HOJE, A ITÁLIA. AMANHÃ SE VERÁ QUEM SE SEGUE – 1. ENTREVISTA A MATTEO RENZI: “ ISTO É UMA MANOBRA SOBRE ALGUNS BANCOS, MAS O SISTEMA É SÓLIDO” – conduzida por ROBERTO NAPOLITANO, director de “IL SOLE 24 ORE” – I.

 

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Hoje, A Itália. Amanhã se verá quem se segue

1. Entrevista a Matteo Renzi: “ Isto é uma manobra sobre alguns bancos, mas o sistema é sólido”, conduzida por Roberto Napolitano, director de Il Sole 24 Ore

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Roberto Napoletano, Intervista a Renzi: «C’è una manovra su alcune banche, ma il sistema è solido»

Il Sole 24 Ore, 21 de Janeiro de 2016

O mundo “bloqueou-se”, parou, a China e restantes emergentes deixaram de ser a locomotiva, a Rússia está em recessão, o petróleo desceu a níveis alarmantes, velhos e novos terrorismos minam as bases do crescimento americano e da tímida retoma europeia, a tempestade financeira é global. Há, não obstante, uma outra tempestade exclusivamente italiana que se refere aos nossos bancos que nos afecta muito mais porque pesa sobre a confiança e atinge a poupança dos italianos. Num dia de forte emoção para Piazza Affari e os seus títulos bancários, o Primeiro-ministro, Matteo Renzi, responde sobre tudo: conflito com a Europa a questão bancária, escândalos e transparência nos mercados, operações de risco e cláusulas de salvaguarda, a reforma nos contratos de trabalho, retoma da economia e saída do grande grupo do aço, (Ilva) que é o maior europeu e a banda larga (Telecom), a administração pública, reformas institucionais. Escutemo-lo.

Presidente Renzi, entramos no novo ano com alguns cautelosos sinais positivos sobre a frente da economia real, mas assistimos também a uma nova turbulência sobre a frente financeira com a Itália e os seus bancos em especial sob pressão sobre os mercados internacionais. Neste contexto Neste contexto o palco foi ocupado por um confronto musculado entre o governo italiano e a Comissão europeia. Não acredita que possa ser uma estratégia de alto risco?

Dividiria os dois aspectos. A tensão sobre a frente bancária põe-nos atentos e preocupados, mas pode ser em si mesma uma boa ocasião para o sistema do crédito italiano, na condição de se agir rapidamente e bem. Mas as relações com a Europa não estão ligadas. Pessoalmente acredito que a política económica europeia deva ser mudada. E de resto as instituições europeias estão em dificuldade sobre todos os planos: imigração, crescimento, energia, segurança. A Itália não mostra músculos, mas devemos parar com o provincialismo de passarmos todos os dias a pensar que Bruxelas seja infalível. Mesmo porque – a história destes dez anos ensina-nos bem – não são infelizmente infalíveis

Pretender uma mudança de política europeia em prol do crescimento é justo. Mas dispõe de alianças para poder levantar a voz?

Não levanto a voz. Levanto a mão. E faço perguntas. É justa uma abordagem muito centrada na austeridade quando os populismos estão cada vez mais fortes nas zonas tidas como desfavorecidas e de crise económica? É justo ter dois pesos e duas medidas sobre a energia? É justo proceder a ziguezagues sobre a imigração? Nunca levantei a voz em Bruxelas. Sobre estes pontos há muita gente que pensa que as coisas devem mudar. O desafio hoje é construir uma série de propostas, como a Itália – de novo grande país graças às reformas – pode e deve fazer. Nenhuma controvérsia, somente propostas. Os aliados não faltam, estão garantidos.

O ataque que o presidente da Comissão Juncker fez contra a Itália há alguns dias não é habitual, é inaceitável. Mas para além da forte crítica, não o preocupa que nenhum chefe de governo da Europa tenha exprimido nenhuma solidariedade à Itália sublinhando esta incoerência? Não há o risco de se concretizar um isolamento?

Creio que Jean Jean-Claude se enganou na linguagem, no método e sobre a substância da questão. Mas não me preocupa certamente um acidente verbal do presidente da Comissão: somos a Itália, um dos Países fundadores. E o meu partido é o mais votado na Europa, acima dos onze milhões de votos. Se Juncker está lá como Presidente é também graças aos votos do PD e do PSE. Não estamos zangados. Se Juncker se engana numa numa conferência de imprensa, paciência. Se Juncker se engana nas políticas a seguir, então sim, isso preocupa-me.

Que dirá a Merkel quando a encontrar?

Que a primeira a ter que estar interessada em ter uma Itália forte e uma Alemanha menos egoísta chama-se Angela Merkel. Considero-a muito e farei tudo para a ajudar. Mas as regras devem ser válidas para todos, ninguém deve ser excluído. Mesmo para a Alemanha, em suma.

