Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Lord Mervyn King: porque é que despejar dinheiro sobre o pânico financeiro nos levará a uma nova crise
Mervyn King, Lord Mervyn King: why throwing money at financial panic will lead us into a new crisis
The Telegraph, 27 de Fevereiro de 2016
(continuação)
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Um mundo em desequilíbrio
Há mais vida para além das finanças, e mais a financiar do que os acontecimentos de 2008. A economia mundial hoje parece incapaz de restaurar a prosperidade que nós tínhamos tomado como garantida antes da crise.
Muitos dos problemas que nos parecem esmagar – pobreza, desigualdade crescente, as infra-estruturas em ruínas, as tensões étnicas entre e dentro dos países – tudo seria facilitado pelas taxas de crescimento antes da crise, o que parecia bastante normal. O crescimento económico tem caído sobretudo entre os países do mundo desenvolvidos.
Alguns consideram esta situação como resultado de uma desaceleração da inovação e da produtividade dado que a revolução da informação mostra menos transformações que as anteriores revoluções tecnológicas . Eu vejo este resultado de forma diferente – a luta para reavivar a economia mundial é o resultado do desequilíbrio que levou à própria crise .
Antes da crise, os gastos continuaram a níveis insustentavelmente altos nos Estados Unidos, Reino Unido e nalguns outros países da Europa, e em níveis insustentavelmente baixos na Alemanha e na China.
O sintoma mais evidente do desequilíbrio actual é o extraordinariamente baixo nível das taxas de juro
Isso criou um desequilíbrio nesses países, com a despesa ou muito alta ou muito baixa em relação aos rendimentos actuais e potenciais. E o desequilíbrio entre países – grandes excedentes comerciais e défices – cresceu. Estes desenvolvimentos não foram irracionais, mas são sim a consequência de pessoas que lutam para se comportar de forma racional num mundo de incerteza radical que é parte integrante de uma economia de mercado.
Tudo isso somado a um desequilíbrio dentro e entre as grandes economias. Não há nem equilíbrio interno nem externo.

A partir de meados da década de 1990, as reuniões internacionais são estabelecidas em parceria e numa estrutura em que os funcionários europeus poderiam criticar os Estados Unidos pelo seu baixo nível de poupanças, as autoridades americanas poderiam, por seu lado, criticar os europeus por não compreender a necessidade de uma mudança na balança comercial, e as autoridades japonesas poderiam permanecer conscientemente silenciosas . As autoridades chinesas poderiam relatar a sua ultima taxa de crescimento historicamente elevada Mas eles pareciam ter pouca compreensão de como é que todos estes factores funcionam em conjunto.
O desequilíbrio na economia mundial tornou-se cada vez mais grave. As taxas de juros reais estão muito distorcidas e muito abaixo do retorno esperado sobre o investimento numa economia a crescer a uma taxa normal, incentivando os investimentos nas áreas onde a procura se mostrou de forma consequente ser insustentavelmente alta.
As taxas de câmbio reais foram distorcidas, criando-se assim insustentáveis défices e excedentes comerciais com um fluxo de capital dos países onde as suas taxas de retorno sobre o investimento são altas para os países onde estas taxas eram baixas, Maus investimentos foram feitos – em habitação nos EUA e em alguns países da Europa, em propriedades comerciais, tais como centros comerciais no Reino Unido, na construção na China e no sector de exportação na Alemanha.
O sintoma mais evidente do desequilíbrio actual é o extraordinariamente baixo nível das taxas de juro que, desde a crise, ainda mais têm caído.
Os bancos centrais estão presos na sua política de juros baixos por causa da crença continuada de que a solução para a fraca procura é ainda um maior estímulo monetário.
As consequências têm sido que quanto maiores são os aumentos nos preços dos activos e uma busca desesperada por rendimento como investidores, desde as pessoas físicas às companhias de seguros, mais se conduz a que o retorno actual dos investimentos seja insuficiente para apoiar as suas necessidades de gastos. Os bancos centrais estão presos numa política de juros baixos por causa da contínua crença de que a solução para a fraca procura é ainda mais estímulo monetário.
Estes bancos centrais estão situados no quadro do dilema do prisioneiro: se algum deles pretende elevar os juros, eles teriam um risco de abrandamento do crescimento e, possivelmente uma outra crise.
Se as taxas de juros reais permanecem próximas de zero, o desequilíbrio na despesa e nas poupanças vai continuar e o último ajustamento para um novo equilíbrio será ainda mais doloroso. Se as taxas de juros reais começam a mover-se de novo para níveis mais normais, os mercados irão reavaliar a sua visão do futuro e os preços dos activos podem entrar em queda drasticamente. Nem os prospectos sugerem um retorno suave e gradual para um caminho estável para a economia. Além disso, a turbulência na economia mundial, e muito possivelmente uma outra crise, é o que está a ser esperado.
(continua)
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