O DRAMA DOS MIGRANTES NUMA EUROPA EM DECLÍNIO E CAPTURADA POR ERDOGAN E OBAMA – 18. OS CAPACETES BRANCOS DA SÍRIA: GUERRA POR MEIO DE MENTIRAS – PARTE I – II

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Os Capacetes Brancos da Síria: Guerra por meio de mentiras – Parte I

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Vanessa Beeley, Syria’s White Helmets: War by Way of Deception – Part I

21st Century Wire, 23 de Outubro de 2015

(conclusão)

Liderança dos Capacetes Brancos 

James Le Mesurier tem sido retratado como um herói humanitário inconformista, miraculosamente no sítio certo (Istambul) à hora certa, precisamente quando surgiu a necessidade de formar a Defesa Civil Síria, talvez por coincidência, somente alguns meses antes do já infame e universalmente desacreditado (excepto para alguns teimosos propagandistas) ataque de ‘armas químicas’ de Ghouta em Agosto de 2013, um acontecimento que ficou provado, para lá de qualquer dúvida, ter sido um falso ataque de bandeira [operações conduzidas por governos, corporações, indivíduos ou outras organizações que aparentam ser realizadas pelo inimigo de modo a tirar partido das consequências resultantes], bem como as acusações subsequentes dirigidas ao governo sírio, as quais falharam, por pouco, a precipitação da desejada ‘No Fly Zone’ da NATO.

Todavia, quando pesquisamos mais fundo na vida e nos momentos de Le Mesurier vemos que não foi um feliz acidente que ele estivesse em Istambul naquele momento.  Como  estudante número um da Academia Militar de Sandhurst e galardoado da Queen’s Medal, a sua atribulada carreira levou-o desde o OHR [Gabinete do Alto Representante] na Bósnia até coordenador de serviços de informações  do recém conquistado prémio da NATO, o Kosovo. Foi-nos dito que Le Mesurier deixou o exército britânico em 2000 e entrou para as Nações Unidas como chefe-adjunto  da Unidade Consultiva em ‘Segurança e Justiça’, e Representante Especial do organismo de Política de Segurança do Secretário Geral dentro da missão da ONU no Kosovo. A sua carreira levou-o, então, a Jerusalém onde trabalhou na implementação do Acordo de Ramallah, depois a Baghdad como conselheiro especial do Ministro Iraquiano do Interior, e aos Emiratos Árabes Unidos para treinar a força de proteção dos campos de gaz, e mais tarde até ao Líbano durante a guerra de 2006. Em 2005 foi nomeado Vice-Presidente para os Projetos Especiais na firma de mercenários privada Olive Group, e em Janeiro de 2008 foi designado como diretor da Good Harbour International [gestão de riscos estratégicos], ambas estas empresas sediadas no Dubai.

Le Mesurier é também o fundador da Mayday Rescue, uma organização “sem fins lucrativos” prestando serviços de treino de busca e salvamento em conflitos civis duradouros. De acordo com a própria biografia de Mesurier na página web, Mayday Rescue foi fundada em 2014, depois de ter criado a Defesa Civil Síria/Capacetes Brancos.

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Um rápido filme sobre os outros membros da equipa da Mayday revela algumas ligações muito interessantes…

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Mosab Obeidat, anterior Chefe Assistente de Missão no  Crescente Vermelho do Qatar, em que um dos seus funcionários, Khaled Diab, foi acusado de distribuir 2,2 milhões de dólares  para conseguir armas para grupos terroristas na Síria. Detalhes desta transação e a sua revelação podem ser encontrados neste artigo do Al Akhbar de Junho de 2013.  [http://english.al-akhbar.com/node/16160]

Pelo menos três outros membros da equipa formavam parte da “revolução” Síria, incluindo Farouq al Habib, um dos três mais proeminentes líderes dos Capacetes Brancos, que era também líder da sublevação da cidade de Homs contra o governo sírio e, de acordo com o seu testemunho, foi torturado pelas forças de segurança do “regime” sírio em 2012 por ter introduzido ilegalmente na Síria um jornalista para cobrir ”os protestos pacíficos”. Habib foi membro fundador do “Conselho Revolucionário de Homs” (note-se que a CIA esteve ligada a quase todos os ‘Conselhos Revolucionários’ na Síria) antes de ter fugido para a Turquia em 2013 (uma análise mais aprofundada deste testemunho anti-governo sírio será apresentada na Parte II deste artigo).

