Demorou a vir à luz. Depois das duas prolongadas sessões plenárias do Sínodo dos bispos da igreja católica sobre a família, realizadas, uma em cada ano, em Roma, com a assídua presença e presidência do papa Francisco, ele e só ele a igreja católica, a respectiva Exortação apostólica acaba de ser dada à luz. A demora sugere que a gestação do documento foi difícil e o seu parto ainda mais. Está aí, agora, à disposição de toda a igreja e da sociedade, se bem que, nesta sua Exortação, a sociedade não é tida nem achada pelo papa Francisco. Mais uma vez, em documentos papais, só a igreja católica existe, não existe a Humanidade com a sua variedade de povos. Quem não é cristão católico romano simplesmente não é. Na verdade – e este é o primeiro ponto negro da Exortação papal de Francisco – o documento começa por se dirigir “aos bispos, aos presbíteros, aos diáconos, às pessoas consagradas, aos esposos cristãos e a todos os fiéis leigos”. A ninguém mais. O que diz bem o gheto, a seita, que a igreja católica romana é.
Para ela, os povos das nações não existem, enquanto não aceitarem fazer parte dela, no desgraçado estatuto de “fiéis leigos”, cá em baixo, na base da pirâmide eclesiástica, antipodas do papa que está sozinho lá muito acima no topo. Ou a igreja católica não fosse como é uma monarquia absoluta, coisa de um homem só, para cúmulo clérigo, um ser à parte e celibatário por força de uma lei eclesiástica mais do que absurda. Todos os mais seres humanos e povos do mundo são seus súbditos efectivos ou potenciais. Só quando passarem de súbditos potenciais a súbditos efectivos é que passam a contar. Até lá, não existem, a não ser como multidões a catequizar e a conquistar. Parece absurdo, não parece? Mas é da natureza da igreja católica romana ser assim. E esta Exortação deixa-o bem claro, logo na abertura. É uma monstruosidade, nos dias que correm, mas a verdade é que este documento tem a data de 19 de Março de 2016. E não dos tempos de St.º Agostinho e S. Cipriano, quando se ensinava-garantia, “Fora da igreja não há salvação”.
É assim que abre a Exortação “Amoris Laetitia”, em latim, lingua oficial do império de Roma e que a igreja papal fez sua, uma vez que é a sua sucessora e prosseguidora, terceiro milénio adiante. Enquanto houver seres vivos que a integrem, quase nunca por opção pessoal, quase sempre por imposição da tradição-pressão familiar-social e por conveniência de cada qual. Apesar da aberração que é a existência de uma instituição monárquica assim, a verdade é que enquanto ela tiver prestígio, der status social, poder a uns quantos e distribuir esfarrapadas promessas às multidões desesperadas em becos sem saída, sempre haverá quem prefira ir por aí, em lugar de crescer de dentro para fora em sabedoria e em entrega de si aos demais, até nos assumirmos na história, como se Deus não existisse, uma postura própria de muito poucos entre os nascidos de mulher. É inequivocamente uma perversão histórica, mas é para tentar perpetuar esta perversão histórica que as religiões e as igrejas cristãs nasceram e estão aí cada vez mais activas e com exércitos de minorias escolarizadas à frente delas, a troco de suculentos pratos de lentilhas que elas habilmente lhes garantem. Vendem-se ao diabo, à perversão institucionalizada, mas, em troca, garantem quotidianos de abundância para si e para os seus e ainda contam com a veneração, a submissão, o aplauso das multidões que ficam sempre sem crescer, sem se desenvolver.
Tudo nesta Exortação nos diz que é uma obra de velhos clérigos celibatários, tidos como “altas dignidades” dentro da igreja católica e na sociedade ainda demasiado clericalizada, apesar de os Estados serem constitucionalmente laicos. Não é por isso de estranhar que seja um documento longo, pesado, triste, cheio de palavras e frases que ninguém entende, a começar pelos próprios “fiéis leigos”, na base da pirâmide desta instituição de poder monárquico, entre os quais se incluem os “esposos cristãos”. São palavras e frases escritas originalmente em latim e traduzidas para as línguas de cada povo, onde a igreja católica ainda contabiliza grande número de supostos aderentes. Como o latim é, desde há séculos, uma língua morta, não tem no seu vocabulário palavras, conceitos para dizer a nossa actualidade. E como não tem, pura e simplesmente, não a tem em conta nem é dela que arranca.
Tudo nesta Exortação sobre a família é medievo, não terceiro milénio. O papa, os bispos, os presbíteros, os diáconos são deste terceiro milénio, mas as suas mentes-consciências andam povoadas de fantasmas medievos, os mais primitivos. Nos 9 capítulos e nos 325 parágrafos, mais 391 citações, com que o documento se tece, não há nada deste terceiro milénio. E o pouco que há, é dos papas imediatamente anteriores ao actual, com destaque para o que o documento apelida de “São João Paulo II”, um título e um mito, só por si aterrorizadores. É manifesto que a realidade terceiro milénio não existe para a igreja católica e seu papa. Por isso não é tida nem achada neste extenso documento papal. O próprio papa não é terceiro milénio. É um figurante medievo, quando ainda não havia seres humanos individuais, só rebanhos humanos formatados. Tragicamente, o papa que assina este documento é o chefe máximo desses rebanhos humanos, sem dúvida, o mais formatado de todos e, só por isso, o seu chefe. Para cúmulo, ainda é jesuíta. Jesuíta e papa. O mais formatado dos seres que se constitui no maior formatador dos demais.
