O DRAMA DOS MIGRANTES NUMA EUROPA EM DECLÍNIO E CAPTURADA POR ERDOGAN E OBAMA – 4. ALEMANHA: SCHENGEN ANO ZERO – MERKEL ENREDA-SE NA CRISE DOS MIGRANTES, por LAURENT GAYARD.

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Alemanha: Schengen ano zero – Merkel enreda-se na crise dos migrantes

Laurent Gayard, Allemagne: Schengen année zéro- Merkel s’enlise dans la crise des migrants

Causeur.fr, 30 de Março de 2016

No  ano passado,  a Alemanha acolheu mais de um milhão de refugiados sem pedir o parecer dos seus parceiros europeus. Isto não  é sem consequências: não somente a integração económica destes novos recém-chegados não tem nada do maná  anunciado, mas depois dos  atentados de Paris e de Bruxelas, os outros Estados-Membros pensam  reexaminar a sua política migratória.

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Jovem refugiado sírio na fronteira da Grécia com a Macedónia  (Março de  2016). Sipa. Numéro de reportagem: AP21868623_000038.

Na  noite do 13 de Novembro, todos ou quase todos se lembram de  que a equipa da França de futebol jogava com a  da Alemanha no recinto do Stade de France. O detalhe, tornado inútil pela extensão do massacre que se desenrolava ao mesmo momento, contudo fixou-se na memória de toda a gente.  O resultado do encontro foi apagado por um cálculo mais mórbido nos dias que se seguiram e recorda-se –  igualmente menos que o jogo a França-Alemanha – o que se prosseguiu  a partir do dia seguinte por vias mais diplomáticas. A partir do 16 de Novembro, François Hollande proclamava que “o pacto de segurança” prevalecia doravante sobre “o pacto de estabilidade orçamental europeu”, uma maneira mais  polida de reformular o tonitruante tweet  de Jean-Luc Mélenchon em Dezembro de 2014: “Maül zu Frau Merkel! Frankreich ist frei! ” 1 Do  outro lado do Reno, compreendeu-se com efeito sem dificuldade a  mensagem: fazendo de Daech o seu inimigo mortal, a França designava igualmente o dogma germânico da austeridade orçamental como um novo adversário, anunciando a necessidade de aumentar consequentemente os meios militares e policiais e reabrindo a caixa de  Pandora da dívida soberana. Os atentados do 13 de Novembro perturbavam as prioridades e os equilíbrios europeus, e Markus Söder, o intratável ministro das Finanças da Baviera, tinha-o compreendido a partir de 15 de Novembro. Tweetant “Paris ändert ALE! ” 2, o responsável político alemão sublinhava os prejuízos colaterais da tragédia parisiense para Angela Merkel. Os atentados que vêm atingir Bruxelas, no dia de 22 de Março passado, poderiam exacerbar ainda mais a divisão franco-alemã face à crise migratória e à ameaça terrorista contra a qual se debate agora o Velho Continente.

A sombra de Colónia

Se o espectro da carnificina de Novembro assombra mais do que nunca a política interna e externa francesa, e mais ainda depois do que aconteceu em Bruxelas, a sombra de Colónia paira sempre  no ar, desde o dia 31 de Dezembro de 2015, sobre a opinião pública alemã. No entanto, os Alemães, que receberam 1,1 milhão de migrantes em 2015, acreditaram em primeiro lugar encontrar neste maná, como aconteceu nos anos 1960 com os Turcos, a solução milagre para a escassez de mão-de-obra devida a  uma demografia átona: a Alemanha envelhece e as novas gerações são muitíssimo pouco numerosas para ocuparem os empregos vagos. Mas a integração dos migrantes no mercado do trabalho alemão parece hoje mais difícil que previsto. Se à  Alemanha faltam  com efeito brutalmente engenheiros e técnicos, a maioria dos migrantes, para dizê-lo muito cruamente, não tem o perfil que responda a essa necessidade. Somente  um terço de entre eles seguiu uma formação profissional ou  estudos de nível superior, sem estar a contar a barreira da língua, que a grande maioria não domina. E os empresários alemães detestam investir na formação de indivíduos que poderão depois deixar  o país daqui a dois ou três anos dado que são supostos de serem  refugiados para uma boa parte de entre eles. Esta situação que embaraça o governo alemão sublinha o paradoxo da política de acolhimento de Angela Merkel apoiada ao mesmo tempo sobre o argumento humanitário e sobre o “da possibilidade para a Alemanha” sobre o plano económico.  As consequências não se fizeram de esperar: as eleições regionais do 13 de Março saldaram-se por um revés brutal  para a CDU e para a chanceler e por uma subida impressionante da extrema-direita .

