Há 98 anos, Portugal sofria uma das maiores derrotas militares da sua História – A Batalha de La Lys. Na madrugada do dia 9 de Abril de 1918, no vale da ribeira de La Lys, sector de Ypres, na região da Flandres, em território belga, de madrugada, perto das
4:30, oito divisões do VI Exército Alemão, comandados pelo general Ferdinand von Quast. 55 mil alemães atacaram o sector português – a operação – com o nome de código Georgette – iria durar quase três semanas, até 29 de Abril. Porém, nas primeiras quatro horas de combates, as tropas portuguesas, entre mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros, perderam cerca de 7500 homens. O alto comando alemão sabia que aquele sector ocupado pelas forças do CEP (Corpo Expedicionário Português), constituía o ponto mais vulnerável numa frente de 55 quilómetros.
84 mil homens constituíam o XI Corpo Britânico, onde se integrava a II Divisão do CEP comandada pelo general Gomes da Costa: cerca de vinte mil homens dos quais, quinze mil se posicionavam na chamada «linha de fogo». Pior equipados e com armamento mais antigo e, sobretudo, mal preparados, o portugueses formavam a porta mais fácil de abrir. Em todo o caso, os nossos soldados bateram-se com bravura, provocando pesadas baixas ao inimigo e resistindo às sucessivas vagas de infantaria germânica que a coberto do fogo ininterrupto iam tomando de assalto as posições – matando, aprisionando, pondo em fuga desordenada.
A vitória na batalha de uma Alemanha com pouco mais do que quatro décadas, moralizada pela humilhante derrota imposta à França na guerra franco-prussiana, entendia que tinha direito a uma nova divisão dos recursos naturais e dos territórios coloniais onde existiam matérias-primas e mão-de-obra escrava em abundância. Estamos a publicar artigos sobre o envolvimento de Portugal no conflito que razão ou razões que levaram o Governo a tomá-la. O editorial é território neutro – Quando encerrarmos o debate, tentaremos fazer uma síntese das diversas opiniões. Hoje apenas quisemos lembrar a Batalha de La Lys , um dos mais desastros de toda a história portuguesa.
Os mitos foram muitos, quase criando no imaginário popular a ideia de que se tratou de uma vitória. Mas, sendo uma inegável derrota, parece ser evidente que o sacrifício dos soldados portugueses proporcionou aos britânicos tempo para se estabelecerem em posições favoráveis. As forças britânicas, mais bem equipadas e mais disciplinadas, ao eclodir a ofensiva, recuaram para posições à retaguarda. Os flancos do nosso Corpo Expedicionário ficaram expostos, sendo envolvidos pelas sucessivas vagas da infantaria germânica apoiada por artilharia – a chamada «carne para canhão». A República ficou fragilizada e La Lys foi um dos trunfos do sidonismo e da Ditadura militar. Alcácer Quibir provocou sessenta anos de ocupação estrangeira. La Lys abriu a porta a cinquenta anos de repressão fascista.
As ambições dos poderosos são sempre os mesmos que as pagam.
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Nota: Em 23 de Maio de 2015, a argonauta Manuela Degerine falou sobre este tema no Espaço do Lavadouro, em Queluz. Em breve, apresentaremos a sua intervenção no debate que abrimos.