Quando de Bruxelas se denuncia que em Roma falta um interlocutor, sublinha-se que há um problema várias vezes posto em evidência nestes anos: a fraqueza italiana relativamente a outros Países em trabalhar com a devida constância, seriedade, determinação sobre os processos mais delicados. Não acredita que isto seja um verdadeiro problema?  

Com alguma ironia poderia dizer que há já demasiados interlocutores. Mas reconheço que há um ponto de verdade nisto: a Itália investiu menos do que devia na criação de uma tecnoestrutura capaz de fazer de nós uma comunidade forte, coesa. Temos funcionários e técnicos entre os mais brilhantes: por vezes sente-se que não fazem da mesma comunidade. Digo-o de um outro modo: uma equipa com vários jogadores que são verdadeiras estrelas, uns fora de classe mas que não passam a bola uns aos outros e se questionam no vestiário para não ganharem o campeonato. A nomeação de Carlo Calenda e o carácter profissional de tantos homens e mulheres na diplomacia, nos altos quadros europeus, na administração pública na Itália levarão a que se trabalhe melhor nesse sentido.

Tomemos o caso dos fundos europeus. É já velha a nossa incapacidade de gastar e de gastar bem os recursos europeus. O seu governo está a trabalhar nisso? E com quem?

Sobre os fundos europeus tem-se feito um trabalho de recuperação incrível, com uma equipa liderada por De Vincenti. Basta pensar em Pompeia, para dar um exemplo. É claro, o poder de veto em certas regiões tem sido excessivo, mas também graças às reformas, as coisas estão a mudar .

É principalmente sobre a questão bancária que a Itália, no passado como agora, não foi capaz de defender os interesses nacionais. Sobre a questão crucial do banco mau, bad bank, não teria sido possível encontrar antes um entendimento com Bruxelas?

Claro que se poderia ter feito antes. Eu acrescento: tinha de ser feito há três ou quatro anos atrás. Nós escolhemos uma outra solução e perdeu-se o momento oportuno. E o curioso é que alguns responsáveis ​​por essa omissão nos querem agora dar lições de moral pura. Mas deixemos a polémica, por favor: o ministro Padoan está a fazer maravilhas, sabendo que precisamos de um conjunto de regras, começando com aquelas que irão acelerar o desendividamento. Uma questão de poucas semanas e tudo ficará claro.

Mas hoje acredita que seja possível encontrar rapidamente uma solução que possa aliviar o fardo dos créditos de má qualidade (Non Performing Loans (NPL) no sistema bancário?

A primeira solução para os créditos de má qualidade (os NPL)  é a de reiniciar a economia, a de agilizar o mercado privado para os comprar, a de encorajar as fusões, fusões e consolidações bancárias: todas as coisas em que a nossa iniciativa é continuamente em conformidade com todas as regras. Eu acredito que o mercado está a enviar sinais claros e acho que os accionistas e os gestores estão interessados em saber exactamente o que precisa ser feito. Eu acrescento: acredito que eles estão a trabalhar no duro para o fazer.

Era coisa impossível conseguir a não retroactividade das novas regras em matéria de resolução das crises bancárias?

Dura lex, sed lex. Nós respeitamos as regras. E para isso temos o direito de pedir a outras pessoas para não usarem dois pesos e duas medidas.

Enquanto isso, nos últimos dias, as acções de bancos foram fortemente penalizados nos mercados financeiros. Com o escudo do BCE já não pode haver um ataque aos títulos soberanos de um país da Zona Euro, como aconteceu no passado, mesmo para a Itália. Hoje, a opinião generalizada é que a única forma possível de desencadear um ataque pode passar pelo sector bancário. Isso é o que está a acontecer?

Não. Não, isto é uma manobra de alguns bancos, ponto final. O sistema na minha opinião está muito mais sólido do que legitimamente alguns investidores temem. Aos meus interlocutores digo sempre que quando alguns dos principais investidores abandonaram a Itália no momento mais sombrio 2011-2012 eles perderam uma grande oportunidade: se tivessem mantido as suas posições, por exemplo sobre os títulos do governo – com esses valores – hoje iriam ganhar mesmo muito dinheiro. Mas talvez a seguradora alemã ou o banco francês tenham comprado outros. E agora talvez se arrependam. Os acontecimentos destas horas irão facilitar as agregações, as fusões, as aquisições. É o mercado, beleza. Vai ver que será um cenário interessante, tenho a certeza.

O que é que disse na reunião no Palazzo Chigi com o ministro da Economia Pier Carlo Padoan, o governador do Banco de Itália, Ignazio Visco, e o director-geral Salvatore Rossi? Tinha medidas para serem estudadas?

Acompanhemos o evoluir da situação.

(continua)

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Ver o original em:

http://www.ilsole24ore.com/art/notizie/2016-01-21/c-e-manovra-alcune-banche-ma-sistema-e-solido-070047.shtml?uuid=ACR64OEC

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