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Nesta foto tirada por telemóvel em 24 de Setembro de 2014, Read Saleh à esquerda, o chefe das unidades de defesa civil na cidade de Idlib, e Farouk al-Habib, à direita, um ativista dos media a favor dos socorristas conhecidos como Capacetes Brancos, sentados num painel  destinado a chamar a atenção do seu trabalho na Síria, quando os líderes mundiais foram aos encontros da  assembleia geral anual da ONU. ZEINA KARAM/THE ASSOCIATED PRESS

Le Mesurier está fortemente envolvido em diversas organizações não mencionadas neste artigo, mas para o propósito de demonstrar que os Capacetes Brancos não devem ser considerados assim tão imparciais ou neutrais como se reclamam, focar-nos-emos naqueles que melhor fundamentam essa posição.

Ambas as organizações Olive Group e Good Harbour International são especialistas em “segurança” privada. Extraído de Sourcewatch sobre a Olive Group:

“Olive Security foi fundada em 2001 por Harry Legge Burke.  Olive obtém o seu rápido sucesso em virtude de fortes ligações no governo e na indústria militar. Harry Legge-Burke é um ex-membro da Guarda Escocesa [um dos regimentos de infantaria do exército britânico], e um antigo assistente do Chefe do Estado-Maior da Defesa [Sir Charles Guthrie]. Pode reivindicar que foi colega de esqui do príncipe Guilherme e a sua irmã foi ama dos príncipes.

Iraque:  Olive esteve no terreno desde que a invasão começou em 2003, e puderam enviar 38 antigos funcionários da SAS [empresa norte-americana especializada em análise e informação] apenas dois dias após a conclusão da invasão em 2004.

Jonathan Allum, antigo director da Olive e co-proprietário, é também o filho de Tony Allum, que é o presidente da empresa de engenharia Halcrow e também o chefe do Grupo de Trabalho da Indústria do Iraque do governo do Reino Unido. Foi nesta última posição que Tony Allum foi a Washington para reunir com os líderes da empresa Bechtel, onde sugeriu, entre outras empresas do Reino Unido, Halcrow e Olive como empresas que valia a pena considerar para trabalho subcontratado, tudo decorrente do contrato de 680 milhões de dólares entre a Bechtel e a USAID. Isto foi tido em consideração e os contratos foram concretizados, embora ambos, Legge Burke e Allum, tivessem negado terem alguma coisa a ver um com o outro.” 

Em Maio de 2015, Olive Group fusionou-se com Constellis Holdings, em cuja carteira podemos também encontrar Academi, anteriormente o tristemente célebre Blackwater Group  (responsáveis pelo massacre da praça Nisour em Bagdad, no Iraque em 2007).  Extraído do Atlantic, em Julho de 2012:  Após o 11 de Setembro [2001], [o presidente] Bush permitiu que a CIA subcontratasse assassinatos alegadamente visando operacionais da Al Qaeda.  Este contrato foi adjudicado à Blackwater.

O comando de operações através da Blackwater deu à CIA o poder de ter pessoas sequestradas, ou assassinadas, sem que ninguém no governo fosse concretamente responsável.”

A CIA não pode mais esconder as suas ligações com Blackwater/Academi, particularmente após a divulgação, esta semana pela Wikileaks, dos dados relativos aos emails do diretor da CIA John Brennan, cuja lista de contactos incluía o agora chefe de espionagem Robert Richter no seu endereço de contactos da Blackwater.

A externalização de operações secretas estava a todo o vapor. O que Bush iniciou, Obama continuou, adjudicando à Blackwater/Academi um contrato de 250 milhões de dólares em 2010 para prestarem serviços “não especificados” à CIA, mantendo assim o dispositivo para assassinatos encobertos “impunes”.