Aí está o que quase faria esquecer que há um ano Angela Merkel era reeleita triunfalmemente e, pela oitava vez, estava  à cabeça da  CDU com 96,72% dos votos. Ela imediatamente aproveitou-se destes resultados  para criticar em frente  do seu partido a França e a Itália, maus alunos reformadores da Europa. No Eliseu, baixava-se  a cabeça e Michel Sapin ousava responder em dificuldade que a França não reformava  somente para agradar aos seus vizinhos, sejam eles alemães ou não.  Como os tempos mudaram! É talvez com uma terna perfídia que François Hollande anunciava em Setembro de 2015 que estava  disposto a acolher 24.000 refugiados sobre o solo francês… no momento em que a Alemanha recebia 80.000 por semana, antes de Manuel Valls meter o prego a fundo afirmando que a política de Angela Merkel não era “suportável a prazo”. História de se lhe acrescentar, o Primeiro ministro polaco Beata Szydlo apelava  “ a uma curva” na política alemã enquanto Dimitri Medvedev qualificava esta última, com todo o tato russo, “muito simplesmente uma estupidez”. E dado que já não se pode decididamente contar agora com ninguém, Eslovénia, Croácia, Macedónia e a Sérvia apunhalavam por sua vez  a Alemanha pelas  costas ao anunciarem no princípio de Março de 2016 em querer fechar “ a rota dos  Balcãs”. “Não se resolve o problema tomando uma decisão unilateral”, trovejou   Angela que decidiu recordar aos candidatos à insubordinação que a única política unilateral aceitável era a política alemã.

Esta apresentava em  frente dos 28 Estados europeus o texto de um acordo que tinha ela própria ido   negociar num frente a frente com  Recep Tayyip Erdogan em  Istambul. O famoso acordo entre a  UE e a Turquia, assinado a  18 de Março na precipitação, atribui aos Turcos uma bela adição  de  3 mil milhões de euros para construir estruturas de acolhimento. À estas largas prebendas acrescentam-se contrapartidas muito simbólicas relativas à reabertura das negociações de adesão à UE e a  possibilidade para os cidadãos turcos de circularem  sem visto no espaço Schengen, apresentadas no entanto, sob a pressão da França, sob  condições de segurança quase impossíveis de satisfazer. Aceitando  desempenhar  o papel de estação de aparcamento para fazer ela mesma  a triagem  dos imigrantes, para assim evitar que a  Grécia  se venha a tornar  o campo de refugiados da Europa e de  permitir à  Alemanha diminuir uma pressão migratória cada vez mais complicada de gerir, Ancara vê-se  ser-lhe oferecida pela mão de  Angela Merkel uma alavanca de pressão muito eficaz sobre a União europeia

O cheque em branco assinado diplomaticamente à Turquia poderia custar à Alemanha a sua credibilidade junto dos seus parceiros europeus, colocados em frente do  facto consumado, face à  necessidade de remediar por todos os meios  uma situação de emergência largamente provocada pela política migratória da Alemanha. Enquanto Berlim podia até agora satisfazer os seus próprios interesses pretendendo trabalhar para o bem comunitário, a  realpolitik prematura  que conduziu ao acordo entre  a EU e a Turquia isola doravante a Alemanha sobre o continente europeu. Como o notava  já em 2010 Jean-Louis Bourlanges, professor no IEP de Paris : “ Durante muito tempo, [os alemães] tinham acreditado que o que era bom para a Europa era bom para a Alemanha. Angela Merkel teve a imprudência da sua declaração, pelo contrário, em que o que é bom para a Alemanha é bom para a Europa.” Este posicionamento  é cada vez mais mal vivido na Europa onde a  chanceler  alemã aparece para muitas pessoas como a iniciadora de uma corrente de ar   migratória incontrolável que torna a União Europeia cada vez mais cativa  das condições postas por um aliado turco tão inquietante quanto  ambíguo. Cúmulo da ironia, o Primeiro-ministro turco Ahmet Davutoglu autorizava-se mesmo a dar aos Europeus no dia da assinatura do acordo algumas lições de decência declarando que o acordo alcançado, denunciado pelas associações de defesa dos direitos do Homem como “o acordo da vergonha”, não era uma questão de mercantilização,  mas sim  “de valores humanitários, bem como de valores europeus.

