BREXIT: UM EXEMPLO DA ENORME NUVEM DE FUMO A PAIRAR SOBRE A REALIDADE EUROPEIA – 10. A VERDADE IMPRESSIONANTE QUE EXPLICA A ASCENSÃO DA EXTREMA-DIREITA NA GRÃ-BRETANHA E NOUTROS LUGARES – por MATT O’BRIEN

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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A verdade impressionante que explica a ascensão da extrema-direita na Grã-Bretanha e noutros lugares

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Nós ainda estamos a viver uma Depressão — e isso está a dar poder aos líderes da extrema-direita em todo o mundo ocidental.

 Matt O’Brien, The stunning truth that explains the rise of the far-right in Britain and elsewhere

Washington Post, 31 de Maio de 2016 

brexito'brien - IO antigo Presidente da Câmara de Londres Boris Johnson a fazer campanha pela saída (Reuters/Peter Nicholls)

Nunca tantos arriscaram tanto por tão pouco.

Estou a falar, é claro, sobre a próxima votação da Grã-Bretanha quanto à possibilidade de abandonar a União Europeia. O chamado “Brexit” – entendes, idêntico a saída britânica? – poderia ser encarado como sendo o equivalente económico de deixarmos o nosso emprego porque achamos que podemos voltar a tê-lo quando quisermos, com a vantagem de ficar sem as tarefas de que não se gosta. Por outras palavras, uma fantasia.

Cartoon proposto pelo blog para esta imagem da  Grã-Bretanha

brexit - IV

Mas, com as nossas desculpas para Harry Potter, isso poderia ser a saída mais popular na Grã-Bretanha a ponto de que existe uma verdadeira oportunidade, mesmo que ligeira, de que poderia triunfar na votação 23 de Junho. Neste caso, para alargar esta metáfora, a Grã-Bretanha seria deixada sem trabalho e sem amigos. Na verdade, o Tesouro da Grã-Bretanha estima que isso poderia metê-los numa recessão que custaria tanto quanto 500.000 a 800.000 postos de trabalho.

Mas, em nome dos racionais auto-maximizadores, que se está a passar? A mesma coisa que está a acontecer em todo o lado. Os populistas de direita estão a tentar fazer com que o seu país seja grande novamente por, adivinharam, manterem os imigrantes fora do Reino Unido e negociando grandes, digo mesmo grandes, acordos. No caso da Grã-Bretanha, o Independence Party (UKIP) quer sair da zona de comércio livre constituída por 28 nações que é a UE, na esperança de chegar a um acordo sobre um novo pacto de livre comércio com a UE, agora a 27 nações, que não os obrigasse a seguir os diktats de Bruxelas sobre, digamos, qual deve ser a potência que devem ter os fortes aspiradores de pó, ou, mais evidente ainda, sobre quantos imigrantes têm de aceitar do resto da Europa.

Isto quase que soa como razoável. Até, isto é, até ao momento em que pensamos realmente sobre isso. O UKIP está a querer todos os benefícios da adesão à União Europeia sem ter que pagar nada daquilo que acha que são os custos. O que, naturalmente, toda gente desejaria se isso fosse possível. O problema aqui, porém, é que uma União Europeia que existisse à la carte hoje seria uma União Europeia que não existiria de modo nenhum, amanhã.

Então Bruxelas nunca poderia aceitar isso. Diria à Grã-Bretanha, sem quaisquer reservas, que esta tem que viver pelas regras da Europa, pelo menos as mais importantes, se quer ter acesso ilimitado ao mercado europeu. O que, afinal, é o que a Noruega teve de fazer para conseguir um acordo de livre comércio com a UE sem fazer parte dela. Em termos práticos, isso significaria continuar a pagar para o orçamento da UE, aderindo às grandes regulações da UE e, sim, permitindo a livre circulação de pessoas dentro da UE. O melhor cenário possível, então, é que o Brexit resultaria “apenas” em alguns anos de uma incerteza de morte sobre a economia, enquanto eles negociariam um acordo quase idêntico ao que tinham rasgado há pouco tempo (ou: ao que tinham acabado de rasgar). E o pior é que eles não seriam capazes de chegar a qualquer tipo de acordo, deixando-se a si mesmos permanentemente mais pobres .

