O DRAMA DOS MIGRANTES NUMA EUROPA EM DECLÍNIO E CAPTURADA POR ERDOGAN E OBAMA – 12. PORQUE É QUE OS ÁRABES NÃO NOS QUEREM NA SÍRIA, por ROBERT F. KENNEDY, JR. – a introdução de JÚLIO MARQUES MOTA

refugiados - I

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

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Nota introdutória ao texto de Robert F. Kennedy, Jr.

Acabei de traduzir o texto que se segue, cujo autor, Robert F. Kennedy, Jr, é filho de alguém que politicamente animou o meu imaginário político dos meus tempos de estudante, Robert F. Kennedy. Impunha-se-me pois um enorme cuidado da tradução por respeito a tudo isto. Garantidamente tive-o e isto independentemente dos erros que a tradução possa conter. Não pedi a nenhum amigo que o revisse e o limpasse dos erros ditos “amigáveis”, o que faço frequentemente, porque a revisão quando nos projectamos intensamente nela leva a que nos detenhamos no detalhe de cada frase mas perdendo-se o seu conjunto, o próprio texto, como muito bem o ilustrou Antonioni com o seu filme Blow-up. Sei-o por experiência própria porque me encarreguei da revisão da tradução de muitos livros. A minha sorte era que normalmente eu tinha lido antecipadamente lido na língua original cada livro a ser revisto. Quando assim não acontecia, livro por mim revisto era livro que eu não era capaz de ler depois de editado em português. Ora o texto de Kennedy é extraordinário, tão extraordinário que eu próprio não queria privar nenhum amigo meu de ficar agarrado e surpreso com a leitura deste extraordinário documento e de o ver como um todo.

Sinceramente, sou incapaz, por razões de ordem emocional, de tecer qualquer comentário ao texto. Publicaremos no blog um longo texto de Taïké Eilée intitulado Robert Kennedy, Jr. denuncia o conflito na Síria: uma «guerra por procuração» por causa de um pipeline, como um longo comentário a este fabuloso documento. e nada mais. Iremos igualmente publicar dois artigos sobre uma afirmação de Kennedy relativa à utilização do gás Sarin atirado na Síria contra populações indefesas, porque Kennedy reproduz a tese oficial, de que foi o governo sírio que o utilizou quando se sabe, hoje, que esse gás terá feito parte das reservas de Kadafi, levado para a Turquia e depois por camião transportado para os rebeldes que combatem o governo actual na Síria. Esta ultima visão do que aconteceu é partilhada por técnicos especializados em armas letais e é pois oposta à versão apresentada pela Casa Branca e aqui retomada por Kennedy.

Quando acabei a tradução face ao horror de tudo o que reescrevia em português só me lembrei da angústia que me transmitia a canção dos Doors The End, lembrei-me dos monstros, não dos que povoavam o imaginário de Jim Morrison perturbado pela droga, mas dos monstros que povoam o texto de Robert Kennedy.

Desta canção retenho a lírica, bem dolorosa:

Kennedy - I

Quando acabei a tradução face ao horror de tudo o que reescrevia em português lembrei-me também das imagens e das palavras sobre o horror proferidas pelo Coronel Kurtz (Marlon Brando) em Apocalipse Now:

 

KURTZ

I’ve seem horrors. Horrors that

you’ve seen. But you have no right

to call me a murderer. You have a

right to kill me. You have a right

to do that. But you have no right

to judge me.

…………

It’s impossible for words to

describe what is necessary to those

who do not know what horror means.

Horror. Horror has a face. And

you must make a friend of horror.

Horror and moral terror are your

friends. If they are not, then

they are enemies to be feared.

They are truly enemies.

………….

I remember when I was with Special

Forces. Seems a thousand centuries

ago. We went into a camp to

inoculate some children. We’d

left the camp after we had

inoculated the children for polio.

And this old man came running after

us, and he was crying. He couldn’t

say. We went back there, and they

had come and hacked off every

inoculated arm. They they were,

in a pile. A pile of little arms.

And, I remember, I cried, I wept

like some grandmother. I wanted

to tear my teeth out. I didn’t

know what I wanted to do. And I

want to remember it. I never want

to forget it. I never want to

forget it. And then I realized,

like I was shot, like I was shot

with a diamond bullet through my

forehead. And I thought, My God,

the genius of that! The genius.

The will to do that. Perfect,

genuine, complete, crystalline,

pure. And then I realized, they

were stronger than we. Because

they could stand it. These were

not monsters. These were men,

strained cadres. These men who

fought with their hearts, who have

families, who have children, who

are filled with love…that they

had the strength, the strength to

do that. If I had ten divisions

of those men, then our troubles

here would be over very quickly.

You have to have men who are moral,

and at the same time, who are able

to utilize their primordial

instincts to kill without feeling,

without passion. Without judgment.

Without Judgment. Because it’s

judgment that defeats us.

Quando acabei a tradução face ao horror de tudo o que reescrevia em português também me lembrei da angústia que me transmitiam as últimas imagens do filme Morte em Veneza [1] angústia essa potenciada pelo som da música de Mahler, angustia em crescendo à medida que me recordava também do artigo de um jornalista americano publicado em Fevereiro de 2016 no Boston Globe, Stephen Kinzer, um antigo jornalista do New York Times e hoje a trabalhar como Senior Fellow no Instituto Watson para os Estudos internacionais na Universidade Brown. Trata-se de um artigo que traduzi para publicar nesta série de textos sobre o declínio de uma Europa nas mãos de um quase sultão, Erdogan, e de um quase imperador, Obama, onde se lê a propósito de Aleppo, cidade martirizada durante três anos pelos aliados do Ocidente e agora libertada, pelos russos e sírios, o seguinte:

“Durante três anos, militantes violentos têm controlado Aleppo. O seu governo começou logo com uma onda de repressão. Estes começaram imediatamente a distribuir avisos à população do tipo : “Não mandem os vossos filhos para a escola. Se o fizerem, ficaremos com as suas mochilas e vocês com os seus caixões. ” Depois, destruíram fábricas, esperando que os trabalhadores desempregados não teriam outra alternativa do que tornarem-se combatentes ao lado deles”.

