A febre da saída da França do euro chega ao coração da diplomacia francesa – por Ambrose Evans II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

A febre da saída da França do euro chega ao coração da diplomacia francesa

Ambrose Evans-Pritchard Politics and society

21 de outubro de 2013

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(conclusão)

Os dirigentes europeus enfrentam a mesma escolha que um general esmagado em combate. Pode-se ficar e lutar ao ponto de destruição total ou sair rompendo o cerco, salvando o que puder do seu exército para um outro dia de combate, perdida a batalha mas não a guerra? Ele cita explicitamente a ordem de retirada da França dada sob ordens de Joffre antes da batalha de Marne em 1914, uma façanha em termos de recuperação moral que os comandantes do Kaiser consideravam impossível.

O seu plano é uma completa ruptura do euro e um regresso às moedas nacionais. “O euro existe como uma verdadeira moeda, com todas as características de uma moeda ou então não existe de todo.” Ele rejeita a casa de recuperação de uma divisão norte-sul, a ideia proposta pelo chefe de ex-BDI da Alemanha Hans-Olaf Henkel para um Marco alemão no núcleo dos países credores e um euro residual para o bloco latino (mais a França) que permite as Estados mais fracos poderem desvalorizar e cumprir os seus contratos de dívida denominados em euros.

A ruptura deve ser preparada em sigilo absoluto por um punhado de altos funcionários em Berlim e Paris, com toda gente a ignorar o esquema que se está a realizar. Isto seria feito a uma velocidade relâmpago ao longo d eum prolongado fim-de-semana, modelada sobre o que fez o Brasil quando aboliu o cruzeiro em 1994, uma tarefa executada com alta eficiência militar

Tudo isto remato com um golpe final, esta operação deve ser vista um acto comum Franco-Alemão para “evitar a catástrofe de uma situação onde a Alemanha seja vista como a responsável única”. Somente nesta base pode o projecto da UE pode ser realizado em conjunto . Todos os outros teriam que aceitar o facto consumado.

Os controlos de capital teriam que ser impostos. Os bancos centrais teriam que aplicar uma política de quantitative easing para amortecer o choque. As divisas iria flutuar durante um certo tempo antes de serem ligadas novamente numa reminiscência de uma gerida “serpente” monetária .

Pessoalmente, prefiro uma versão diferente que foi apresentada por um grupo de franceses souverainistes no L’Observatoire de l’Europe. Isso envolve a fixação de taxas de câmbio de novas até os mercados cambiais acalmarem, usando uma fórmula que leva em conta as diferenças acumuladas na inflação e as balanças comerciais a desde o lançamento da UEM.

No âmbito do plano dos souverainistes, as desvalorizações/reavaliações estão estabelecidas contra uma nova unidade ECU como unidade de conta, reflectindo a ponderação média do velho euro (não ancorado ao novo D-marco). A dívida pública de cada Estado poderia ser reconvertida durante a noite em moeda local (como a lei da Argentina sobre o peso), independentemente de quem possam ser os credores. Mas a dívida externa privada seria liquidada contra o ECU, um compromisso em que se partilha as perdas entre Estados fracos e fortes.

A fundamentação do Prof Heisbourg por uma segunda partida para a UEM e de um impulso para a União federal em 10 anos, choca-me como um romantismo residual ou talvez seja uma forma correcta de mostrar que ele ainda não faz parte dos críticos como eu na multidão dos Eurocépticos.

Porque é que os Estados-nação históricos devem estar mais desejosos em se anularem a eles-mesmos em dez anos, do que o estão agora. Como ele descreve de forma tão eloquente, o esforço de 60 anos para os vincular basicamente falhou e aqueles como Mitterrand e Kohl, moldados pela 2ª Grande Guerra, desde há tempo que desapareceram da cena.

Ele reconhece que o “não” francês e holandês à Constituição Europeia foi um ponto de viragem, o momento em que se tornou claro que os cidadãos não estariam dispostos a aceitar a estrutura de uma EU constituída em super-Estado, o que seria necessário para que a UEM funcionasse. Concordo inteiramente. Os referendos de 2005 mudaram tudo. Mas se é assim, então é evidente também que os sentimentos antifederalistas dos Estados-nação tornaram-se mais profundos do que a angústia sobre o euro, uma vez que desde 2005 o projecto da UEM parecia correr às mil maravilhas. E era assim até à crise grega em 2010 que as pessoas começaram a compreender que havia algo de errado com o próprio euro e mesmo depois de se ter assistido a uma lenta epifania lenta, a um certo sentimento de profunda realização.

Nem eu penso que o Prof Heisbourg se possa então separar dos eurocépticos, agarrando-se a uma pureza ideológica. A máquina [ da propaganda de Bruxelas] será accionada e fará um bombardeamento de epítetos, como aqueles que estão no mau lado da história tem já uma dura experiência. De toda a maneira, os seus argumentos são mais ou menos iguais aos nossos. Um grande parte dos muitos eurocépticos já foram “europeístas”, para usar uma expressão irritante.

Eu próprio estou neste número. Foi por isso que eu aprendi todas as principais línguas da Europa (mal aprendidas, com certeza, mas não por falta de entusiasmo) no final dos anos 70 e início dos anos 80 e estudei na Alemanha, França e Itália, fui um otário face a este meu sonho. Então partir e fui viver para o Texas.

Bernard Connolly foi o alto-funcionário responsável pela política monetária na Comissão Europeia, na época de Delors, quando a construção do euro foi idealizada, e ele mesmo resistiu à pressão para cozinhar os argumentos para promover a agenda. Ele podia ver mesmo então que um tal empreendimento tão incoerente iria acabar numa espiral de dívida, de depressão e de apartheid económico, como de fato veio a acontecer. É por isso que ele se tornou em primeiro lugar um eurocéptico.

Seja como for, a sua conversão (o sacerdócio da UEM chamará a isso traição) é bem reveladora. Ela diz-nos muita coisa sobre as forças dominantes no processo, nos círculos da política francesa e expõe as fendas sobre a fachada da hegemonia do projecto. Uma vez que o conjunto do Quai d’Orsay começa a quebrar o tabu, nós deve estar a chegar a um ponto de inflexão política, [ou seja, de inversão política sobre a construção do euro].

Cada um de nós poderá apostar na recuperação da Europa, mas se o quiser fazer, deve lembrar-se de uma coisa. A distância entre norte-sul que está na raiz dos problemas da UEM não será eliminada por um regresso ao crescimento considerado tolerável – o que está longe de ser assegurado – porque ele também vai trazer para a mesa o dia em que a Alemanha ira exigir o aumento das taxas de juro. A crise muda de forma. Não se vai embora. A União Monetária continua disfuncional com ou sem crescimento.

A crença de que um novo ciclo da expansão económica irá colocar um fim nesta saga interminável que está atrás de nós é apenas a mais recente de tantas ilusões. O Prof. Heisbourg tem razão. A demora já não serve nenhum propósito que seja útil para a Europa. Seria melhor que a certidão de óbito fosse passada rapidamente.

O meu próximo livro sobre a UEM é o livro “The Fall of the Euro” de Nomura’s Jens Nordvig. Por uma olhadela parece-me um bom livro. 

 

A febre da saída da França do euro chega ao coração da diplomacia francesa – por Ambrose Evans I

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