BISCATES – O TURISMO TEM PÉS DE BARRO – por Carlos de Matos Gomes

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Passando e não passeando por Lisboa, pelo Porto e pelo Algarve, lendo ou ouvindo as notícias, é grande a satisfação nesta Páscoa por estarem as cidades e as serras, as terras e as praias apinhadas de multidões de turistas nacionais e estrangeiros, que preenchem a capacidade hoteleira, como dizem os entrevistados, a 100%, ou mais.

Para estes a mais estão a ser construídos de raiz, ou adaptados a partir de antigos edifícios, hotéis de todas as estrelas, (já não há pensões), hosteles, habitações de turismo temporário, parques de campismo. Todos os dias chegam aos portos mastodontes que flutuam com arranha-ceús no lombo, carregados de turistas na versão de cruzeiro. As revistas da especialidade, nacionais e estrangeiras, premeiam Portugal como o melhor destino turístico do mundo. Lisboa, Porto, Coimbra, Évora, Braga, mas também a Nazaré, Viana do Castelo, Idanha a Velha, Belmonte, a Guarda, Beja, Monsaraz, Mértola e Alcoutim, sem esquecer Óbidos e Sintra, Cascais e Peniche são destinos que ninguém pode perder. Já vi escrito e fotografado que Portugal tem a melhor praia do mundo, a melhor paisagem do mundo, a melhor gastronomia do mundo… até o melhor jogador de futebol do mundo. O desemprego, a desigualdade, o abandono escolar e o dos velhos, a precariedade, o salário mínimo… infelizmente, se não são dos piores do mundo, são dos piores da Europa. O turismo aproveita o melhor do mundo para os turistas e deixa o pior do mundo para os indígenas. O colonialismo baseou-se exactamente no mesmo princípio de trocas desiguais!

 A propósito de gastronomia, não há dia em que não seja anunciado um evento gastronómico, da alheira à empada, do choco ao bacalhau, do chocolate aos ovos batidos em clara, do bolo rainha à amêndoa tostada, da francesinha ao coirato, do caldo verde às migas, da lampreia às enguias, dos maranhos aos túbaros, das cadelinhas às iscas, do camarão ao lingueirão. Não há espécie vegetal e animal que escape a um festival gastronómico! Estamos como os chineses: tudo o que está debaixo do sol é para comer e festivalar. O problema tem sido escoar o porco nacional, o leite nacional, ou andamos a comer pouco ou andamos a importar demais! Em português do Brasil, Portugal virou estância de férias! Ou um arraial

Não quero ser desmancha-prazeres, mas tenho a vetusta idade que me permite conhecer um pouco de história do meu país, pelo menos do passado recente e alguma coisa da de outros povos. Talvez não sejamos diferentes e esta febre do turismo seja provocada pelo vírus da estirpe que provocou a febre do ouro e infetou milhões de emigrantes europeus que embarcaram, febris para o Eldorado da América. Os pesquisadores do ouro acabaram como desempregados e não como milionários, excepto os que, como os avós de Donald Trump, o candidato a presidente, se aproveitaram da febre do ouro para explorar os crentes, abrindo pensões, bares e casas de alterne para os pesquisadores afogarem em álcool e sexo o desespero pelas minas que fechavam mal se esgotava o veio esgravatado pelas multidões que se abateram sobre ele.

Estas febres só servem para os que aproveitam a maré enquanto ela enche e saem mal começa a descer. Em Portugal já passámos por várias febres, mas nenhuma com a dimensão desta do turismo. Recordo a febre das croissanterias, das lojas de aluguer de vídeo, dos plantadores de peras, de morangos, de Kiwis, dos tupaweres, dos apartamentos e das viagens em timesharing, das férias a prestações em Benidorm, dos investimentos na bolsa do capitalismo popular de Cavaco Silva, que ele se encarregou de dinamitar quando anunciou que andavam a vender gato por lebre. Por acaso os vendedores eram os seus amigos do BPN! Esses safaram-se.

Compreendo que quem não tem cão caça com gato. Portugal nunca foi um país de indústria nem de agricultura desenvolvida, foi sempre uma sociedade de comércio e aventura. Mas, a partir de Pombal, lá se foi criando um aparelho produtivo que resistiu até aos meados dos anos 80. O soarismo da Europa connosco e o cavaquismo do dinheiro fácil, destruíram o aparelho produtivo com o verdadeiro programa da União Económica: colocar os países mais pequenos e frágeis a restituir os empréstimos aos prestamistas com juros à cabeça e criar uma dívida em permanente crescimento, através da sempre maior necessidade de importações, resultante da sempre maior destruição da capacidade de produzir internamente. Dinheiro barato e fácil para poder dizer ao pagode: importar é mais barato que produzir! O futuro está nos serviços, diziam comentadores tão conceituados como os de hoje, sendo que alguns são os mesmos. O objectivo era absorver os desempregados da indústria e da agricultura, atomizando a força de trabalho, fazendo do desempregado um patrão entregue à sua sorte – os serviços assentam em micro empresas, empresas familiares, trabalhadores precários, logo baixos salários, baixos custos sociais, pequenos investimentos bancários, mas muito desmultiplicados, o que diminui o risco. O típico menu do liberalismo. Onde havia um operário ou um agricultor, passou a existir um dono de café-restaurante, um vendedor de pipocas, uma rapariga da vida com anúncio no jornal e número de contribuinte.