E são esta forças que a coligação tem estado a apoiar, a financiar. São estas as forças em que o mais belicista de todos os que não são pacifistas e por isso Prémio Nobel da Paz , Obama, se apoia, para supostamente defender a Democracia ! Não posso crer, é tudo mentira, isto é, como diz Jim Morrison, “It’s so unreal”. Tudo cheira a mentira, tudo cheira a máscara, apenas esta, a decompor-se, é que o não é. A máscara dos nossos valores é o que resta de verdade, tudo é pois mentira, tudo cheira pois a podridão e nada mais. E aqui lembro-me dos mortos de Ghouta, da luta pelos “valores do Ocidente” na versão americana, na versão de Hollande, na versão da NATO. Dessa luta, uma imagem apenas:

Kennedy - II

E, de novo, vem-me à memória a sequencia final de Morte em Veneza. Esta sequência, a morte do personagem central, Aschenbach, pode agora ser vista como remetendo para uma visão mais ampla e metafórica do que poderá estar a acontecer à Europa[2]. Há no espectáculo deste homem que morre na praia sozinho face à beleza não alcançada e materializada em Tadzio, em que este se distancia cada vez mais e se perde pelo mar adentro, o Mediterrâneo, por este mar onde repousa Ulisses, onde repousam milhares de mortes que no Mediterrâneo fizeram das suas águas as suas mortalhas, de sangue humano tingidas, e nele depositaram também o seu caixão porque os seus fundos se transformaram assim no seu cemitério. Na podridão que a sequência nos mostra, uma podridão agressivamente vestida de branco que se decompõe frente aos nossos olhos, há uma ressonância mais profunda do que aquela suscitada apenas pela morte final da personagem que cai sobre a areia movediça. Há aqui a ressonância da morte da Europa como ela é agora anunciada aos quatro ventos e por todos os seus cantos. De resto, nesta sequência que podemos hoje entender como premonitória do destino da Europa, há um aviso claro, terrível sobre o nosso destino colectivo. Com efeito. nesta sequência estão duas meninas vestidas de preto, que se nos apresentam pela direita, vestidas de luto por outras grandes guerras que já se viveram, que já se sofreram, luto de uma Europa que morreu em cada uma delas, quando há já quem anuncie uma terceira guerra mundial, como é o caso do artigo de John Pilger a publicar neste série, intitulado Uma nova guerra já começou – quebremos o silêncio. E estivemos perto, muito perto do final de Agosto de 2013 por causa dos mortos de Ghouta, na Síria, com a marinha de guerra e a força aérea reforçada nas bases do Catar prontas para atacar duramente a Síria. Uma das datas escolhidas para o assalto era precisamente 5 de Setembro de 2013, data de lua nova, uma condição que tinha também sido escolhida há dez anos antes quando se iniciou a invasão do Iraque. Horror, horror, dirá o nosso coronel Kurtz.

Podemos ver esta sequência final do filme de Visconti, pela visão de um homem que se olha a estrebuchar e a seguir cai, definitivamente morto, como sendo a imagem da agonia do pensamento ocidental condenado à sua própria contemplação nessa Europa a desfazer-se como a máscara da própria personagem, nessa Europa em plena decomposição por forças parasitárias que a invadiram e fizeram dela o seu hospedeiro, como é o caso com a alta finança, pelos menos desde 2008. Nesta sequência que pensamos reflectir a Europa, ao que parece só a máscara é real,  só a mentira é verdade. It  is so unreal, diz-nos Jim Morrison.

Imagens que me angustiaram fortemente. Fiquei mal disposto com o que traduzi, com o que  escrevi, fiquei mal disposto com as associações mentalmente feitas sem que as tenha forçado e isto durante alguns dias. Nesse final de dia, valeu-me então para passar melhor a noite um jantar de bucho de porco no forno acompanhado por batatas assadas em conjunto e embebidas do molho da dita peça de carne. Um jantar com um amigo meu, Leonel Brás,  que essa peça me ofereceu, mesmo com um atraso de mais de 2 meses relativamente à data garantida. Melhorou com o tempo, dir-se-á. Estava divinal. Um bom queijo de pura cabra do Rabaçal, um razoável vinho do Douro e todo o peso que o texto me transmitia começou a desaparecer lentamente, mas demasiado lentamente porém. O custo de quem sente o que oferece aos outros do que lê e que o marca. Simplesmente isto.

Coimbra, 9  de Maio de 2016

Júlio Marques Mota

(Amanhã, inicia-se a publicação do artigo de Robert F. Kennedy Jr. Why the Arabs don’t want us in Syria, publicado em Politico Magazine, em 22 de Fevereiro de 2016).

________

[1] Disponíveis em : https://www.youtube.com/watch?v=36QBU474nqM

[2] Sou aqui devedor de dois a três artigos muitos bons sobre Visconti.

Ler o original do artigo de Robert F. Kennedy, Jr. em:

http://www.politico.com/magazine/story/2016/02/rfk-jr-why-arabs-dont-trust-america-213601#ixzz48H4aOVtd

 

 

 

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