Felizmente, queira a Cúria romana ou não queira, somos terceiro milénio. E a realidade “família” tradicional, medieva, já não existe. Por mais que os bispos e o papa celibatários repitam este conceito até à náusea. Existem, quando muito, algumas famílias. Mas as mais influentes e eficazes, neste início do terceiro milénio nem são as constituídas por afectos e seres humanos sexuados. São as famílias-máfia com seus padrinhos, a primeira das quais é a Cúria romana, a mãe de todas outras. E aqui a língua falada e escrita já não é o latim, mas o inglês, o alemão, o russo, o francês, o japonês e o chinês, embora o inglês seja o que por agora é o mais falado e escrito. São as famílias dos grandes negócios, geradoras de empresas e sociedades como a dos “Papéis do Panamá”, coisa miúda, comparativamente a outras, das quais nunca chegaremos sequer a ouvir falar. Tudo isto torna a Exortação papal “Amoris Laetítia” ainda mais desgraçada, triste. Só por sadismo se pode falar ainda em “Alegria do amor”, num tipo de mundo como o nosso, onde o Dinheiro-poder financeiro é o papa universal e a Cúria romana o seu principal braço moral e religioso. A perversão das perversões.
Nada do “miolo” deste documento tem, pois, qualquer sentido para este nosso terceiro milénio. Basta ver como ele começa. Sem qualquer referência aos povos das nações, nem sequer ao “povo de Deus”, que o Concílio Vaticano II ousou colocar antes da “hierarquia”. E que dizer do modo como a Exortação termina? Nem lido se acredita, de tão absurdo e tão fora da realidade terceiro milénio. Pois bem, o papa faz questão de terminar com uma fórmula de oração dirigida, sabem a quê? Ao mito “Sagrada Família”. Sim, mito, porque “Sagrada Família”, como realidade histórica, nunca existiu nem existirá. E só da realidade histórica podemos falar, porque é a única que podemos conhecer e, mesmo assim, sempre imperfeitamente, dada a nossa limitação para conhecer o Essencial, invisível aos olhos. O caricato é que para o papa, a “sagrada família” de que fala é constituída por um pai adoptivo, José, por uma mãe virgem, Maria, e por um filho, Jesuscristo. Começa por chamar, aos três, Jesus, Maria e José. Só que estes três nomes, enquanto seres humanos de carne e osso como nós, não são “sagrada família”. Nem sequer família são. So que o cristianismo fez destes três nomes um mito. E edificou-se sobre ele. Por isso, é mentira institucional. E só o facto de ser com este mito, “Sagrada família”, que o papa conclui a sua Exortação apostólica sobre a família, todo o conteúdo do documento não tem qualquer valia para as famílias deste nosso tempo, que são famílias de carne e osso, nos antípodas da “sagrada família.
Transcreve-se integralmente, a fórmula de Oração que o papa compôs para fechar o seu “Amoris Laetitia”. Para que conste e, sobretudo, para que abramos os olhos das nossas mentes-consciências e mudemos radicamente de ser e de teologia, concretamente, mudemos do ser cristão e da teologia cristã, para o ser humano e sua teologia que conhecemos, plena e integralmente, em Jesus, o filho de Maria. Só então há Amoris Laetitia, Alegria do Amor, porque há Liberdade, há seres humanos, política e maieuticamente, religados uns aos outros, responsáveis pela História, como se Deus não existisse. Eis a desgraçada fórmula de oração composta pelo papa Francisco, para conclusão da sua “Exortação apostólica sobre a família”, não sobre as famílias, como seria de esperar neste início de terceiro milénio:
“Jesus, Maria e José,
em Vós contemplamos
o esplendor do verdadeiro amor,
confiantes, a Vós nos consagramos.
Sagrada Família de Nazaré,
tornai também as nossas famílias
lugares de comunhão e cenáculos de oração,
autênticas escolas do Evangelho
e pequenas igrejas domésticas.
Sagrada Família de Nazaré,
que nunca mais haja nas famílias
episódios de violência, de fechamento e divisão;
e quem tiver sido ferido ou escandalizado
seja rapidamente consolado e curado.
Sagrada Família de Nazaré,
fazei que todos nos tornemos conscientes
do carácter sagrado e inviolável da família,
da sua beleza no projecto de Deus.
Jesus, Maria e José,
ouvi-nos e acolhei a nossa súplica.
Ámen.”


Obrigado padre Mário por mais este brilhante texto. Por acaso li uma parte do documento, mas acabei por pô-lo de lado, de tão desatual, frio e distante dos seres humanos. Quanto à “Sagrada Família”, pessoalmente prefiro a fada dos dentes.