Merkel, sempre irredutível na sua posição?

Nestas condições, Angela Merkel conseguirá permanecer ainda muito tempo clarividente no seu país? Tanto mais que os indicadores económicos não estão para o lado do verde  do outro lado do Reno: o desemprego permanece baixo mas o crescimento e a actividade industrial começam a sufocar. Se a Europa ajudou  a Alemanha a dopar as suas exportações, a Alemanha ficou muito dependente das suas exportações para assegurar o crescimento da sua economia. E no momento em que as exportações alemãs começam a sofrer a repercussão da redução do ritmo da expansão chinesa e dos países emergentes, o enredar na crise dos migrantes, para um custo sempre mais elevado, chega no pior momento, enquanto que Angela Merkel está na corrida para um quarto mandato de chanceler. O contexto terrorista assim como a crise migratória provocaram uma distribuição inédita dos papéis numa Europa que vê cada dia a sua bela  unidade a deslocar-se um pouco mais: a França endossou o papel de nação guerreira enquanto Berlim paliou a sua ausência de empenhamento militar por um sobre-investimento humanitário. Cada um vê a sua política ratificada no momento  por um sucesso efémero, ou ambíguo. A Alemanha congratulou-se por ver aceite  o acordo controverso com a Turquia de  18 de Março e as polícias belgas e francesas podem  felicitar-se da captura de Salah Abdeslam em Molenbeek no dia seguinte. Mas o terrorismo hipoteca de novo estes frágeis sucessos. A Turquia, “país terceiro seguro”3 para a reinstalação dos refugiados, estava enlutada logo no dia seguinte ao da assinatura do acordo com a UE por um atentado-suicida  que fez 4 mortes à Istambul.

Quatro dias depois da captura de Salah Abdeslam na Bélgica, Bruxelas era atingida  por um atentado que causou 35 mortes. Mais ainda que o de Paris, este ataque parece desta vez querer visar a União europeia como um todo. Os lugares do atentado – o aeroporto Zaventem e a estação de metro Maelbeek muito próximos  das instituições europeias – desmentem o argumento, retomados por muitos após os atentados de Novembro, de ser somente a  França  a ser   visada devido à sua participação militar na coligação contra o Estado islâmico. É efectivamente a Europa como um todo  que foi visada pelos atentados de Bruxelas e poder-se-ia  desviar a exclamação de Markus Ströder afirmando esta vez que “Bruxelas confirma tudo”. Enquanto a Bélgica chora as suas mortes e que todos os governos europeus reforçam os seus dispositivos de segurança na expectativa de um novo atentado, o acordo que volta a dar à  Sublime Porta    as chaves da Europa na esperança de jugular a crise migratória poderia ver a aposta na sua  aplicação um tanto contrariada. Num contexto sempre mais ameaçador, o jogo entre uma França voltada para a guerra contra  o Estado islâmico e uma Alemanha que defende a todo o custo  sua política de acolhimento promete vir a ser ainda mais  disputado.

________

  1. « La ferme Madame Merkel ! La France est libre ! » 

  2. « Paris change tout ! » 

  3. Segundo  Karim Lahidji, presidente da  FIDH, que denunciava no dia da assinatura um « cinismo desprezível”

Laurent Gayard, Revista Causeur, Allemagne: Schengen année zéro- Merkel s’enlise dans la crise des migrants. Texto disponível em:

http://www.causeur.fr/allemagne-immigration-merkel-hollande-37494.html

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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