É verdade que James Le Mesurier entrou para o Olive Group apenas em 2005 e deixou-os em 2008, mas o seu envolvimento com eles e a sua posterior fusão com Constellis e, por defeito, com Blackwater/Academi, dá uma imagem valiosa sobre os serviços secretos e os círculos do Pentágono dentro dos quais Le Mesurier se movia antes de trabalhar para Good Harbour International e de criar a Defesa Civil Síria (não esquecendo o financiamento e influência da USAID que está subjacente à Olive e à DCS/Capacetes Brancos).

Em 2008, Le Mesurier entrou na Good Harbour International, mais outra organização privada especializada em “segurança”, cujo presidente executivo não é outro senão o antigo conselheiro para o terror da administração Bush, o Czar do Terror em pessoa, Richard A. Clarke.

21wire - VIIAinda não se tem a certeza se Clarke era, de facto, o “informador”, como ele se classificou a si mesmo, após o 11 de Setembro, ou um simples guardião de alto nível que ajudou a evitar uma completa e detalhada investigação dos papéis de Bush e Rumsfeld no 11 de Setembro.

Patrick Henningsen, um analista politico e escritor do 21st Century Wire acredita que esta última hipótese é a mais provável:

“À primeira vista, uma pessoa poderá comprar a caracterização que dele fazem os principais meios de comunicação, mas é mais provável que Richard Clarke não seja de todo o informador. Embora aparentando opôr-se à administração Bush de uma distância suficientemente segura, creio que o seu papel foi inserido na confusão, no período de 2004-2005, com o fim de VALIDAR a mitologia de bin Laden e ajudar a retratar al Qaeda como uma organização de terror com uma orgânica e administrada de forma independente.  Ele afirmou também que Bush e Rumsfeld cometeram crimes de guerra, mas isso nada significa porque toda a gente sabe que nenhum funcionário dos EUA enfrentará alguma vez acusações de ‘crimes de guerra’ em nenhum tribunal em nenhum lugar do mundo. É de facto uma narrativa de palha que distrai do escândalo realmente existente nos EUA que é o facto de todas as premissas da Guerra ao terror terem sido completamente forjadas.  O estatuto de ‘informador’ de Clarke dá-lhe uma brilhante cobertura em relação a um escrutínio excessivamente público. Continuo céptico em relação a toda a sua narrative pública. Ele foi, é, e sempre será um infiltrado.”

O que talvez seja ainda mais revelador, são as notícias dos estreitos laços de Clarke com a operacional Israelita-norteamericana Rita Katz do SITE Intelligence Groupoutra supostamente independente, se bem que ‘privada’, empresa de informações sediada em Bethesda, Maryland, a um passo do quartel-general da CIA. Diz-se que a SITE é responsável pela divulgação pelos meios de comunicação dos horríveis vídeos de execuções do ISIS, dos videos da al Qaeda, e a sua credibilidade tem sido amplamente questionada.

O relacionamento desde há longo tempo de Katz com Clarke teve início antes do 11 de Setembro, quando ela e o seu associado de investigação Steve Emerson foram incumbidos por Clarke de identificarem ‘radicais Islâmicos’ dentro dos Estados Unidos. Ao longo do tempo, o relacionamento de Katz com Clarke transformou-se numa relação muito mais ampla, que incluiu reuniões de informação regulares na Casa Branca nas administrações de Clinton e de Bush.

“Um dos fundadores de SITE, Rita Katz, é um infiltrado do governo com estreitas ligações ao antigo czar do terrorismo Richard Clarke e ao seu pessoal na Casa Branca, bem como a investigadores no Departamento da Justiça, no Departamento do Tesouro e no Departamento de Segurança Interna, de acordo com o SourceWatch. O seu pai foi executado no Iraque como espião israelita, um facto que sugere uma ligação aos serviços secretos israelitas.”