A febre do turismo, tem todas as condições para ser mais uma ilusão e causar mais um desastre económico e social. Como estamos empenhados, vendemos barato. Vendemos tudo barato, o trabalho, que é servil e precário, os terrenos, o património, e, principalmente, vendemos, ou alienamos o que resta de qualidade. A gastronomia, por exemplo. É evidente que a gastronomia dos locais para turistas só é boa para os turistas. Quando eles se aperceberem que, na maioria dos casos, estão a comer mal e porcamente, deixam de vir. Quando o nosso património estiver tão vulgarizado que já não haja multidões para ver os Jerónimos ou a Torre de Belém, deixam de vir.

O turismo é a mais frágil das actividades económicas, porque está dependente do bom funcionamento das economias dos países a montante, que produzem bens e serviços reais. Está dependente dos que fabricam automóveis, motores, aviões, computadores, dos que extraem e exportam matérias primas essenciais, dos cereais ao petróleo, dos que lhes acrescentam valor. Está dependente de casas demasiado aleatórias, um atentado, um cataclismo, uma epidemia, por exemplo. O turismo devia ser uma actividade complementar na economia nacional, e não a actividade principal.

A atual febre do turismo, com a qual todos os agentes indígenas parecem tão contentes, assenta – para piorar as perspectivas – no turismo de massas – pacotes baratos, viagens low cost, hotel com preços esmagados, circuitos turísticos padronizados. Este modelo funciona em Londres, em Paris, em Roma, um pouco em Berlim, em Nova Iorque, em São Francisco, mas não pode funcionar em Portugal, que tem mais ou menos a mesma população, mas é um país disperso por 89 mil quilómetros quadrados, enquanto essas metrópoles são pontos de atração concentrados e instalados no topo da cadeia de geração de riqueza de potências como a Grã-Bretanha, a França, a Alemanha, a Itália ou os Estados Unidos.

Bastará um agravamento da crise na Europa e nos Estados Unidos – e ela é tão provável – e os turistas desaparecem de um dia para o outro, com muito maior velocidade do que aquela com que chegaram Então, infelizmente, ouviremos os mesmos que hoje estão encantados a carpir mágoas e a baixar ainda mais os preços, a despedir, a diminuir a qualidade, a pedir apoios… com os tuk tuk a enferrujar, os bares e mini bares encerrados, os jovens que se meteram na aventura de abrir um restaurante a emigrarem.

Portugal está na moda, mas todas as modas passam de moda. O turismo tem pés de barro e devíamos encontrar alternativas para ele antes de desabar…

9 Comments

  1. Completamente errada esta visão na minha opinião. Vivo no estrangeiro, sendo que é difícil explicar que Portugal é tecnologicamente avançado, mais do que imaginamos quando vivemos em Portugal, que temos altíssimos padrões de qualidade nos serviços e produtos, algo que não percebemos ainda. Qual a melhor forma de promover do até ter as pessoas a verem in loco isso mesmo? O problema é os portugueses não se valorizarem e promoverem e as restantes indústrias não terem o dinamismo do Turismo. Para vendermos produtos não estamos dependentes das economias estrangeiras também? Os jovens que visitam Portugal hoje, são os decisores e as famílias de amanhã. Vivam os hosteles!

  2. Nunca me foi dado ler nenhum escrito com tanta idiotice e miopia macro económica, e já tenho 70 anos, dos quais 56 a trabalhar, 48 como Economista.
    Confrange-me ver este tipo de miopia, que desemboca noutra, a agora muita em voga “perda de identidade cultural”.
    Será que o autor deste escrito desconhece o facto de termos aderido à UE e ao EURO, e com isso termos perdido toda a soberania para gerir a nossa economia e as nossas finanças? Só pode!
    O Turismo, está a ser, foi e será, um dos raros sectores económicos com viabilidade económica sustentada, pela simples razão de ser aquele no qual somos mais eficientes e temos recursos competitivos.
    Não fora o Turismo, e o “desemprego, a desigualdade, o abandono escolar e o dos velhos, a precariedade, o salário mínimo…”, seriam ainda maiores.
    Não entende que o Turismo cria postos de trabalho de todo o tipo?
    Alguns precários, é evidente, dada alguma sazonalidade, própria do sector.
    Alguns com o salário mínimo, mas a maior parte com salários iguais ou superiores à média do País.
    O que é que o desenvolvimento deste sector económico tem a ver com “a desigualdade, o abandono escolar e o dos velhos”?
    Mas para quê tentar fazer um míope ver.
    Antes tem que operar-se ou pelo menos usar óculos, para poder ler alguns manuais de estratégia macro económica, de modo a evitar a si próprio o vexame de escrever estas barbaridades
    Pedro Dias

    1. Sr. Pedro Dias, como membro da equipa coordenadora do Blogue e dada a nossa política da absoluta liberdade de expressão, não lhe cortámos o comentário, mas deixe-me dizer-lhe o seguinte – o termo «idiotice» aplicada a um texto de Carlos de Matos Gomes, vinda de uma pessoa com a maturidade que os seus quase 70 anos lhe deviam conferir, é algo de muito próximo da idiotice -é um acto de intolerância que só as pessoas pouco dotadas exibem – «quem não pensa como eu é estúpido». É óbvio o seu direito de não estar de acordo, mas o insulto é um «argumento» de quem não tem capacidade de argumentação. Leia com atenção o que escreveu – deixa de si uma imagem pouco lisonjeira. ~Caso queira rectificar a forma como exprimiu a sua divergência…

  3. Dos meus quase 80 anos vi e vivi muita coisa. Umas boas e outras más. Da universidade saí matemático que usei profissionalmente. Portugal tem de apostar na indústria de produção de bens de qualidade. Temos juventude para isso. O turismo deve ser apadrinhado, mas não esquecer que a indústria, a agricultura, a pesca e o comércio serão o suporte e a garantia se e quando os turistas encontrarem melhor alternativa.

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