A GALIZA COMO TAREFA – etiquetagem – Ernesto V. Souza

vieirochoidoNa Galiza mudam os tempos e também as vontades, como em toda a parte. Não mudam porém as estratégias para atravessar um “vieiro choído“*. Continua-se no desafio a um Estado que legislou na sua constituição vigente e legisla continuadamente na normativa legal o uso do castelhano como dever de cidadania e obriga de uso em muitos âmbitos. Continua-se a promover um discurso de lamento, assumindo a língua como uma das três minoritárias e minorizadas do Estado (junto à de Catalunha e Euzkadi) e em paralelo às línguas minoritárias da Europa e do mundo; continua-se numa estratégia de conflito simbólico e evidencia lutando por defender imaginados privilégios e impossíveis garantes legais.

É evidente que os últimos governos do PP (desde 1997) contribuíram a rotura dos patos e dos marcos consensualizados, a respeito da questão nacional e das línguas após o franquismo e no desenvolvimento do estado democrático como realidade autonómica. Os dous últimos governos do galego Mariano Rajoy e os governos autonómicos de Comunidades como Valência, Baleares ou a Galiza têm destacado na implementação de uma legislação a contrário das línguas autonómicas e um reforço constante da visibilidade dos deveres e ampliação de direitos do uso do castelhano.

Legislação estatal e autonómica, promoção institucional, usos obrigados ou induzidos, na administração, no sistema educativo, nas provas de acesso à função pública, na comunicação do cidadão com a administração (concelhos, polícia, tribunais, administração geral e local). Isso tudo acompanhado de uma negligenciação na promoção das “outras línguas espanholas” (destacadas como “património” na constituição e corpus legislativo) por parte da administração e da empresa privada (ausência de controlo, reclamações dos consumidores, falta de interesse) e com a promoção de importantes conflitos simbólicos na defensa do castelhano ou na não permissão de mais usos nas outras línguas, destacadamente contra o catalão.

A partir de 2013, o governo incrementou em dúzias de decretos e leis, entre outras medidas, a obriga de etiquetar em castelhano os produtos comercializados na Espanha. Alimentos, transportes, produtos de consumo, informações de ingredientes, devem ser etiquetados quando menos em castelhano.

Evidentemente estas medidas têm sido fortemente contestadas desde a Catalunha, Baleares, Valencia, espaços que lutam há décadas por uma promoção do catalão na etiquetagem, nos letreiros, na dublagem de filmes, na publicidade e para o que parece que se dirige principalmente esta obsessão do Governo, ainda que no referido a produtos alimentares afetem diretamente à Galiza.

Por outra banda e curiosamente, na maior parte das grandes superfícies, supermercados e lojas que vendem produtos fabricados fora do estado espanhol ou fabricados neste, mas dirigidos a um mercado peninsular, os mais dos produtos e mesmo a publicidade e etiquetagem é fácil que estejam em castelhano e português.

Isto, para a Galiza é simplesmente uma avantagem. A nossa língua é internacional, sem qualquer esforço: está minorizada, sim, mas não é minoritária. Pode-se empregar no Parlamento europeu, ou ler num xampu comprado no meio de Madrid.

Imaginem agora que para tomar rumo Norte, ou Sul, ou Oeste nos encontrássemos com os nossos carros de mercadoria ante um desfiladeiro fechado por enormes rochas que levaria séculos e energias movimentar. O que faríamos? dinamite? contratar equipas e maquinaria pesada? movimentar as rochas e cascalhos a mão?

E que tal, provar outro caminho?

 

Nota: * Vieiro choído é o título de uma obra de Teatro de X.L. Franco Grande, publicado pela editorial Galáxia em 1954 dentro da sua coleção “Illa Nova” de autores novos e novíssimos. Choído é particípio do verbo Choer.

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