EDITORIAL – O LIVRO É ETERNO

logo editorialA recente perda sofrida pelo mundo da cultura com a morte de Umberto Eco, obriga-nos a reflectir sobre o futuro do livro tal como o conhecemos e a promessa (ou ameaça) da sua substituição por outros suportes de escrita – para já pelos e-books e estes por meios de conservação e transmissão de ideias, de conhecimentos, de criatividade que a nossa imaginação não logra atingir. Eco tinha a convicção de que o livro, tal como a roda, o machado, a colher, era uma aquisição consolidada da evolução humana, daquelas que nada pode substituir.

Claro que, de facto, o dizer-se que nunca a roda ou o livro serão substituídos, é uma afirmação arriscada  – o “nunca” e o “sempre” são termos  relativos e que têm de ser interpretados dentro dessa acepção em que o milhão e oitocentos mil anos que se calcula ser a do aparecimento do homo erectus que em patamares evolutivos nos traria até ao que somos. Nesses quase dois milhões de anos, fomos desenvolvendo capacidades – o fogo, o machado, a roda, o livro…

E nessa imensidão de tempo a descoberta da palavra e a chegada à escrita, demoraram períodos que, embora a ciência os possa medir, assumem face à nossa curta duração o estatuto de eternidade. Estamos a homenagear o Professor Germano Sacarrão, cientista que definiu o homem como «um ser biologicamente cultural». Enquanto existirmos, não pararemos de evoluir, de descobrir, de domar a Natureza… até passarmos a um patamar diferente. Não é dentro dessa escala incomensurável que Eco defendeu a eternidade do livro. Afinal, os números da nossa história são modestos: a primeira escrita que se conhece, a escrita hieroglífica chinesa, surgiu há cerca de 4300 anos; O Código de Hamurabi. o primeiro livro, foi publicado na Babilónia há um pouco menos de 4000 anos; o aparecimento do alfabeto na Fenícia foi há cerca de três milénios e meio; o Pentateuco, o seu quinto livro, o Deuteronómlo, foi redigido há «somente» pouco mais de 2600 anos e os Diálogos. de Platão, há 2400… Aceleremos: A Geografia de Ptolomeu. data de 125 da nossa era, As Confissões. de Santo Agostinho, são de 386/7… e por aí fora, com diligentes copistas a produzirem com esmero luminoso, exemplar a exemplar, os códices que só os ricos podiam comprar.

Até que…em Estrasburgo, no ano de 1439, um ourives, com uma prensa que parecia boa para fazer azeite ou vinho,  inventou a maneira de espalhar o sol do saber. E «a palavra de Deus» directamente do produtor ao consumidor, sem a filtragem que, de acordo com as orientações emanadas de Roma, se fazia nas homilias dominicais. O que deu lugar a guerras.

Códices, incunábulos, livros, podem ser lidos séculos depois de editados. Será que os tablets daqui por dez anos servirão para alguma coisa? É neste segmento ínfimo do eterno, que damos  razão a Eco – o livro não vai acabar.

Leave a Reply