Foi no dia 3 de Maio de 1968 que se desencadeou o movimento que passou à história como o Maio de 68. Nesse dia, uma greve geral em França,meramente reivindicativa, depressa assumiu uma dimensão revolucionária. Como é habitual, o Partido Comunista Francês, não controlando o processo que, em muitos aspectos, o ultrapassava pela esquerda, não só não apoiou, como condenou o movimento, apodando-o de reaccionário. No entanto, reputados humanistas e historiadores estiveram ao lado dos grevistas e consideraram o Maio de 68 como um marco revolucionário e como a convulsão social mais importante de todo o século XX. Terá sido?
A Revolução Soviética será para a maioria dos comunistas e social-democratas um facto histórico mais marcante. Mas o Maio de 68 atravessou todo o tecido social (não só em França); não se tratou de uma insurreição popular, não afectou apenas a burguesia, não envolveu somente a juventude. De certo modo foi revolucionário e foi reacionário, porque, mais do que estabelecer regras de justiça social, quis pôr em causa as estruturas da sociedade, os comportamentos sociais, os princípios morais e religiosos e as hierarquias. Pôs tudo em causa e a disciplina partidária, o centralismo democrático, digamos, as bases essenciais de igrejas, movimentos de classe e partidos políticos, não foram poupados. Teve consequências positivas e teve também sequelas negativas, ainda hoje, quase meio-século decorrido, ainda hoje sentidas.
Um dos slogans – é proibido proibir – é revolucionário na medida em que nega o direito institucional de estabelecer regras e sobretudo de as fazer cumprir; mas é profundamente reacionário ao abrir as portas a todas as aberrações que afectam a humanidade, nomeadamente a venda e o consumo de drogas, «liberdade» letal.
Uma boa parte das ideias emanadas do ‘Maio de 68’ ajudaram a configurar a «evolução de mentalidades», o «politicamente correcto» que substituíram normas diferentes das arcaicas – diferentes, sem dúvida, mas não melhores. Impulso generoso, gerado na sua maioria nos corações de jovens estudantes, teve muitos reflexos positivos – combate ao racismo, à discriminação de sexos, à homofobia… Mas ao pôr em liberdade sentimentos e impulsos generosos e justos, deixou à solta monstros que ainda hoje andam por aí, como, por exemplo, um egoísmo, uma ânsia de protagonismo, um desprezo pelos direitos do outro, factores que o capitalismo não deixa de explorar.
Num ponto todos estão de acordo – o Maio de 68 mudou o mundo.

Oportuníssimo falarmos em maio de 68, quando o mundo está diante de uma revolução tecnológica estupenda e, ao mesmo tempo, deparando-se com uma crise humanitária absolutamente trágica.
Revoluções costumam trazer sequelas negativas. O Terror, na França que abriu caminho para Napoleão; a Burocratização da União Soviética; etc.
Até os hippies (aparentados com aquele maio) foram imensamente criativos e revolucionários ao combaterem nossas hipocrisias e o próprio sistema capitalista.. Mas os PCs do mundo odiaram os hippies, é claro. O trágico é quando a força das ideologias nos fazem perder, paradoxalmente, as dimensões do humano.