Mark Taliano

Uma engrenagem muito complicada

Estes antecedentes de Le Mesurier deveriam, pelo menos, levar-nos a questionar o retrato feito pelos meios de comunicação de estarmos perante um líder de uma missão civil  humanitária, afável, encantandor e filantrópico.  As suas raízes militares e em serviços secretos, o facto de que apesar de ter trabalhado para o Gabinete do Alto representante na Bósnia, não se encontra nenhum registo da sua estadia aí, o seu percurso professional centrado na segurança privada, o seu aparecimento em Istambul no preciso momento de formar parceria com a USAID, com o governo do Reino Unido e com a Oposição Síria para a criação precisamente do tipo de ONGs habilitadas a “democratizar” como descrito na nossa introdução, DEVERIA pelo menos levar-nos a duvidar da transparência e da neutralidade dos Capacetes Brancos na Síria.

Acresce que, sendo os líderes dos Capacetes Brancos conhecidos protagonistas da oposição síria, como Raed Saleh e Farouq al Habib, deveríamos ser mais sarcásticos quanto à reclamada imparcialidade e inexistência de preconceito, e para aqueles que defendem a narrativa da revolução “pacífica” defendida por Habib e Saleh, por favor tirem um tempo para lerem a intervenção do Professor Tim Anderson’s de análise aprofundada dos acontecimentos na Síria antes da intervenção da NATO.

“Vi, desde o início, manifestantes armados nessas manifestações … eram os primeiros a disparar sobre a polícia. Frequentemente a violência das forças de segurança surge em resposta à brutal violência dos revoltosos armados” – padre Jesuita Frans Van der Lugt, Janeiro de 2012, Homs, Síria. 

“A alegação de que a oposição armada ao governo somente começou recentemente é uma completa mentira. A matança de soldados, polícias e civis, frequentemente nas mais brutais circunstâncias, têm vindo a acontecer praticamente desde o início.” – Professor Jeremy Salt, Outubro de 2011, Ankara, Turquia.

A nossa exposição dos Capacetes Brancos como propagandistas da mudança de regime e aliados dos terroristas neste texto será posteriormente examinado e verificado na Parte II.

“As actuais iniciativas e agências de “soft power”, particularmente aquelas comprometidas com o desenvolvimento e as comunicações estratégicas, devem ser revigoradas através do aumento do financiamento, de recursos humanos e definição de prioridades. Simultaneamente, o governo dos EUA deve estabelecer metas, objetivos e medições para as iniciativas de “soft power”. Além disso, o governo dos EUA pode mais eficazmente maximizar o desempenho dos instrumentos de “soft power” e dos esforços através de mais parcerias com as ONGs. Proporcionando assistência humanitária e de desenvolvimento em áreas tipicamente inacessíveis às agências governamentais, as ONGs frequentemente estão em condições de aceder às áreas potencialmente extremistas antes que o governo consiga estabelecer ou fortalecer a presença diplomática, de desenvolvimento ou militar, incluindo os serviços de informação.” — Joseph S. Nye, antigo assistente do secretário de defesa dos EUA, Junho de 2004.


FIM DA PARTE I

A autora Vanessa Beeley é colaboradora de 21WIRE, e desde 2011 passou a maior parte do seu tempo no Médio Oriente noticiando os acontecimentos  – como pesquisadora independente, escritora, fotógrafa e ativista pela paz. É também membro do Comité de Direção do Movimento de Solidariedade da Síria, e voluntária com a Global Campaign to Return to Palestine. Pode ver mais sobre o seu trabalho no seu blog The Wall Will Fall.

ALSO READ: Part II – Syria’s White Helmets: War By Way of Deception, ‘Moderate Executioners’

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(*) 21wire: somos um blog norte-americano e europeu, das camadas populares, independente, fornecendo notícias e análises geopolíticas, trabalhando com um conjunto de colaboradores voluntários que escrevem e ajudam a analisar notícias e opiniões de todo o mundo.

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Ver o original em:

http://21stcenturywire.com/2015/10/23/syrias-white-helmets-war-by-way-of-deception-part-1/

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Para ler a Parte I deste trabalho de Vanessa Beeley, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

https://aviagemdosargonautas.net/2016/06/10/o-drama-dos-migrantes-numa-europa-em-declinio-e-capturada-por-erdogan-e-obama-18-os-capacetes-brancos-da-siria-guerra-por-meio-de-mentiras-parte-i-i/

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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