BREXIT: UM EXEMPLO DA ENORME NUVEM DE FUMO A PAIRAR SOBRE A REALIDADE EUROPEIA – 12. BREXIT, por DOMENICO MARIO NUTI

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Brexit[1]

Domenico Mario Nuti

Domenico Mario Nuti, Brexit

Transition, 13 de Junho de 2016

Se eu tivesse de votar  no referendo sobre se o Reino Unido deve permanecer ou sair da UE, eu votaria seguramente pela saída-Leave. Esta união germânica neo-liberal que é a nossa, com a sua austeridade desnecessária e perversa, com a sua falsa pretensão em promover o investimento e o crescimento, com a sua incapacidade de proteger quer as suas fronteiras externas quer ainda e também os refugiados desesperados, com a sua fachada à Potemkin, com a sua  insistência nas  reformas  destrutivas  chamadas de  “estruturais”, esta União não serve para nada nem para ninguém, até  mesmo  para os alemães. Não há nenhuma perspectiva de mudança concebível para melhor, excepto sob o constrangimento da desintegração real ou ameaçada. Um dos meus actores favoritos, John Cleese, declarou-se igualmente a favor do Brexit, e pelas  mesmas razões: “Se eu pensasse que havia qualquer possibilidade de uma grande  reforma  na UE, eu votaria para ficarmos na UE. Mas não há. Triste.” E acrescentou: “Eu sinto que é terrível o alinhamento com vândalos como Murdoch, Dacre e Brooks, mas penso que Stiglitz e Owen têm tido  razão …” (@JohnCleese, a 12 de Junho de 2016). Apesar de tudo, Basil Fawlty ou Fawlty Towers sempre souberam lidar com os alemães. Uns bons argumentos para Brexit são também apresentados no blog  INDEPENDENT BRITAIN, Campaigning to leave the EU, disponível em : https://independentbritain.wordpress.com/

Dito isto, a opção tem, sem dúvida, muitos custos, é incerta nas suas  implicações positivas e negativas, quebrando hábitos e é também muito desconfortável. Eu simplesmente não acredito que a previsão das sondagens a considerarem uma substancial maioria a favor do  Brexit (52%  quando era de  33% na última sondagem do Daily Express), apesar da significativa contribuição dada à facção LEAVE feita por Tony Blair e Gordon Brown que com o seu  beijo de morte a apoiarem a opção de REMAIN, ou seja de permanecer na UE, se venha a verificar.  Eu acredito que a 23 de Junho, um  terço dos eleitores ainda indecisos vá  decidir o contrário e inclinar a balança para o Remain.

E se os eleitores escolherem por esmagadora maioria a saída, o LEAVE,  não é bom fingir  que  o Reino Unido é um pequeno cantão suíço a votar num referendo obrigatório, pois não há tal coisa nos documentos constitucionais britânicos ou na sua  prática constitucional. David Cameron, depois de lançar o Referendo para se proteger de ameaças de UKIP, estará sob grande pressão para cumprir o resultado e aplicá-lo, saindo  nos termos do art. 50 do Tratado de Lisboa, mas não terá nenhuma  pressa em fazê-lo. Afinal de contas, já disse que não iria concorrer para outro mandato mas que está eleito para servir até 2020; Cameron  pode contar com um sólido apoio entre os partidos da maioria pró-UE no Parlamento, e pode ser mesmo capaz de obter  concessões adicionais da UE com a força dos votos, para lá daquelas que recentemente negociou, e a serem suficientes  para reabrir toda a questão.

Mas se a Grã-Bretanha sair, veria com uma alegria sádica o impacto da votação sobre um maior aprofundamento no processo de desintegração da União e o colapso dos partidos governamentais da Alemanha.  Há um grupo de académicos distintos, que se autodenominam EREP Economists for Rational Economic Policies que produziram um relatório “Permanecer para mudar “,  “Construindo a solidariedade europeia para uma alternativa económica democrática”, uma generosa mas equivocada abordagem do problema. Em 23 de Junho, Votem, como diz um ditado irlandês, votem  bem, votem muitas vezes.

As lealdades familiares, no entanto, parecem estar a dividir-se. A minha mulher – uma cidadã britânica que adquiriu a dupla cidadania italiana através do casamento – diz-me que  se pudesse votar no Reino Unido (o que deixou de lhe ser permitido sob a Administração Blair no início deste século)  votaria REMAIN, ficar na UE.

“Eu votaria REMAIN porque vivo em Itália, um país que beneficiou enormemente com a sua adesão à União Europeia como um dos signatários iniciais do Tratado de Roma para, e  por  quem  o projecto foi  concebido  (uma das potências derrotadas  do Eixo  à procura do seu remédio) e em que os benefícios sobretudo actualmente  vão  para o Reino Unido.

A Itália é um país de trânsito para os novos emigrantes que passam e saem pelo Mediterrâneo e em que o encerramento das fronteiras de um dos países principais de acolhimento dos migrantes (ao contrário do trânsito de migrantes) na UE teria efeitos adversos em transferência dos emigrantes para o norte e gera conflitos sérios com qualquer tentativa para os parar aqui em vez de  transitarem a caminho da  Alemanha, Suécia,  França e  Reino Unido.

A Itália também exporta mais de 1 milhão de cidadãos italianos para o Reino Unido onde estabelecem residência e cujos direitos são estabelecidos fortemente na base do Estado Providência aplicado a todos os cidadãos. Perderem uma base de escolha para 1 milhão de trabalhadores italianos seria intensamente perturbador na própria Itália.

Os empregos de alta qualidade em serviços no Reino Unido, nas Universidades, na cultura e na Administração local e internacional para os italianos (e para outros cidadãos da UE) bem como oportunidades de tipo educacativo a baixo custo desde a escola  primária aos níveis de pós-graduação no Reino Unido também estão em jogo com BREXIT.  Os benefícios da Segurança Social aplicados na Grã-Bretanha aos trabalhadores italianos a todos os níveis de ambos os países, no Reino Unido (como é o caso com muitos filhos, regressados a Itália), e no país de origem são muito valiosos e não devem ser perdidos.

A Itália pode ser um contribuinte líquido para o orçamento da UE, mas a sua contribuição deve ser definida contra as transferências directas benéficas e subsídios estabelecidos directamente do Reino Unido, apesar do Reino Unido não ser um membro da zona euro e fazer crer ao seu  eleitorado que existe um ‘opt-out’ para tais  transferências.

Claro, se eu estivesse a viver na Inglaterra eu teria uma visão diferente de toda a questão – uma visão dada pelo espelho, como poderia assim  ser chamada.  Mas como uma cidadã italiana e residente em Itália, a última coisa que eu quero ver é um ganso a  largar os  seus ovos de ouro”.

Em conclusão, não é uma questão de lealdades divididas, nem de indecisão, mas um conflito de interesses entre duas alternativas de diferentes capacidades. Se morasse no Reino Unido, votaria LEAVE.

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[1] Tradução de Júlio Marques Mota, revisão  de Joaquim Feio.

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Ver o original em:

https://dmarionuti.blogspot.pt/2016/06/brexit.html

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