press et Newsweek dans les années 80. Vous pouvez acheter son dernier livre, America’s Stolen Narrative [Les contes volés de l’Amérique], soit sur papier ici ou sous forme électronique (chezAmazon et barnesandnoble.com)

Source : Consortiumnews.com, le 21/01/2016

Robert Parry, Kerry Pressed for MH-17 Evidence. Texto disponível em :

https://consortiumnews.com/2016/01/21/kerry-pressed-for-mh-17-evidence/ ou,, em versão francesa, no sitio Les-crises.fr com o título Robert Parry invité à donner des preuves sur le vol MH-17, no seguinte endereço:

http://www.les-crises.fr/kerry-invite-a-donner-des-preuves-sur-le-vol-mh-17/

Leave a Reply