Apesar de tudo isto, quase metade do país acha que isto é uma boa ideia. Surpreendido? Penso que não o deveria estar. Isto é o que acontece durante uma depressão. Agora, sabemos que soa estranho estar a invocar o sofrimento escuro da década de 1930, quando estamos a falar de uma economia que tem apenas 5,1 por cento de desemprego neste momento, mas cada um de nós deve olhar para os últimos oito anos e não apenas para os últimos oito meses. De acordo com esta medida, a Grã-Bretanha está a fazer pior do que num momento correspondente na Grande Depressão, ou mesmo na queda verificada pós Primeira Guerra Mundial. A coisa complicada, porém, é que isto não é devido à desaceleração ser mais profunda agora que outrora, mas sim ao facto de a retoma ser muito mais lenta (ou: a retoma não ser grande coisa). De qualquer modo, o acréscimo no PIB per capita tem sido até agora de três a quatro vezes mais lento do que durante as outras catástrofes económicas.

brexito'brien - II

A outra parte desta história é que, como Tocqueville no-lo disse, não há nada mais perigoso do que as expectativas não satisfeitas. Isto é o que, pelo menos, os economistas Alan de Bromhead, Barry Eichengreen e Kevin O’Rourke constataram  quando tentaram perceber aquilo que  explicou o aumento do extremismo de direita nos anos 30. “O que importou,” escreveram, “não foi o crescimento corrente da economia mas sim o crescimento cumulativo.” Mas isto é apenas uma outra maneira de dizer que não era uma questão de quão rapidamente se estava a economia a movimentar para onde se esperava que se estivesse a movimentar, mas de quão longe se estava do sítio de onde se esperava estar.

É por isso que não é nenhuma surpresa que o populismo de direita esteja em marcha na Grâ Bretanha e em toda parte no que diz respeito a esta evolução. As pessoas estão mais pobres do que pensaram estar, e portanto pensam que não dispõem de recursos para poderem ser generosos para com os imigrantes. Isso até é assim (foi mesmo verdade) nas utopias socialistas de outrora que se viveram na  Dinamarca, Suécia e Finlândia, onde os respectivos partidos de direita, Danish People’s Party, Sweden Democrats (que tem as suas raízes no neo-nazismo ) e o Finns Party, têm estado todos a subir ao topo das sondagens. O que é que pensava que podia acontecer (mais se pode pensar que irá acontecer) quando, como se pode ver abaixo, as suas economias estão a comportar-se bem pior do que o fizeram durante a Grande Depressão?

Uma economia ao estilo dos anos 30 cria uma situação política ao estilo dos anos 30.

brexito'brien - III

Mas antes de nos movimentarmos até ao Canadá, há algumas boas notícias. Os populistas de direita de hoje, dependendo da opinião que se tenha de Donald Trump, não são fascistas tanto quanto o são como nacionalistas. Assim, poderão explorar tensões raciais e poderão ser intolerantes, mas provavelmente não querem começar uma IIIª (terceira) guerra mundial.

Todavia, as notícias assim-não-tão-boas é que será necessário muito mais do que crescimento económico para fazer com que esses populistas de direita desapareçam. Certo, os bons tempos devem ser os maus tempos para os populistas — pelo menos o bastante para os tirar da parte superior das sondagens — mas provavelmente não tanto que eles se venham a tornar irrelevantes. Recordemos que políticos de extrema-direita como Pat Buchanan, na América, Jean-Marie Le Pen em França e Jörg Haider na Áustria foram todos eles capazes de obter surpreendentes resultados eleitorais durante os tempos de relativamente bom crescimento do final dos anos 90 e do início dos anos 2000. É porque a imigração e a globalização são ambas tanto questões sociais como económicas que foram o terreno fértil para os nacionalistas, apesar da situação de crescimento do PIB.

O que nós estamos a dizer, então, é que tem havido uma linha de base do populismo de direita durante os últimos 25 anos à medida que a imigração reformulou  as identidades dos países e a desindustrialização remodelou as suas economias. E isso foi sendo injetado à medida que o crescimento económico passou a patinar desde 2008. O resultado é que os partidos populistas de direita estão, se não cada vez mais perto do poder, pelo menos a fixar os termos do debate nos E.U.A., no Reino Unido, França, Alemanha, Áustria, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Eslováquia e Croácia, já para não mencionar os partidos que actualmente ganharam na Hungria e na Polónia.

Assim, ao que parece, Marx não tem completamente razão. Um espectro está a assombrar a União Europeia — mas é o espectro do nacionalismo.

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Os defensores da saída do Reino Unido estão à frente na batalha do Brexit, enquanto que produtores e sindicatos fazem novos avisos sobre o que poderá acontecer aos postos de trabalho e aos salários se o Reino Unido sair da UE. (Reuters)

Matt O’Brien, Washington Post, The stunning truth that explains the rise of the far-right in Britain and elsewhere, Texto disponivel em

https://www.washingtonpost.com/news/wonk/wp/2016/05/31/the-simple-and-shocking-truth-that-explains-the-rise-of-far-right-politicians-everywhere/

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. Carlos A P M Leça da Veiga

    Nacionalismo na Europa? Só se for em Portugal onde a Nacionalidade e o Estado se confundem. Na Europa todos os Estados são obra de conquistas territoriais e domínio de minorias. Expansões coloniais com a correlativa imposição duma língua. Que bela democracia a destes campos de concentração.CLV

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